Resgatando a Chaminé Moganga

03 de dezembro de 2024

Relato por Igor Costa

Cordada composta por: Waldecy Lucena, Fernando Fajardo ‘Velho’, Alexandre ‘Xandão’ Gomes, Guilherme Valle e Igor Costa

 

Wal e Velho (Waldecy Lucena e Fernando Fajardo) há tempos queriam escalar a Chaminé Moganga, primeira via do CERJ, conquistada em 1939, ano de fundação do clube, quando ainda se chamava CBE (Centro Brasileiro de Excursionismo). Alguns anos atrás, inclusive, haviam feito uma investida em busca da base da via, que não era escalada há várias décadas – um levantamento nos boletins do CERJ mostrou que a última referência a ela é de um boletim de junho de 1974, quando se anunciou no clube a conquista do Paredão Bang-Bang, feita pelo Carioca (CEC).

Foto 1 – Última referência à Chaminé Moganga nos boletins do CERJ. (Boletim Informativo do CERJ, nº 426, junho de 1974: https://cerj.org.br/wp-content/uploads/2021/10/Boletim-426-Junho.pdf)

 

Sabendo dessa história, e curioso como é por escaladas de aventura, Xandão (Alexandre Gomes) começou a correr atrás disso. Nesse ínterim, Wal recebeu, em 2024, o relato de uma cordada que havia não só encontrado, mas repetido a via. Ela era composta por Guilherme Valle e João Daniel Santos, verdadeiros síndicos da Pedra do Moganga e vastos conhecedores das vias do local, administradores do perfil @escalada_moganga, no Instagram, que vale a pena conhecer. Eles haviam, inclusive, conquistado algumas curtas e picantes variantes da chaminé original (A Fissura Corações e Mentes – IV E2, 30 metros; e a Fissura Elevador de Macaco – VI E2, 30 metros, ambas protegidas integralmente em peças móveis).

 

Xandão então entrou em contato com eles, que foram muito prestativos e forneceram todas as instruções para o acesso à base e inclusive nos passaram um croqui da via, que estava disponível no Instagram citado. Mas, surpresa mais do que agradável, no dia que marcamos de ir lá, o Guilherme apareceu e acabou nos conduzindo por todo o caminho, o que facilitou muito a nossa investida.

Foto 2 – Croqui elaborado por Guilherme Valle e João Daniel Santos após a primeira repetição da Chaminé Moganga (croqui elaborado antes da possibilidade de na verdade serem três chaminés – veja o final deste artigo).

 

Sendo assim, 7h27 da manhã do dia 03 de dezembro de 2024, começamos a trilha na curva do S da Avenida Edson Passos, justamente no trecho em que diversos grupos religiosos deixam suas oferendas. Rapidamente cruzamos o riacho que por ali corre e encontramos o Guilherme enchendo suas garrafas na caixa d’água, onde há umas tubulações de PVC bem visíveis (veja o tracklog de aproximação para os pontos citados aqui). Dali ele nos conduziu até o Bambuzal, depois até a base da via Aerolitos (3º IV E2) e, por fim, até a base de um grotão, onde há um antigo muro em ruínas e uma escadinha, pela qual subimos. Passamos então pela base da Nem tudo está perdido (5º VIIa D2) e então chegamos, por fim, às 7h53, à base do Paredão Manoel Alves (5º VI A1 E3 D2), ou seja, cerca de 25 minutos depois do início da trilha. A grota à direita do óbvio diedro do Manoel Alves é o início da Chaminé Moganga.

Foto 3 – Guilherme Valle na base da Chaminé Moganga, que segue a óbvia linha do grotão acima.

 

A subida foi espinhosa – literalmente, devido à vegetação –, mas fácil. Tanto que sequer nos equipamos. Apesar de haver uns trechos levemente expostos, os lances são bastante fáceis, não configurando sequer uma escalada e sendo melhor descritos como um trepa-mato. Vale a pena, porém, colocar o capacete, visto que há muitas pedras soltas que podem atingir quem vem abaixo. Após uns 60 metros de subida, chega-se a um pequeno platô onde termina a variante Dorso da Moganga (3º IV, 80 metros). Cuidado, pois o lance é exposto, mas há um grampo branco atrás de um bloco grande de pedra.

Foto 4 – Grampo final da Dorso da Moganga.

 

Continuamos então o trepa-mato por mais uns 60 metros até encontrarmos uma grande parede à frente, quando então se deve fazer uma caminhada para a direita por uns 30 ou 40 metros. Novamente, os lances são fáceis, mas é preciso atenção, pois há um despenhadeiro à direita. Cair neste trecho não é uma opção. Sobe-se então mais um longo trecho de trepa-mato pelo grotão, negociando o melhor caminho por ele – às vezes saindo para a parede da direita, às vezes subindo pelas raízes e troncos dentro da canaleta – até se chegar a um trecho sem saída, na entrada do qual há uma árvore grande, quase bloqueando a passagem. Neste trecho o grupo teve que se equipar.

Foto 5 – Trecho sem saída pelo grotão em que se começa a escalar de verdade. Na foto, Guilherme e Igor (de capacete) se equipando.

