Relato de Escalada – Diretíssima Sul
Data: 06 de setembro de 2025, sábado
Participantes: Eduardo Oliveira e Henri Sidney
Relato por Eduardo Oliveira
Há bastante tempo eu e Henri conversamos sobre a vontade de fazer algumas vias clássicas e desde então marcamos algumas empreitadas juntos e a da vez era a Diretíssima Sul. A Diretíssima Sul é uma via em artificial fixo, A1+ D4 280 m, que está localizada na face sul do Corcovado.
Marcamos uma data em agosto que acabou não acontecendo e então remarcamos para o dia 06/09. Na quinta feira anterior nos encontramos para falar das estratégias e fechar as últimas definições do planejamento. A ideia geral era entrar na via e fazer o que fosse possível visto que os dois fariam a via a vista e nunca havíamos escalado artificial em parafuso. Além disso, tínhamos como meta um tempo de até 10 horas para fazer a via e sair no cume ainda de dia.
No sábado nos encontramos às 5h20 no final da rua Viúva Lacerda e iniciamos nossa caminhada rumo a base da via que se deu às 6h30.
Após nos equiparmos e admirarmos o paredão imponente que estávamos por subir comecei a guiar o primeiro esticão às 7h05. Inicialmente, era aprender a lidar com a quantidade de equipamentos, organizar os estribos e ir progredindo nos parafusos e stubais da época da conquista.
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| Saída da base testando os nuts para ver como era a progressão nos parafusos. | Stubai da conquista e parafuso da reforma. |
A chegada a P1 se deu às 7h50. Esse esticão foi de bastante aprendizado e mostrou que fazendo tudo organizadamente e com atenção ocorre a progressão natural no artificial. Logo montei a parada e fixei a corda que o Henri começou a “jumarear” chegando a P1 às 8h28.
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| Primeiro esticão visto da base. |
Vista da via a partir da P1. |
Em seguida, Henri tomou a dianteira rumo a P2 e chegou lá às 9h42 repetindo o procedimento de fixar a corda para que eu “jumareasse” e assim o fiz chegando a P2 às 10h02. Nesse momento fizemos a avaliação de que chegaríamos ao final da via próximo de 17h e no cume até as 18h.

P2 da época da conquista.
Continuamos nosso revezamento na guiada chegando a P3 às 10h37 e 11h09, a P4 às 12h10 e 12h35 e P5 13h25 e 13h55. Na P5 que é o platô do bivaque fizemos um lanche mais reforçado, reavaliamos o tempo da subida que mesmo a via ficando um pouco mais difícil e demorada por conta da maior quantidade de stubais apodrecidos e a progressão ter passado a ser predominantemente em parafuso ainda chegaríamos ao final da via pouca coisa após as 17h.

Henri fazendo ascensão até a P3.
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Lado esquerdo e direito da parte de baixo do platô do bivaque na P5.

Parte superior do platô do bivaque visto da P6.
Achamos o platô estreito e desconfortável para um bivaque de duas pessoas, mas ao progredir percebemos que há um puxadinho no andar de cima que gera mais “conforto” para passar a noite no caso de uma cordada que decida fazer a via em dois dias.
Agilizamos tudo e Henri partiu para guiar o próximo esticão. Esse esticão era desafiador por possuir um negativo que nos gerou maior cansaço, algumas cãibras e uns mini intervalos de descanso.
Durante esse esticão o tempo que até o momento era estável se mostrou mais próximo da previsão que era de chuva. As nuvens que pairavam sobre o morro Dois Irmãos por toda manhã começaram a se deslocar com um forte vento e névoa. De repente, tudo ficou cinza e sem visibilidade. Trocamos algumas palavras e decidimos nos agrupar na P6 para ver o que faríamos. Antes mesmo do Henri chegar a P6 as nuvens passaram e o tempo abriu novamente.
Com as chegadas a P6 às 15h37 e 16h05 vimos que íamos estourar o tempo das 17h que era o alvo para chegada na P8, mas como faltava apenas dois esticões totalizando 55m e as árvores da floresta já se mostravam pujantes e próximas decidimos seguir em frente.

Vista da P6.
Os dois esticões seguintes, acometidos pelo cansaço de várias horas na parede, fizemos em um tempo bem maior do que prevíamos e chegamos na P7 às 16h55 e 17h32 e a P8 às 18h23 e 18h45.

Vista da P7.

