Relatório – Travessia Vale dos Frades x Vale dos Lúcios

Por Vanesa Ogliari, Raissa Pose e Albedi Junior

Data: Sábado, 26 de julho de 2025
Participantes: 17 pessoas
Finalizaram: 14 pessoas
Objetivo: Reabertura de trilha entre o Vale dos Frades e o Vale dos Lúcios, em Teresópolis (RJ)
Ponto de encontro: Padaria Canoas, Estr. Diógenes Pedro da Costa, 701 – Vargem Grande, Teresópolis
Horário de início: 7h

Contexto Geral

A proposta da travessia foi ambiciosa: reabrir uma trilha fechada há alguns anos pela ausência de outros grupos e pelo avanço natural da mata. O desafio exigia mais do que preparo físico — pedia espírito de equipe, estratégia e, principalmente, amor pela montanha.

Para aumentar a probabilidade de sucesso, o grupo foi dividido em duas equipes que partiram de pontos opostos com o objetivo de se encontrar no meio da trilha:

EQUIPE VALE DOS LÚCIOS

Miriam Gerber (guia, carro)

Anderson Monteiro (carro)

Verônica Reis

Fábio Xavier

Thamyres Reyneres

Carol Loppi

Cynthia Amado

Elisa Goldman

Vanesa Ogliari

Julia Vallier

Ponto de partida: Estacionamento próximo à entrada da trilha do Vale dos Lúcios
Horário de início: ~8h30
Acompanhados por: o cão local apelidado carinhosamente de Patinha, por sua única pata branca.

EQUIPE VALE DOS FRADES

Adhemar Sette (carro)

Philipp Moritz (carro)

Daniel Rodriguez

Hernando Bedoya

Raissa Pose

Tiago Magaldi

Albedi Junior

Ponto de partida: Vale dos Frades, início da caminhada para Mirante dos Frades

Estratégias de logística

Duas equipes saindo em sentidos opostos, deixando dois carros em cada extremo para o retorno.

As chaves foram deixadas sob os pneus esquerdos dos carros para o caso das equipes seguirem por caminhos distintos.

Ocorrências durante a travessia

Hernando precisou retornar no início da subida do Vale dos Frades por conta de fortes câimbras.

Adhemar também não conseguiu seguir devido a indisposição física.

Tiago, solidário, acompanhou o retorno do amigo.
→ Esses três não concluíram a travessia, totalizando 14 finalizadores.

Reabertura da trilha

A trilha estava coberta por vegetação densa, em especial entre a Gruta Maior e a área de acampamento. Foram utilizadas ferramentas manuais (facões e tesouras de corte) para vencer trechos de bambuzal e vegetação fechada. O aplicativo de GPS e a experiência da guia Miriam Gerber foram essenciais para manter o rumo correto e seguro.

Pontos marcantes da jornada da Equipe Vale dos Lúcios:

Subida intensa no início, até a bifurcação com as Torres de Bom Sucesso.

12h: Chegada à Gruta Maior, onde fizeram uma pausa para lanche.

Reabertura lenta e exigente da trilha a partir desse ponto até o reencontro das equipes.

Pontos marcantes da jornada da Equipe Vale dos Frades:

Início com ritmo de caminhada forte, e longa subida até o primeiro lajeado, de onde se tem uma vista linda para o Vale dos Frades. Logo no início da subida, Hernando sentiu cãibras na panturrilha e decidiu retornar. Daniel se ofereceu para descer com Hernando e levá-lo ao centro da cidade, para que de lá ele pudesse pegar um ônibus, e ficou decidido que Daniel voltaria e encontraria o grupo no caminho, que continuou sua subida.

Ao terminar a parte mais crítica da subida, outra baixa no grupo, Adhemar passou mal, pelo esforço e por estar se recuperando de uma gripe, e o grupo decidiu esperar Daniel no lajeado. Cerca de 30 minutos de espera e Daniel se junta novamente ao grupo para decidirmos o nosso rumo. Eram quase 10:30h e foi cogitado todos abortamos a trilha e retornarmos junto com Adhemar, mas havia a preocupação do grupo do Vale dos Lucios não conseguir abrir a trilha inteira pelo lado deles, e terem que retornar sem conseguir completar a travessia. Decidimos que, mesmo que não fosse possível completar a travessia, o quanto conseguíssemos abrir a trilha, já ajudaria o outro grupo a completar sua caminhada. Tiago se ofereceu para voltar com Adhemar e seguimos então em quatro pessoas: Daniel, Albedi, Philipp e Raissa.
O grupo retomou uma caminhada pesada, liderada por Daniel, com alguns trechos de subida e ainda em trilha já aberta, até o bosque do acampamento, onde paramos para lanchar e começar a abertura de trilha de fato. Cerca de 12h00 começamos a navegar com Daniel abrindo a trilha com um facão, Albedi atrás limpando a trilha e marcando as árvores com um segundo facão, Philipp acompanhando o traçado no GPS e Raissa amarrando fitinhas nas árvores, para facilitar a navegação do outro grupo. A partir daí, o avanço foi bastante lento, pois a trilha já estava completamente fechada, e era majoritariamente atravessando um bambuzal, demandando mais esforço para abertura do caminho.
A parada para o lanche na área de acampamento foi um momento de contemplação, a área é formada por um bosque submontano com árvores espaçadas entre si que permitem a entrada da luz do sol formando belas imagens dentro da floresta, com ela, o vento frio da montanha nos pegou e, nesse momento, colocamos nossas fleeces, anoraks para nos aquecer enquanto estávamos parados lanchando. No lindo bosque, alguns moradores começaram a ser percebidos através dos seus belos cantos, o primeiro foi o Pula-pula (Basileruterus culicivorus) uma ave bem pequena, mas que tem um belo canto com assovios repetidos e curtos, logo depois outro pequenino, o Miudinho (Myornis auriculares) marcava seu território com seu canto curto e repetidos de um “ti-ti-ti-ti” e já emendava outro “tri-tri-tri” deixando tudo mais mágico, o bosque é um área importante dentro da floresta, nela, algumas espécies de animais invertebrados e vertebrados tem sua vida restrita a essa paisagem e seu entorno.
Após a pausa no bosque encantado, continuamos e cerca de 50 metros depois foi avistado um ser minúsculo do tamanho da unha do dedão da mão, um adulto, era uma Rãnzinha-do-folhiço (Adenomera sp.) que tem hábitos diurnos e estava em plena atividade buscando seu alimento sobre a serrapilheira da floresta atlântica, a riqueza dos sons dos animais era constante em todos os trechos da floresta, Jacús, Chorózinhos, Choquinhas, Sabiás, Saíras, gaviões e um beija-flor-roxo compunham a trilha sonora da trilha, alguns metros depois havia um conjunto de rochas que formavam belas tocas, que provavelmente, são de alguns moradores felinos que habitam aquela mata.

