Mane Lion 25m, 2nd Clifton Crest 35m
Hoje eu escalei a Lion’s Head, na Cidade do Cabo. Meus dedos e braços ainda estão fracos da escalada.
Alguns dias antes de viajar, me deu vontade de escalar aqui, e mandei mensagem no grupo CERJ para ver se alguém poderia me passar algum contato daqui, logo a Sandrinha me enviou um telefone.
Llewennyr se ofereceu para me levar escalar prontamente. Ficamos de combinar o dia exato da escalada quando já estivesse em Cape Town.
Na quinta-feira mandei mensagem a ele, dizendo que estaria livre para escalar no sábado.
Ele me avisou que estaria trabalhando, mas tentaria arrumar alguém para me levar.
Era fim de dia de sexta-feira, umas 19h da noite, havia perdido as esperanças de escalar e já havia feito planos de subir a Table Mountain pela trilha do jardim botânico de Kirskenboch. Estava no supermercado quando Llewennyr me telefonou. Por muita sorte eu vi a ligação.
Conversamos e conversamos, ele me passou o contato de um amigo, que poderia escalar comigo no sábado. Cancelei os planos de abrir um vinho e comecei os planos de escalar.
Mandei mensagem para o contato, logo o Errol me ligou. Atendi ao telefone e combinados a escalada.
As 8h da manhã de sábado, Errol parou sua pick-up Backy em frente ao hostel. Logo que saí do hotel vi um senhor alto, magro, branco de olhos azuis, com bermudas e botas. Sabia que era ele pelo vestuário. Embarquei no carro e saímos.
Ele me falou que iríamos subir a via Clifton Crest, na face sombreada da montanha Lion’s Head. Eu queria muito subir alguma via na Table Mountain, mas ele estava preocupado em ir lá por conta de obstruções na via de acesso devido à obras. Fiquei feliz com a Lion’s Head.
Deixamos o carro na beira da rodovia, perto da construção Islâmica e subimos uma trilha de uns 30-40 minutos até a base da via.
Lembro dele reclamar no caminho que muitos atalhos foram fechados. Aparentemente, as chuvas estragaram os caminhos e eles nunca mais foram reabertos. O motivo da sua indignação estava na falta de cuidado.
Chegamos na base das vias, a Clifton Crest estava úmida, com bastante água saindo das fraturas, apesar do dia ensolarado e limpo. Fomos até uma caverna ali perto, ele puxou o fogareiro e fez um chá quente para nós. Fazia um frio agradável de uns 13° C pela manhã.
Nos equipamos enquanto bebíamos o chá, lembro de me sentir muito feliz e privilegiada de estar ali, com aquela vista maravilhosa, tendo aquele momento de conversar com um escalador experiente com o acalento de um chá preto quentinho (e bota quentinho nisso, queimei minha língua ao primeiro gole).
Foi nesse momento que eu descobri uma coisa muito importante: TODA a nossa segurança seria em móvel. Fiquei meio preocupada nessa hora, nunca havia escalado em móvel, e sempre tive certa desconfiança disso.
Descobri também que aqui, as vias em móvel são chamadas de trad climbing, e que as vias com proteção fixa são chamadas de “sports climbing”, diferentemente do Brasil. Para completar meu nervosismo, ele me contou que ele mesmo havia fixado os friends com fio de máquina de cortar grama.
Me acalmei quanto ao uso de proteções móveis, pensei “ele fez isso a vida inteira” e passei a me preocupar em como remover as proteções. Ele me deu um ganchinho que deveria ajudar caso fosse necessário.
Durante o chá ele ainda me contou sobre sua família, seus negócios e sua aposentadoria.
Entocamos as coisas (os pertences mais importantes em um lugar diferente das mochilas), e fomos para a via.
Chegando lá, ele começou a subir. Usamos corda dupla. E ele sempre colocando as proteções em móvel.
Comecei a subir, remover o primeiro nod foi difícil, mas consegui. Os friends seguintes foram mais fáceis de remover.