Saída da P8.
Felizes por terminar a via e rumo ao final da K2 que já conhecíamos. Vai dar cume de boa. Conhecemos mais uma via clássica e adicionamos uma grande experiência na nossa bagagem.
A avaliação é que a via é de grande aprendizado e fundamental para quem sonha em fazer vias longas ou com trechos de artificial e até quem sabe experimentar um big wall. Aprender a teoria e realizar treinos em ambientes controlados é muito importante, mas no jogo real que entendemos a dinâmica do artificial e da ascensão repetidas vezes, com o fator cansaço e variáveis da escalada, assim evoluímos nos procedimentos ao longo da via. Quem tem vontade de fazer a via pode ir que vai adorar e será inesquecível.
Ops! Ainda não acabou, lembram que estamos na P8? Aqui começa a nossa saga e a roubada do retorno.
Após terminar a via tínhamos que seguir a direita até a via K2 e escalar o final da via que fica abaixo das contenções de concreto para então seguir uma curta trilha até o Cristo Redentor nos esperando de braços abertos.
Saindo da P8 há uma corda fixa que subindo reto nos leva de encontro a parede. Henri subiu e fui logo em seguida, nesse ponto dobrei para direita e segui por um estreito caminho que por já ter escurecido não via o tamanho do precipício que se encontrava abaixo, com isso decidimos nos manter encordados o tempo todo. Cheguei a um ponto em que havia uma descida um pouco fechada e fiquei na dúvida se seria por ali já que tudo que tínhamos lido é que a trilha seria subindo em direção as contenções. Chamei o Henri até aquele ponto e ele seguiu mais adiante para verificar o que encontrava. Ele chegou em um ponto que precisava subir para um platô acima, entendeu que o caminho não era por ali e retornou.
Nesse momento começava a chover. Então, voltamos ao ponto inicial no final da corda fixa para verificar o que havia se seguíssemos para esquerda. Na esquerda havia uma canaleta onde encontramos outra corda fixa o que nos fez acreditar que o caminho era por ali.
Seguimos a subida da canaleta e chegamos em mais uma corda fixa subindo em diagonal para direita. Ao terminar a corda seguimos uma trilha para direita que acabou no nada.
E agora? Esse caminho também se mostrava errado.
Voltamos um pouco e paramos em um local em que uma parede formava um teto e estávamos abrigados do vento e da chuva. Por volta de 20h Henri ligou para uns amigos para ver se conseguia identificar o ponto em que erramos a trilha.
Nesse momento comentei que ali era um bom ponto para passar a noite caso fosse preciso, mas os dois queriam seguir rumo a um banho quente e dormir no conforto do lar.
Henri conseguiu falar com um amigo que nos informou que ali era o caminho de outras vias da parede e que o primeiro local que fomos estava certo e que após a subida da primeira corda fixa devíamos dobrar a direita e seguir por uns 50 metros aproximadamente e estaríamos na K2.
Bate a sensação de #$@%& por que não continuamos a direita naquele momento? E o desânimo de ter que voltar aquele caminho íngreme, mas era o que deveria ser feito se quiséssemos sair dali.
Como dizia Giovanni Improtta “Toca pra frente que o tempo ruge e a Sapucaí é grande”.
Voltamos parte da trilha nos agarrando em uma corda fixa, fizemos um rapel em árvore na parte da canaleta e chegamos de novo ao final da corda fixa que fica na saída da diretíssima.
Agora partimos novamente para direita, chegamos no ponto de subida e seguimos mais um pouco e “Bingo” lá estava a tão esperada K2 realmente a aproximadamente uns 50 metros após o final da corda fixa.
Pelo tempo decorrido e a chuva que caía de forma constante a parede parecia uma cachoeira. Tentamos iluminar para encontrar os grampos e tentar ir laçando e subir sempre com uma proteção de cima, mas foi em vão, pois só vimos um grampo bem alto.
Nesse momento avaliamos que subir naquelas condições seria arriscado. Comentamos brevemente a possibilidade de uma corda de cima para jumarear, mas com o adiantado da hora e as condições do tempo seria complicado alguém chegar ali. Assim, como estávamos bem, decidimos rapelar a K2 e sair por baixo.
Às 21h Henri ligou para o amigo que tinha pedido informação para avisar que encontramos a K2 e nossa decisão de rapelar.
Abri o primeiro rapel e nos primeiros metros o pé escorregava como se estivesse no sabão. Era para ser um rapel em diagonal que vi que não ia rolar. Henri montou minha segurança e retornei ao ponto inicial.
Vamos a tentativa seguinte, Henri fez um rapel / horizontal de uns 5 metros para direita, parou em um grampo mais na linha da via e montou um corrimão para que eu chegasse até ele.
Desse ponto em diante mesmo eu lembrando melhor o caminho preferi que o Henri abrisse os rapéis e eu fosse orientando sobre a via, pois estava inseguro com meu tênis escorregando bastante.
O próximo rapel Henri desceu em diagonal, decidimos que poderia passar da parada dupla e seguir até a altura de uma árvore onde havia um grampo na parede da direita. Assim foi feito, mas ele não achou o grampo e então desceu mais um pouco até encontrar o grampo que fica um pouco acima do crucifixo.
