Há mais de 1 ano venho combinando com o Julio de fazermos a Íbis inteira e finalmente conseguimos estabelecer um dia para a fazermos, sábado dia 19 de setembro, previsão de chuva para as 21h deste mesmo dia. Horário de encontro às 5h da matina em frente ao guia Lopes na Praia Vermelha.

Começamos a subir a trilha ainda no escuro e sem headlamps, peso para cacete nas costas. Nas mochilas levávamos exatamente: 1 bandoleira, 12 costuras, 20 mosquetões avulsos, cerca de 10 mosquetões mãe, corda de 70m 10.3mm (pesada pra carvalho), 1 retinida 70m 7mm, 1 par de jumar, equipos pessoais, roldana com blocante, 2 pares de estribos, fitas, 2 nuts de cabo para parafusos, 4 croquis da via, 1 litro e meio de água cada um, 1 pacote de biscoito (cada um), 3 barras de cereais (cada um), furadeira, 7 grampos de ½ e 1 chapeleta, 1 marreta de 500g, agasalho, hedlamp….

Chegamos às 5:40 na base da via e às 6:05h já estávamos escalando. O Julio fez a primeira enfiada (cabo + A1) tranquilo, guiei a segunda enfiada escalando bem 5º grau com bastante peso nas costas. O Julio guiou a terceira enfiada até o platô. Até aí tudo estava muito bem e muito rápido! Comecei a guiar a enfiada seguinte, que é o primeiro artificial dos 2 negativos que tem lá. Para começar esta enfiada, é necessário um nut de cabo para o primeiro parafuso e é uma saída muito chata que me deu trabalho. Depois é só grampo stubai de ¼ e bem enferrujados, intercalados por grampos de ½ duvidosos. Cheguei num platô mais acima, que por sinal é muito interessante, armei a parada num grampo de ½ bomba e fixei a corda para o Julio jumarear e limpar o esticão, e em outro grampo de ½ bem desgastado eu fiz o içamento das mochilas.

O Julio iniciou o quinto esticão, num lugar onde toda a pedra se esfarela como cream cracker, numa sequência de grampos de ¼ podres e 1 piton knifeblade bomba, até chegar num diedrinho interessante de 4º grau em livre e muito aéreo, que dá uma onda depois de fazer tanto artificial. Tinha mais cerca de 30m de artificial para cima até a P5. O Jullio decidiu parar ali para içarmos as mochilas, pois já estava a um pouco menos da metade da retinida. Depois de içar as coisas ele começou a escalar o negativo e chegando na barriga, faltando cerca de 15m para a P5, acabaram-se os mosquetões avulso, então o Julio fixou a corda para eu jumarear até as mochilas para colocá-las na retinida para içar até mais acima e entregar os mosquetões usados até ali.

Comecei a jumarear até o início do diedro tranquilamente, com leves sintomas de cansaço, muito leves mesmo! No início do diedro, que tem que se escalar em livre, eu fiquei boladíssimo, pois estava com corda fixa e jumareando e com um alto risco de cair pendurado somente pelos dois jumares na corda. Coloquei a retinida por dentro do grampo anterior e segurando a corda e a retinida, uma de cada lado, eu atravessaria a horizontal com mais segurança. Cheguei nas mochilas e novamente arrumei as coisas e materiais para o Julio içar. Depois de colocar tudo na retinida, comecei a fazer o artificial até um grampo de ½ abaixo de onde o Julio estava.

Para sair do diedro eu teria que pendular para fora da pedra com os jumares na corda! Este lance mexeu demais com a minha cabeça, fiquei realmente me borrando de medo e por alguns momentos me passou pela cabeça desistir da escalada, mas  regressar dali já não era mais uma opção! Eu teria que entrar na jumareada de qualquer jeito, então decidi parar de olhar para baixo Esse foi o pior momento que já passei na minha vida, ficar balançando no vazio, com centenas de metros de queda livre abaixo de mim, foi realmente assustador, e eu não conseguia parar de olhar para baixo, aquilo ao mesmo tempo em que me impressionava demais, me fascinava!

