Pesquisando rotineiramente na internet notei que aumentaram os relatos sobre a travessia Lumiar-Sana publicados nos sites especializados. Ano passado, em conversa no CEG, Bárbara Franz declarou que gostaria de fazer essa trilha. No início desse ano, Cadu Diniz, sócio do CEL e funcionário do PETP na época, também mostrou curiosidade em refazer aquele roteiro. Finalmente, poucos meses atrás, em grupo de whatsapp de montanhistas, recebi a informação que a travessia havia sido sinalizada. As mensagens dos deuses eram claras e decidi pela " ;prancheta” para o dia 21.09.19.
Foi uma surpresa constatar que a excursão despertou o interesse de tantos colegas, 23 para ser exato. A logística pedia a contratação de uma van para deixar o grupo na entrada e resgatar na saída, 35 km adiante. Rapidamente a van lotou. A ideia original foi fazer um bate-volta no mesmo dia, sábado, todavia, nos debates entre os participantes, a sugestão de ficar no domingo para subir o Peito de Pombo ganhou força. Uma nova variável entrou na história, o pequeno Miguel, filho do Marcelo e Anabel. Em paralelo, alguns sócios informaram que teriam que retornar no sábado. O planejamento ficou mais complicado, pois não queria deixar ninguém de fora. Consegui negociar a pousada São Pedro do Sana, lugar que me pareceu apropriado para todos, pois conjugava camping, suítes, banho de rio, café da manhã e ambiente espaçoso, confortável e aprazível perto da saída da travessia e próximo à vila de Sana. Ainda havia um problema a ser resolvido: como resgatar os participantes que voltariam no sábado! Felizmente eles se organizaram em dois veículos, permitindo a única solução possível. Assim, resumidamente, um dos carros foi deixado na saída da trilha e seus ocupantes foram distribuídos entre o segundo carro e a van. Esse segundo carro subiu até a entrada da trilha, onde foi deixado. Após o término da caminhada, o primeiro carro subiu com o motorista do segundo até a entrada da trilha e ambos os carros voltaram até a pousada para prosseguir viagem para o Rio com seus respectivos ocupantes. Ufa!
Marquei o ponto de encontro na loja de conveniência do Posto BR da Radial Oeste, perto da Praça da Bandeira, às 05:30 horas. Local confiável, movimentado, conhecido por taxistas e motoristas de aplicativos e acessível para a maioria dos participantes. Entre adesões e desistências totalizamos 13 pessoas na van e 7 sócios nos dois veículos. Na van estavam Amaralina, Anabel, Bárbara, Beatriz, Carrasqueira, Charles, Draga, Felipe, Fernando Cabelo, Hernando, José Guimarães, Marcelo, Natascha e o pequeno Miguel na cadeirinha. No carro do Caiê foram Daniel, Moacyr e Valéria e no carro da Míriam foram Christina e Lourenço. Em Lumiar entrou o último passageiro, Cadu Diniz. Começamos a caminhar por volta das 10:3 0 horas, no entroncamento da Estrada do Amargoso com a Estrada Santa Margarida, nas proximidades do Hotel Parador Lumiar, bairro Boa Esperança, na altitude aproximada de 800 m. Todos os relatos que li mostravam que os grupos começaram a trilhar no acesso da cachoeira Indiana Jones, contudo a van do Gabriel não chegaria até lá devido à forte declividade da estrada de terra. Decidi por um caminho diferente, mantendo a previsão de 7 horas de duração da atividade.