 

Esse lance foi guiado pelo Guilherme com segurança minha, que protegeu a saída com um camalot médio (BD .75, se não me engano), passando para cima do teto onde estávamos abrigados. Com a ajuda da árvore é bem simples ganhar o lance. Vem então um trecho chato com muitos cipós e chega-se a uma chaminé mesmo, dentro da qual há dois grandes vergalhões antigos. Faz-se a chaminé com as costas para os vergalhões e então alcançam-se boas mãos nos blocos à frente, local onde foi colocada a segunda proteção (um Friend WC 3.5 com uma fita longa). Esse trecho é bem divertido de fazer. Com uma corda de 60 metros e uma de 20 emendadas, fizemos o lance os 5 participantes, sem precisar jogar a corda para baixo, que seria algo bem complicado.

Foto 6 – Velho na saída do trecho de escalada, usando a árvore como apoio para fazer o lance.

 

Acima dos blocos, pode-se fazer parada em uma árvore no topo de uma pequena “paredinha” de pedra – local bom para se bater uma parada dupla, aliás. Passando esse bloco, sobe-se mais uns 15 metros e chega-se à base da Fissura Elevador de Macaco, onde há uma grande palmeira, que pode ser vista inclusive da estrada. Nesse trecho descansamos um pouco e tomamos um pouco de água, ficando refletindo sobre como o pessoal fazia esse lance nos anos 1940. Talvez seguissem reto pelo grotão, de algum modo, ou usassem troncos para vencer o lance. Mas não vimos quaisquer sinais de grampos antigos.

Foto 7 – A base da Fissura Elevador de Macaco.

 

Nesse ponto, nos desequipamos totalmente e tocamos para cima, passando sobre uns resquícios de madeira velha e canos de PVC abandonados, restos da obra de contenção que segura os tetos mais acima, provavelmente. Mais uma vez, é um trepa-mato em meio a raízes e cipós até chegarmos a uma fenda meio espremida que o Velho apelidou de Máquina de Lavar – ao sair do lance, você inteiro terá que se jogar dentro de uma para sair limpo. O lance é ao mesmo tempo muito fácil – segundo o Xandão, é um Zero Sup –, mas também muito difícil – escorregadio, apertado, cheio de terra caindo nos olhos… verdadeiramente irritante! E te deixa imundo! O ideal é jogar a mochila em cima de uma pedra que existe entalada e então fazer o lance, resgatando a mochila de cima, de uma posição mais confortável.

Foto 8 – Velho, entalado e irritado, no Lance da Máquina de Lavar, que ele demorou uns bons 10 minutos para vencer.

 

Passado esse lance, chega-se exatamente na base das contenções de concreto. Subimos então um bloco onde há dois vergalhões e contornamos um outro bloco de pedra, alcançando o seu cume. Pronto! Esse era o fim da via. Tínhamos feito a Chaminé Moganga, primeira via conquistada pelo CERJ, 85 anos atrás! De algum modo, sentimo-nos todos também parte da história do clube. Tiramos uma foto e descemos pela trilha, que é bem óbvia, alegres e satisfeitos com a nossa aventura.

Foto 9 – A cara de felicidade das crianças depois da aventura no parquinho.

 

Dado esse cenário de fim da aventura, sentamos para pensar a respeito, sobretudo a fim de elaborar o material do Vias Clássicas para a Chaminé Moganga. Daí, pedimos ao Guilherme que nos enviasse o seu relato da redescoberta. E nesse ponto percebemos que talvez não tenhamos escalado a “verdadeira” Chaminé Moganga, até porque não haveria uma, mas três chaminés.

 

Algo que o Guilherme e o João Daniel já tinham percebido é que no Boletim Informativo do CERJ, de agosto de 1939, diz-se que foram conquistadas não uma, mas três chaminés, chamadas coletivamente de Chaminés do Moganga, assim mesmo, no plural. Seus nomes seriam: Chaminé Piolet (a da esquerda); Chaminé CBE (a do centro); e Chaminé dos Cinco (a da direita).

Foto 10 – Boletim Informativo do CERJ, agosto de 1939.

 

Diante desses dados, o Guilherme acredita que a chaminé da esquerda, que tem a mesma base que a Manoel Alves, é na verdade a Chaminé Piolet, sendo justamente essa que escalamos no dia 03 de dezembro. As demais, já tomadas pela vegetação, foram escaladas por ele e pelo João Daniel em outro momento, mas ficariam localizadas, grosso modo, entre as vias Mãe Ganga e Dorso da Moganga (Chaminé dos Cinco); e à esquerda do Dorso (Chaminé CBE). Essa é a tese do Guilherme.

 

Destaque-se, porém, que o Boletim do CERJ, de março de 1940, diz que as chaminés Piolet e CBE estão “em seguimento”, ou seja, uma depois da outra, acrescentando uma informação de certa forma conflitante com a anterior.

Foto 11 – Boletim Informativo do CERJ, março de 1940.

 

Uma leitura possível é que, de fato, a Chaminé CBE está mais à direita da Chaminé Piolet e mais acima desta. Seguindo essa linha de raciocínio, a Chaminé Piolet seria aquela que compartilha a base com a Manoel Alves e a Chaminé CBE seria àquela mais à direita, depois do lance de caminhada na horizontal. Essa, porém, é só uma hipótese que estou formulando aqui, sem discuti-la em detalhes com o Guilherme e com o João, que conhecem a região muito bem.

 

É difícil, porém, afirmar com convicção devido à ausência de croquis antigos ou de pessoas que tenham repetido tais vias quando elas estavam no seu auge. Seja como for, continuaremos na nossa busca.

 

Obrigado, Guilherme, por redescobrir a via e nos levar até lá.

 

E obrigado Xandão, Wal e Velho, por me colocarem nessa roubada com vocês!

 

Aguardando ansioso pela próxima!

Igor Costa