Por milhares de vezes me perguntando o que eu estava fazendo ali, continuei jumareando e lembrando, muitas vezes, as cenas mortais de jumareadas que deram errado, a jumareada do Barão na Crazy, a corda que arrebentou com um maluco jumareando no Eiger… o medo a esta altura já havia se enraizado em mim, as primeiras jumareadas demoravam demais, mas pouco a pouco, fui perdendo o medo, e depois de 1h e tanto de jumareada cheguei no grampo abaixo do Julio. Ele começou a subir por mais uns 15 ou 20m e chegou em P5 no buracão, içou as coisas e fixou a corda para eu jumarear. Cheguei até a parada, extremamente cansado, com as pernas doendo bastante, por estar pendurado por um longo tempo no negativo. Tomei um longo gole d’água e devorei avidamente uma barrinha de cereal, para começar a guiar o próximo lance de 20 metros de artificial até a base do 7º grau.

Meus braços e meus dedos, de tanto esforço, quando os dobrava, eles continuavam dobrados, mesmo que eu quisesse desdobrá-los, como uma câimbra. 14:30h da tarde, cheguei a P6 icei as coisas e fixei a corda, o Julio jumareou e chegou onde eu estava, deixou as coisas penduradas na parada e começou a guiar o VIIa. A parede deste ponto pra cima já não era mais esfarelenta como antes, porém as agarras saiam inteiras nas mãos, por ter quase voado neste lance, o Julio decidiu utilizar os grampos como pontos de apoio, até pelo avançar da hora, e assim que chegou em P7, deu um grito bem alto: – “Leo, conquistamos nossa liberdade!”. Com previsão de chuva e com a hora passando rapidamente, estar ali antes do 7º grau, literalmente estávamos presos naquela via, sem possibilidade de voltar atrás e com extremo risco de ter que dormir na parede, por causa da luz do dia e da possibilidade chuva, com pouca comida e quase nenhuma água.

Roubei em alguns grampos nesta sequência e cheguei até P7. Bom, agora eram só mais 4 esticões de 3º grau e a nossa liberdade estava garantida, água gelada do bondinho e descida até a praia vermelha de bondinho. Comecei a guiar o terceiro grau mais difícil da minha vida, sem sacanagem, aquilo lá é bem vertical e com algumas agarras boas e muitas quebrando, e exposto para carvalho, e com peso nas costas e cansado de tudo que passou, ficou pior ainda. Sem olhar o croqui, fui pelo caminho mais exposto até uma chapeleta de abridor de garrafa enferrujado, porém, na merda foi um alívio. Fui um pouco mais para a direita em lance delicado e costurei num grampo de ½ bem esquisito. Vi um grampo de ½ mais para cima e à esquerda e fui para ele, mas passei um perrengue tão sinistro, que resolvi desescalar e passar a bola para o Julio.

Estava bom demais para ser verdade, o 3º grau evoluiu para um 5º grau e mais tempo foi consumido e encontrávamos com muito custo os grampos indicados no croqui. Os lances de 3º grau lembravam muito os lances da reta do secundo lá em cima no mar de agarras, porém bastante quebradiço e mais exposto. No fim o Julio descobriu o caminho certo e chegou em P8. A esta altura já estávamos com as headlamps acesas. Como eu estava extremamente estressado, o Julio levou o esticão seguinte, deixando a mochila dele na parada para fazer os lances mais leves, que são verticais. Ele saiu para a esquerda por uma cristaleirazinha e começou a escalar para cima, quando uma agarra quebrou e ele caiu pouco antes de costurar o primeiro grampo. Não se machucou, e continuou para cima, passando o lance e voltando para pegar a mochila. Continuou e conseguiu achar a P9 e me puxou para lá. Fiz o lance com um pouco de dificuldade, me sentindo puxado pra baixo, mas cheguei lá, quebrando algumas agarras e cada vez mais em ponto de pifar.