Minha vez de descer, segui com meu rapel e cheguei à árvore constatando que o grampo era uma chapeleta não rapelável. Ali decidi parar, me ancorar na árvore, montar um rapel na árvore, puxar a corda e só então seguir para o ponto em que o Henri se encontrava. Fiz isso por achar que a posição que ele estava a corda faria muito arrasto e seria complicado de puxar. Foi uma luz que tive naquele momento, pois ao puxar a corda dali o arrasto era grande e no início quase a corda não se mexia.
Mais um rapel e cheguei até o Henri. A essa hora já estávamos molhados pela quantidade de chuva com ventos fortes e por conta da chuva descendo pelas mãos para dentro do anoraque ao fazer os rapéis. Pernas e pés ensopados completavam o cenário que nos trazia um frio de tremer as mãos e bater o queixo.
Agora vem o pior trecho, o mais demorado e por fim o que trouxe o maior alívio!
Esse próximo rapel não identificamos corretamente onde estávamos e até onde a corda chegaria. Henri começou a descer, passou por dois grampos e foi em direção ao diedro onde chegou a um platô. Nesse platô ele não achou grampo e havia uma pequena árvore quase que solta que não lembrávamos dela na via. Esse cenário gerou uma grande dúvida se aquele era o local correto ou se era algum ponto no meio da K3 que é toda em móvel e não daria para se ancorar.
Eu sabia que estávamos um pouco abaixo da P3 e que era preciso uma diagonal para ir em direção a P1, mas não lembrava se essa distância era factível com apenas um rapel de corda única. De cima não enxergava muito bem pela distância e pela chuva que deixava tudo branco.
Não encontrando nada, Henri se deslocou para a esquerda e foi até a linha da corda ficar reta no rapel tentando achar algum grampo. Sem encontrar nada por algum tempo avaliou subir de volta até o último grampo que tinha passado. A ascensão estava complicada de se fazer, gastava muito tempo e acabou não rolando.
A essa altura já estávamos com bastante frio e em condições que já se mostravam desconfortáveis demais. Comecei a pensar que horas deveriam ser, quanto tempo levaria para amanhecer e se conseguiríamos nos manter ali sem ter nenhuma complicação. E a maior delas seria a hipotermia que poderia chegar a qualquer momento principalmente pela nossa falta de tecido adiposo.
Já não aguentando mais ficar parado, falei para o Henri ir para o platô que eu precisava descer para movimentar o corpo. Após chegar ao platô falei para ele verificar novamente se dava para se ancorar na árvore ou se tinha algum ponto para se prender que eu desceria até o grampo que ele tinha passado ou até o platô para ver a possibilidade de ficarmos ali até amanhecer já que era um platô que geraria menor desconforto que ficar parado em um grampo e que estava próximo do diedro gerando uma leve proteção a mais contra a chuva.
Nessa busca de algo para se ancorar perto do diedro ele disse que achou um grampo. Melhor que isso. Era uma dupla!!! Na hora vibrei e tive a certeza de que era a dupla da P1. Chegando lá confirmei que era a P1 e sabia que dali para a base daria para fazer em no máximo dois rapéis. Esse trecho que nos trouxe todas as sensações e sentimentos possíveis estimamos que levou mais de uma hora para finalizar.
Dali ele desceu um pouco e achou um grampo em um outro platôzinho que decidimos parar por não saber se a corda chegava ao chão e pelo conforto da parada. Então fui até ele.
Mais um rapel e estávamos na dupla da base!!! Pelas condições e tudo que já tínhamos passado decidimos nos manter encordados para transpor o trecho da trilha desbarrancando e depois todo o restante até o asfalto.
Após toda essa saga só faltava descer a estrada até as Paineiras aonde chegamos por volta de 2h10, responder as mensagens dos amigos que estavam preocupados e aguardar a esposa do Henri que foi nos buscar.
Foi uma baita aventura, perrengue e muito aprendizado!!!
Por fim, agradeço a parceria incrível e enriquecedora do Henri em todas escaladas que fazemos juntos. A sua esposa que foi nos buscar de madrugada. Aos amigos que sabiam que íamos fazer essa via e mandaram mensagens preocupados por não ter notícias ao final do dia. E em especial aos amigos que ficaram sabendo do perrengue e estavam se organizando para realizar um resgate se até determinado horário não chegasse mais informações da nossa situação.
Observações:
1 – Esse relato foi feito não para gerar julgamentos ou apontamentos de decisões certas ou erradas e sim para que a comunidade de escalada possa avaliar os pontos e refletir sobre suas escaladas, o comprometimento necessário em uma atividade de montanha, o risco “administrado” de cada decisão e a confiança em suas parcerias.
2 – Todas as decisões, ideais ou não, foram tomadas em conjunto e avaliando o que tínhamos no momento, a experiência de cada um e a confiança em saber que o outro sabia o que estava fazendo.







