Desde que, nos idos do final do ano passado, encontrei alguns esfarrapados retornando de uma tentativa frustrada de reabertura da Travessia Quarta Torre – Vale dos Frades, fiquei com muita vontade de fazer algo parecido. Finalmente a oportunidade surgiu. O convite foi repentino. Miriam me ligou na quinta-feira, dia 7 de setembro, me convidando para irmos terminar a empreitada que ela e outros tinham começado. Sem muito pensar, aceitei. Miriam, Gerardo e Aníbal haviam partido na sexta-feira, dia 8, para Bonsucesso. Eu e Bula, iríamos no sábado pela manhã direto para o Vale dos Frades e resgataríamos o Gerardo, que lavaria um dos carros para o que seria o destino final de nossa excursão. De lá iríamos os três para Bonsucesso, onde começaríamos a caminhar.
Partimos. Conversamos sobre os mais variados assuntos e não sentimos o tempo passar. Antes mesmo de chegarmos ao Vale dos Frades, encontramos o Gerardo na estrada. Sincronismo perfeito. Deixamos um dos carros e fomos de encontro à Miriam e ao Aníbal. Começamos a caminhar. A cada dia em que passo ao lado de montanhistas, percebo que vivi até então em um mundo, no mínimo, diferente. A lógica de meus amigos engenheiros é muito diferente da lógica de meus amigos montanhistas. Devo confessar que ainda não me acostumei a saltar rapidamente de um mundo para o outro e, às vezes, tropeço gravemente. Esta excursão teve alguns exemplos desta minha dificuldade. Logo de início aconteceu o primeiro. O bosque que leva ao início da abrupta subida para a Quarta Torre sempre causa atrasos graças às não raras vezes em que nos perdemos. Desta vez não foi diferente. Em um destes momentos em que aguardávamos o Gerardo apontar o nosso caminho, me vi ao lado de uma árvore aconchegante e convidativa. Dei uns dois passos para a esquerda e, sem retirar a mochila de minhas costas, encostei-a na tal árvore. Considerando que minha mochila pesava quase um terço de meu peso, antecipei o prazer que viria de meu inocente ato. Antes mesmo que eu pudesse emitir aquele “ahhhh” que só se emite durante o gozo, ouvi a voz do Bula: “Moniquinha, evite sair da trilha para não destruir a vegetação”. Resignada recobrei minha postura e dei dois passos de volta à minha direita. Olhei para o chão. Vi muitas folhinhas, uma abundância delas, todas iguais, recobrindo o bosque. Pensei como os engenheiros: “se a trilha fosse clara, por que estaríamos parados esperando que alguém procurasse por ela?” Sem descobrir o furo de meu raciocínio, imaginei que fosse apenas um problema de escolha da lógica adequada. Achamos a trilha e seguimos.
Estávamos todos muito bem entrosados e falantes, o que nos ajudou a superar o “toca pra cima” inicial da caminhada. Nossos rapazes, neste ponto, já haviam colocado seus facões para fora para vencer alguns obstáculos. Avançamos sem maiores problemas até um trecho em horizontal, que fizemos encordados. Aqui aponto outro exemplo da discrepância entre o mundo dos engenheiros e o mundo dos montanhistas. No mundo dos engenheiros, a palavra “horizontal” remete a suavidade, brandura, ou seja, algo desejável. Já a palavra “vertical” é sinônimo de algo abrupto, violento e, portanto, desagradável. Para os montanhistas os significados destes dois termos são opostos. Seja lá como for, para evitar confusão e perigos desnecessários, desde que comecei a escalar, só durmo em pé. Deitar nem pensar, a não ser que queira fazer algo mais radical, violento ou emocionante. E, de preferência, amarrada por uma corda.
Após a horizontal, veio o “costãozinho”. Esta é outra palavra que me causa arrepios. “Costãozinho” para mim soa como uma pirambeira na pedra que você faz sem segurança. E se você tece algum comentário a respeito, a resposta não tarda: “confia na bota”. Desta vez me rebelei: “quero corda”. Meu amigo Bula, muito gentil, imediatamente me atendeu. Ele e minha mochila travaram uma verdadeira batalha. Me senti o próprio “joão-bobo”. Enquanto a mochila me puxava para os lados e para trás, meu amigo, incansável, me puxava para cima. Desnecessário dizer que o Bula venceu.
Seguimos até o cume da Quarta Torre. A Miriam estava certa de que terminaríamos a nossa empreitada naquele mesmo dia. Havia a esperança de dormirmos no Vale dos Frades. Mas… A coisa não evoluiu exatamente assim. Após um rápido lanche, prosseguimos. Chegamos a um local perfeito para acamparmos, mas tentamos ir mais adiante. O Gerardo, munido de um relato antigo, lia-o repetidas vezes. O relato mencionava uma trilha por onde passavam animais e meu amigo argentino imaginava encontrá-la parcialmente aberta, o que não aconteceu. Chegamos a um lajeado onde víamos claramente o desafio à nossa frente. A palavra-chave para vencê-lo era “Cabecinha”. Antes de começarmos a exploração, tentamos identificar na paisagem os detalhes do relevo citados pelos nossos antecessores. Devo confessar que nem a Cabecinha era muito evidente para mim. Eu via pelo menos duas, bastante afastadas entre si, o que deixava claro que a escolha da Cabecinha errada poderia trazer péssimas consequências para nós. Meus colegas logo identificaram a Cabecinha correta e a crista que levava até ela. A missão de atravessar toda aquela vegetação me parecia impossível, mas confiei na experiência dos demais.