Agora, segundo Julio, faltavam apenas mais 100m de escalada… era para eu ficar contente, porém, eu sabia que seriam mais 100m de escalada de terceiro grau tenso, no escuro, cansados, pesados e à vista! Estes 100m restantes foram os mais demorados de minha vida. Novamente o Julio deixou a mochila na parada e partiu em horizontal para a esquerda e chegou num lance vertical onde há uma laca/fenda aberta, protegida por um grampinho de ¼. Quase caiu ali, mas passou e logo costurou um de ½ e desceu para pegar a mochila. Demorou mais um tanto de tempo e parou num grampo de ½ no meio deste esticão e me puxou para lá.

Por um tempo procurando no croqui o caminho, Julio partiu em horizontal para a esquerda em lances menos verticais e demorou bastante tempo. Eu, quase pifando, via a corda aos pouquinhos e bem lentamente sendo puxada, e gritei avisando que a corda estava acabando, até que a corda de 70m acabou de vez. De repente escuto um grito e comecei a escalar, lerdo e desconfiado das agarras. Até que cheguei na parte final da via, onde você caminha por dentro de mato e arvores até chegar ao cume.

Quando encostei, finalmente, na grade do cume, agradeci a Buda, Jesus, Allah, Bob Marley, Jimmy Hendrix e todos mais que possam imaginar, por chegar bem (bem cansado) no cume! Nada mais para fazer, não arrumamos o material, fomos do jeito que chegamos para o bondinho, bebemos bastante água (que oásis!) e descemos para o Morro da Urca, e de lá para a Praia Vermelha, diretamente para o Último Móvel, tomar aquela Skol geladíssima. Foi a melhor cerveja já tomei! Acaba por aqui este enorme relato.

Leo Nobre Porto
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Gostaria de fazer alguns comentários sobre a via. Pode ser que na atualidade algumas pessoas achem o estilo da via pobre (artificial fixo), mas para época que a via foi conquistada, ela é muito interessante. No final da via comentei com o Leo, que era via para se fazer uma vez, mas depois acordando no domingo, sinceramente que fiquei com vontade de voltar na via para diminuir esse tempo, pois gastamos 13 horas para realizar essa escalada (acredito por conta do peso extra que levamos), que embora esteja dentro do escopo de uma via D4, é possível fazer em bem menos tempo.

Quando fiz o planejamento para a escalada, esperava estar em P7 em 8 horas, mas atrasamos em 2 horas, e chegamos em P7 com 10 horas de escalada. O trecho mais longo e trabalhoso é a 5ª enfiada é exatamente aí que o tempo é consumido, tanto para quem guia, quanto para quem limpa. Eu particularmente achei a escalada espetacular, altamente recomendável, quero repeti-la outras vezes é um excelente treinamento. Mas atenção, a via tem um alto grau de comprometimento, pois é uma via one-way, entrou na 5ª enfiada já era, não tem volta, tem que sair pelo cume. Outro comentário é que se trata de uma via longa, desgastante física e psicologicamente, então essa preparação é essencial para obter êxito na empreitada. Mesmo nas enfiadas finais, de 3º grau (que é muito exposto), deve-se ficar atento para o nível de desgaste que a via toda proporcionou e o 3º grau não virar um 7º grau. No mais, fiquei muito satisfeito em ter escalado essa via, com ela, completo todas as super clássicas do Pão de Açúcar, que na minha opinião são elas: Coringa, Ás de Espadas, Alfredo Maciel, Chaminé Galloti, Lagartão, Chaminé Stop, Pássaros de Fogo, CEPI, Cisco Kid, Italianos, Cavalo Louco, Secundo da Costa Neto, Waldemar Guimarães-Waldo, Íbis e Iemanjá.
Então galera, essa via foi iniciada pelo Carrô e o Pelle e posteriormente concluída pelos Austríacos, a via é do CERJ e vale a pena uma prestigiada, essa é a pilha!

Julio Mello