Relato de conquista: Via Domingos Camões

Equipamentos:

  • 01 Furadeira de bateria de engate rápido
  • 02 baterias
  • 01 Broca de vídea
  • 02 martelos
  • 02 chaves de boca 14mm
  • 11 Chapeletas Bonier PinGo (com parabolts, porcas e arruelas correspondentes)
  • 01 soprador do tipo canudinho
  • 02 cordas de 60m
  • Equipamento de guiada normal (costuras curtas e longas, etc.)
  • 1 rack de camalots/friends (com algumas peças repetidas) – Segunda investida
  • 2 jogos de nuts – Segunda investida

Aproximação

A parede, apesar de nova, já era conhecida do Xandão, que já abrira duas vias por lá (a linha ex-escravo e o diedro Água Santa). Marcamos 8h da manhã do domingo de carnaval (02/03/2025) na Estr. Paulo de Medeiros, 15 – Água Santa. Fui de carona com o Júnior e acabamos do lado errado da linha amarela, mas logo nos achamos e chegamos ao Xandão.

Ponto de encontro e estacionamento.

O acesso à parede não é tão simples. Caminha-se até o final da rua, sem saída, e então até o final de uma canaleta de escoamento de água da chuva. Daí sobe-se pelo costão lateral do Túnel da Covanca (Túnel Engenheiro Raymundo de Paula Soares). Ao final, à esquerda, entra-se numa trilha pela mata recém-reflorestada pertencente à Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra dos Pretos Forros. Fique atento às marcações nas árvores: três cortes de facão, um em cima do outro, que indicam o caminho.

Início da trilha de aproximação.

A trilha termina no meio de uma estradinha. Deve-se caminhar para a direita de quem sai da mata, subindo a dita estrada. Após uns 10 minutos de caminhada, chega-se ao único ponto de água existente, saindo à esquerda da estrada, onde há um encanamento e uma torneira. Cerca de 20 metros após esse ponto de água, deve-se sair da estrada à direita, ao lado de um bambuzal e entrar em uma área de pasto. Passa-se então por uma cerca e logo após é possível ver a parede. No meio dessa parede fica a via ex-escravo e à direita dela o diedro Água Santa é bem visível. A conquista em questão é bem mais à direita (para quem olha a parede de frente). Não há trilhas demarcadas. Deve-se descer até lá, negociando o caminho pelo capim alto.

1º Investida – 02/03/2025

Xandão tinha planejado uma via que sairia da base e faria uma horizontal para a esquerda, subindo a parede à direita do diedro Água Santa. Seria uma via com graduação estimada em terceiro grau com exposição E2 ou E3. Xandão deu as instruções iniciais e Júnior fez a primeira investida. Subiu e bateu a primeira chapeleta a uns 6m do chão, a primeira da vida dele em uma conquista.

Daí ganhou mais um lance para iniciar a horizontal. Nesse momento percebeu que à esquerda estava muito sujo e havia uns belos blocos acima e foi investigar. Subindo os blocos, percebeu uma linha natural que continuava por uma fenda muito bonita de uns 6 ou 8m que terminava em dois grandes blocos. Conversamos e decidimos que a linha continuaria por ali. Júnior então bateu uma chapeleta nesse ponto antes da fenda e decidimos que ela deveria ser protegida com peças móveis, mantendo o princípio ético de não grampear fendas. Como não tínhamos levado peças móveis (apenas um joguinho de nuts), Júnior subiu sem proteção mesmo, ganhou o bloco acima e parou em um bom platô, uns 25m da base, onde decidimos que seria a parada intermediária para o rapel. Xandão subiu até lá (em solo livre), mas por uma rota diferente da linha da via, mais fácil, e eles bateram a parada juntos. Eu subi então fazendo a linha da via e, no caminho, derrubei um bloco grande (uns 30kg, talvez), que estava bem na linha da via e Júnior havia pedido para retirar, devido ao perigo.

Da parada, a linha da via se mostrou óbvia em direção a um belo tetinho, que não parecia muito difícil, mas interessante. Eu peguei os equipamentos e comecei a conquista. Subi uns 6m em agarrência e parei em um frisozinho, onde bati a primeira chapeleta, a primeira da minha via em uma conquista. Daí planejei uma rota até embaixo do teto, um pouco à direita, a fim de bater a chapeleta fora da linha de escoamento de água, que estava bem marcada. Parei em um confortável buraco e bati mais uma chapeleta ali. A ideia era que as pessoas tivessem duas opções, fazer o lance pelo diedro, cerca de 1,5m à esquerda; ou subissem reto, em agarrência. Chapa batida, fui tentar o diedro. Passada delicada até chegar embaixo dele, que tem excelentes mãos acima, que eu descobri após limpar os matos secos e toda terra que estavam ali acumulados. Daí tentei conquistá-lo algumas vezes, sem sucesso. É um lance que demanda uma passada alta e bastante força nos braços, quase um domínio. E eu não consegui. Daí chamei o Xandão.