Como a noite chegaria logo, após algum debate, decidimos voltar ao local onde acamparíamos. Aqui vale destacar que o local era muito amplo. Ele comportaria as nossas barracas e muitas outras se houvesse. Sem muito exagero, era quase do tamanho de um campo de futebol. Pois bem. Acampamos, jantamos sob céu estrelado, conversamos, nos divertimos. No dia seguinte, Miriam, Gerardo e Aníbal saíram para a exploração, enquanto eu e Bula, mais preguiçosos, permanecemos no acampamento. Não tardou e os três retornaram. Tudo prosseguiu como de costume a menos de um pequeno detalhe. Aliás, não sei se era muito pequeno, já que no meio de toda aquela amplidão ele foi facilmente identificado por um de nós. Nosso entrosamento foi de fato sensível e muito bem expresso pelo grito da Miriam: “Alguém teve a mesma ideia que eu!!!” Comovido por aquela sintonia ou talvez orgulhoso de sua obra, Bula se manifestou prontamente: “Fui eu!!!” Miriam, que também deve inspirar-se na menina Pollyana, gargalhava enquanto tirava da sola de sua bota o “pequeno detalhe” deixado por Bula. O tom verde predominante naquela imensidão havia ganho uma sutil pincelada marrom.
Partimos novamente para a exploração, agora todos juntos. Antes, porém, Gerardo sacou o seu facão e, com tom professoral, me deu uma lição de faconadas. Aluna atenta, entendi que eu deveria lembrar de três coisas básicas. Só não consegui saber quais eram. Mas um detalhe da lição não me escapou: de preferência, eu não deveria amputar nenhuma parte de meus companheiros. A princípio, me coube um papel secundário na atividade. Enquanto os demais abriam caminho na vegetação com seus facões, eu deveria fazer os “arremates”. Me conformei e segui quebrando um galhinho aqui, afastando outro ali. De repente, veio o convite inesperado. Me senti como um reserva da Seleção Brasileira que tem a oportunidade de entrar em campo em jogo de Copa. Peguei um facão e comecei a destruição. Explicar o prazer que advém de cada um daqueles movimentos brutais é como tentar explicar um orgasmo: impossível!!! Todos os músculos do corpo coordenados respondendo a um único e primitivo instinto: destruir. Qualquer resquício de racionalidade desaparece diante daquela fúria quase animal. Segui possuída de prazer até que uma voz me trouxe de volta à minha humanidade: “Moniquinha, devolve o facão pois os homens são mais rápidos”. Embora desejasse, não resisti. Devolvi o facão e olhei em volta para verificar se meus amigos haviam saído ilesos de meu transe. Felizmente, eles tinham todos os seus membros intactos. Seguimos abrindo caminho até chegarmos a um ponto onde pudemos observar de cima o nosso feito. Constatamos que nossa abordagem havia sido completamente errada. A Cabecinha havia ficado de fora de nosso caminho.
Como já era um pouco tarde, decidimos iniciar o nosso retorno. Tudo correu bem até que chegamos a um local onde deveríamos descer de rapel. O Bula havia aberto os procedimentos e a Miriam o seguia. Eu, Gerardo e Aníbal aguardávamos. De repente, mais um grito da Miriam. Eu fiquei um pouco confusa até entender que a nossa guia havia lançado a sua própria mochila abismo abaixo. Eu não podia vê-la, mas a ouvi dizendo: “dá pra descer”. Ela queria descer caminhando até sua mochila. Novamente, imaginei estar diante de um problema de lógica. Afinal, se podíamos descer caminhando, por que estaríamos fazendo rapel? Antes mesmo que eu pudesse me manifestar, o Aníbal me disse categórico: “fica quieta aí, pois a coisa não está boa”. De fato, o clima estava tenso. Como sempre acontece com os casais, diante da situação complicada, os Bamo começaram a brigar. Quem manteve a ordem foi o Bula. Após impedir que a Miriam descesse o abismo, ele reiniciou o rapel. Aqui, novamente, um pequeno detalhe merece destaque. Talvez agradecida ao Bula pela sua firmeza diante da situação, talvez ainda emocionada com a pequena obra com a qual ele a havia presenteado naquela mesma manhã, a Miriam decidiu homenagear o rapaz. Enquanto os dois aguardavam os demais em um pequeno platô, ela pediu que eu fizesse chegar até ela o meu papel-higiênico. Agora era a sua vez de deixar uma marca na paisagem. Marca cujo observador exclusivo seria o Bula. Que belo gesto!!!
Terminamos os rapéis e, sem muita esperança, meus amigos foram tentar resgatar a mochila lançada lá de cima. Para a felicidade de todos nós e dos “voluntários” ausentes que, mesmo sem saber, já haviam sido escalados para participar da operação resgate no final-de-semana seguinte, a mochila foi encontrada.
Chegamos a Bonsucesso no final do dia. Miriam e Bula foram pegar o carro que havíamos deixado no Vale dos Frades, enquanto os demais aguardavam. A espera foi agradável, embora longa. Aliás, mais longa do que o esperado. Acontece que, como é comum em lugarejos como aquele, havia vários cães ao longo da estrada. O Bula, comovido com a solidão de alguns deles, resolveu reunir as famílias caninas. Isto lhe custou várias idas e vindas no caminho, em uma operação de difícil convergência. Este último e singelo detalhe de nossa excursão eu jamais vou esquecer, já que, o transporte dos cãezinhos foi feito sobre o meu tênis, que estava no chão do carro. Com o balanço, um cãozinho não se conteve e batizou o meu tênis, que até hoje tem um cheirinho especial.
Bem, como diz um amigo de Clube: “se tudo der certo, vai dar merda”. Acho que nossa viagem pode ser muito bem resumida por esta frase, literalmente falando. Mais uma excursão com a cara típica do CERJ…
Mônica Costa