A travessia apresenta um perfil clássico de montanha, com uma subida única, um cume de transposição e uma descida direta. No trecho inicial, duas declividades distintas podem ser encontradas (íngreme no início e suave depois). A subida passa por antiga estrada vicinal e adentra em uma bela mata bem preservada, com muitas árvores criando um agradável ambiente sombreado entrecortada por três córregos com água fresca e habitada por pássaros cantantes, com destaque para as arapongas que sonorizavam ao nosso redor. Perto das 12:15 horas chegamos ao ponto culminante da caminhada, com 1.400 m de altitude, um lugar relativamente plano, amplo, descampado e conhecido como alto da Serra Queimada. Nesse dia havia muita neblina densa e baixa, impedindo qu e desfrutássemos da linda vista ali ofertada. Um mês antes, fiz um reconhecimento da trilha com Cadu e tivemos sorte de encontrar o horizonte totalmente limpo, onde pudemos avistar o imponente pico do Caledônia, a lagoa de Juturnaiba, o complexo de Rocha Leão, a malha urbana de Rio das Ostras, os prédios da cidade de Macaé, o belo recorte do litoral, o inconfundível morro de São João, o magnífico Frade de Macaé, as montanhas vizinhas do Molesson, Macabu e Cabocla e o vale de Sana. Fizemos uma parada prolongada para descanso, lanche de almoço e registros fotográficos. Apesar da beleza cênica, esse local está em franco processo de degradação ambiental, devido principalmente aos vestígios de corte de árvores e fogueiras, demonstrando ser frequentado por pessoas inconsequentes que costumam acampar por ali.
A descida me preocupava um pouco! Nos relatos que li e nos tracklogs que vi, todos mostravam que haveria um ponto no qual a trilha faria 90o e desaparecia por dentro de um pasto. Porém, me sentia seguro na caminhada, pois já tinha analisado as imagens de satélite no computador, mapeado todo o percurso mentalmente e conseguia identificar o relevo montanhoso in loco à medida em que avançávamos, tudo conferindo com o que tinha estudado. O lado do vale de Sana é bem diferente em relação à subida por Lumiar, uma vez que as inúmeras e extensas pastagens preenchem o visual, com poucas matas em destaque. O caminho é mais exposto ao sol e desce pela cumeeira, acompanhando uma cerca divisória de propriedades rurais, com cons tantes vestígios de gado. Ao passar pelo interior de um fragmento florestal fomos agraciados pelo desfile de uma encorpada cobra que julgo ser coral (lembrei-me das aulas de Animais Peçonhentos dos CBMs), motivo de euforia e muitas fotos. Logo após esse encontro veio a incômoda travessia do tal pasto, tensa pela declividade íngreme, pela altura da vegetação na coxa e pela impossibilidade de visualizarmos onde estávamos pisando – a coral permanecia no imaginário! A neblina impedia o contato visual com o fundo do vale, aumentando a insegurança, mas eu sabia que havia uma casa lá em baixo.
O susto passou e chegamos a um refrescante riacho, onde paramos para descanso e recomposição dos nervos. A partir desse ponto a trilha deixa de existir como definição dos montanhistas e assume a forma de caminhos rurais tradicionais que interligam as propriedades rurais vizinhas, ora como trilho de animais, ora como estradinhas vicinais. Vez ou outra cruzamos com rebanhos de vacas mais assustadas do que nós, mas o que mais chamou minha atenção foram as casas fechadas que encontramos, pelo menos cinco ou seis moradias simples. Será o tal êxodo rural tão falado pelos sociólogos? Conforme descíamos na topografia acompanhando o vale do rio São Bento, passamos para estrada vicinal e começaram a aparecer sítios recreativos habi tados, mudança no perfil econômico de ocupação fundiária. Logo encontramos postes com fiação elétrica, um fusquinha, pousada em construção e … não, não era uma miragem: um bar! Cerveja, sinuca e a boa prosa contada pelo povo humilde do interior. Nessa região o rio permite banhos revigorantes.
Chegamos ao entroncamento com a estrada de Sana às 16:30 horas, após cruzarmos a ponte, paramos no ponto de ônibus para breve descanso e reagrupamento e tocamos para a pousada, bem pertinho. A altitude média ali é de 200 m. Totalizamos 16 km e 6 horas de diversão, solidariedade, descobertas de caminhos e paisagens e a certeza de que amamos esse esporte e compartilhamos de uma cumplicidade social que nem sempre é bem compreendida por familiares e amigos. Tem momentos que é ruim, mas é bom! Travessia Lumiar-Sana, mais uma figurinha para o álbum!