Avançamos conversando e sentindo o frio do dia que havia nublado, paramos para lanchar e Daniel anunciou que, se não nos juntássemos ao outro grupo até às 15h, teríamos que começar o retorno, porque não daria para abrir a trilha até o outro lado e completar a travessia. O avanço estava muito lento, e não havia garantias de que nossos grupos se encontrariam. Cerca de 20 minutos depois dessa fala, começamos a ouvir sinais do grupo do Vale dos Lucios se aproximando, e o primeiro grito de localização deles foi respondido, para alegria geral e berros de felicidades do grupo dos Lucios. Um sorriso se abriu no nosso grupo também e, a partir daí, os dois grupos permaneceram em contato, enquanto Daniel abria o restante da trilha guiado pelos sons do grupo do Lucios.

O momento de encontro foi de alegria e paramos todos para lanchar nas pedras de um rio que estava seco, enquanto trocamos histórias dos dois lados. Nesse momento, conhecemos a cachorra que acompanhava o grupo do Vale dos Lúcios, que nos acompanharia até o final, convencida por restos de comida do nosso grupo. Após o encontro e despedida, o grupo do Vale dos Frades seguiu pela trilha já aberta, passando pela Gruta Maior com material abandonado por caçadores e recolhendo as latas de cerveja velhas que haviam sido deixadas na trilha para sinalização. Em certo momento, nos deparamos com um tapete de flores vermelhas que a floresta esticou ao chão para que passássemos, flores da Jade (Erythryna crista-galli) uma árvore em plena floração e se destacando em meio ao verde da floresta. O grupo deu uma última parada no mirante abaixo das Torres de Bonsucesso, contemplando a vista, e seguiu em ritmo forte para o estacionamento. Chegando, devolveram a cachorra à sua casa e conversaram com as crianças da casa, que estavam curiosas como nós levaríamos os carros do grupo que havia passado por ali mais cedo. Detalhe: como não havia garantias que os grupos se cruzariam na travessia, decidimos deixar as chaves dos carros dentro das rodas, para garantir a volta de todos.

Reencontro das equipes

O reencontro das duas equipes aconteceu por volta das 15h em uma grota entre a Gruta Maior e o acampamento — o trecho mais crítico da travessia — aproximadamente no meio do caminho.

Foi um momento de celebração e alívio. Existiam riscos reais de não acontecer: a trilha poderia estar intransponível, algum dos grupos poderia desistir ou ambos os grupos poderiam se perder em trilhas diferentes.

O encontro foi celebrado muita alegria e com um almoço no meio da mata.

A Equipe Vale dos Frades assumiu a guarda da Patinha, levando o mascote montanhista de volta ao ponto de origem com segurança.

Trecho final

A Equipe Vale dos Lúcios seguiu então por trilha já aberta pela equipe oposta. As dificuldades se tornaram menores, com exceção da longa e íngreme descida, que exigiu atenção redobrada.

O clímax visual foi arrebatador: o Vale dos Frades banhado pela luz do fim de tarde, com vista privilegiada do morro dos Cabritos e dos Três Picos, os pés mergulhados na água gelada do rio, e o deleite inesperado de colher frutas cítricas maduras diretamente do pé — limões, laranjas e, com muito orgulho regional, bergamotas (e não tangerinas!).
Pra coroar o cenário, um fio de lua minguante nascendo no céu colorido de fim de tarde.

Encerramento

A travessia foi finalizada por volta das 17h24.
Adhemar retornou às 18h para buscar os amigos.
O desfecho ideal: um jantar em grupo em uma pizzaria local, fechando o dia com risos, histórias e aquele sentimento que só a montanha proporciona — de superação, pertencimento e liberdade.

Conclusão

A missão de reabertura foi bem-sucedida.
A trilha está novamente transitável, e o laço entre os participantes saiu reforçado.
A natureza, generosa, recompensou o esforço com beleza, silêncio e alimento.
E entre câimbras, ferramentas, suor e bergamotas, ficou a certeza: quem anda junto, vai mais longe — mesmo quando o caminho desaparece.