Xandão veio e passou o diedro com certa tranquilidade, mas achou as passadas à esquerda para chegar nele mais difíceis do que o próprio lance. Daí subiu até o platô onde eu já tinha dito que poderia ser a parada. Ele avaliou e achou um bom lugar. Bateu uma chapeleta e me puxou. Bati a outra e daí puxamos o Júnior. Tínhamos conquistado uma enfiada de cerca de 50 ou 55m, em uma linha bem bonita e diversificada: lances de parede, subida em blocos, fenda protegida em móvel e coroando tudo, um tetinho picante. Então decidimos descer. Já era 13h e o sol estava causticante.

Júnior sugeriu proteger o lance do teto, do que eu discordei. Acho que as proteções ficarão muito perto, descaracterizando um pouco o lado “aventuresco” da via. Mas no final não decidimos nada quanto a isso. Xandão disse que a via estava constante no terceiro grau, inclusive o teto. Júnior e eu discordamos: achamos que a via é um terceiro constante, mas o teto é um quarto grau (não é muito técnico e as mãos são boas, mas demanda bastante força e posicionamento/equilíbrio).

O rapel ficou bem equilibrado, com uma folguinha de corda em cada um deles. Tudo pronto, sentamos em uma sombra próxima para nos hidratarmos, comemos e fomos embora. Chegando no carro, Xandão percebeu que havia perdido a caríssima broca de vídea.

2º Investida – 21/09/2025

No dia 21 de setembro, um domingo, finalmente conseguimos tempo para voltarmos os três para a nossa conquista. Nossa expectativa era a de que ainda haveria pelo menos mais uma enfiada (60m) para conquistarmos. Bastava atravessar o mato acima e tocar a via. Ledo engano.

Quando chegamos na base, Xandão sugeriu que eu guiasse os primeiros 30m, que haviam sido conquistados pelo Júnior; e que Júnior guiasse os 25m seguintes, para ele avaliar o grau dos lances que eu e Xandão havíamos conquistado. Subi então, dessa vez equipado com dois jogos de nuts e um jogo de friends, com algumas peças repetidas, já que na conquista não tínhamos levado nenhuma peça ativa.

Saída da base: lance fácil até a primeira chapeleta, depois da qual há uma passadinha de 3º grau. Após a fenda, há um lance de domínio em um bloco. Cuidado! O bloco em que o Igor está com o pé está solto.

Achei a saída tranquila, mas suja, mas a passada para sair da primeira chapeleta, já costurado, é claramente um terceiro grau. Depois, na fendinha, fiquei testando as colocações para ver o que era melhor. Na primeira metade da fenda, mais larga, protegi com duas peças (Camalot #1). Na segunda metade, mais estreita, protegi com uma única peça (Camalot #.75). Testei peças maiores e menores, mas nenhuma ficou boa. Júnior e eu concordamos que o lance da fenda é um 2° grau, mas Xandão acha que pega um 3° grau devido à exposição, caso não se leve nenhuma peça móvel (é um lance de uns 8 metros, sem proteção fixa, com queda em cima de blocos, perigosa).

Daí o Junior tocou o segundo lance. A saída é exposta, mas fácil e suja. Depois tem um lancezinho de 3° grau, mas com uma boa agarra de mãos acima e então o tetinho, que é o crux. Inicialmente, tínhamos sugerido IV grau para o lance, mas dessa vez, todos concordamos que era mais difícil do que isso e sugerimos IVsup. É preciso que outras pessoas avaliem e confirmem ou não nossa visão.

Júnior no crux da via, um tetinho que graduamos em IVsup. A chapeleta à direita protege bem o lance, mas há uma colocação opcional de um camalot #.5 no teto, backupeado por um nut #2. Após o teto, a linha da via segue à direita, na parede, em um lance bem mais fácil.

Quando estávamos todos na parada, partimos para a retomada da conquista. Xandão então foi tocar o lance: protegeu a fendinha da saída com um Camalot #.5 e, logo acima, em um lance delicado, protegeu com o Camalot #3 em um ótimo buraco, que fica escondido dentro de uma canaletinha (que não é visível da parada). Daí passou o lance (também na casa do 3° grau) e tocou para a direita e daí percebeu que a matinha acima na verdade era um grande matagal, impossível de tocar a via dali.

Saída da P1, protegida por um camalot #.5 no início e por um excelente camalot #3 mais acima. Instalando a dupla no final da via, para o rapel.

Júnior e eu subimos e batemos então uma parada dupla para o rapel final. Xandão ainda tentou ver se havia caminho mais à direita, mas foi em vão. Ali acabava mesmo a via. Como na saída da dupla anterior só havia paradas em móvel, Xandão ainda sugeriu batermos uma chapa para indicar o caminho da via e proteger um lance mais exposto.

Trabalho finalizado, rapelamos e partimos para casa porque o calor estava muito intenso.

 

Linha aproximada da via, sobreposta a imagem do Google Earth. De fato, a vegetação acima indicava o término da conquista.

 

Croqui da via.