Cheguei na primeira parada com certa tranquilidade. Montei a segurança dele e ele subiu. O caminho até segunda parada também foi tranquilo.
Chegamos a um platô após aproximadamente uns 25m ou 30m, de onde caminhamos um pouco até a base da terceira enfiada.
Essa enfiada era mais longa, e parecia tranquila de baixo.
Errol subiu com tranquilidade. Comecei a subida tranquila. Perto metade, as coisas ficaram difíceis, a parede era vertical, tinha um leve negativo (overhanging) em alguns momentos. Estava muito difícil de subir, tive que pedir para descansar, meus braços parecendo que iriam explodir.
Desse momento em diante, a subida até a parada foi muito sofrida, acho que escorreguei umas duas vezes pelo menos. Lembro de ter usado até o queixo para me equilibrar em algum momento.
Em algum momento da escalada, entalei meu braço em uma fenda, foi quase até o cotovelo. Lembro de pensar “vai que tem uma aranha aqui agora?” e logo depois pensar “deixe que a aranha me pique. Vou sobreviver à escalada primeiro e depois cuido da picada da aranha”.
Cheguei na parada, que era algo como uma mini caverna, nela ficamos sentados apreciando a vista e tiramos algumas fotos.
Depois de um tempo, ele me explicou que seria necessário fazer uma horizontal, e que o jeito correto de fazer isso seria deixando o corpo levemente pendurado, com os braços esticados, para chegar no local dos grampos de onde seria possível fazer o rapel. Ele foi na frente, quando chegou a minha vez, fiquei com muito medo, a parede abaixo era completamente vertical. Tudo muito exposto. A horizontal formava um arco na rocha desde ponto onde eu estava até o ponto onde teria que ir, não tinha visão alguma, e isso me deixou ainda mais ansiosa.
Nesse momento, pensei em pedir para ser levada até o chão, mas apenas falei para ele que estava com medo
Ele disse que podia ficar tranquila e vir no meu tempo, mas que esse era “the only way out”. Essas palavras de “coragem” me fizeram encarar e seguir em frente.
Consegui fazer a horizontal (removendo as proteções) e chegar no outro platô. Achava que nesse local já estariam os grampos para poder fazer o rapel de descida, mas descobri que ainda teríamos que subir uma boa parte e isso me desestabilizou, pois já estava muito cansada nos braços
Erol voltou a subir o último trecho. Nesse momento ele errou uma parte do caminho e isso me deixou insegura. Tudo o que fazia nossa proteção no momento eram dois friends. Sendo que eu só via um, muito tempo depois vi o segundo. Talvez houvesse um terceiro, não lembro. Meus braços estavam fracos e eu não tinha certeza de que conseguiria segurar sua queda caso acontecesse, e não estava confiando na proteção de apenas um friend que eu via.
Eu sabia que se ele caísse, a chance de dar ruim era alta. Eu só imaginava uma queda dele, me levando junto, e nós dois indo parar no chão. Estávamos alto. Mas esse era the only way out.
Quando ele terminou a subida fiquei mais tranquila.
Chegou a minha vez de subir os 7 ou 8m finais. A parede acima de mim parecia negativa. Eu já estava muito cansada. Não queria mais ter que subir.
Comecei a subir e não me senti confiante suficiente. Voltei
Tentei mais uma vez. Voltei.
Olhei para a corda e pensei, não vou conseguir. Terei que subir pela corda. Falei pra ele que faria isso. Ele disse, ok.
Montei meu sistema de prussiks. Tudo pronto pra subir nele. Dei por mim que pra isso eu ficaria pendurada a uma altura muito grande. Provavelmente balançando para os lados. Me deu mais medo ainda.
Conversei com meu guia novamente, ele insistiu pra eu tentar subir, que era fácil, logo eu encontraria agarras enormes e seria bom. Decidi subir. Desmontei o prussik.
Comecei a subir, e realmente foi bem mais fácil do que eu esperava. Cheguei ao topo feliz por ter conseguido.
Montamos nosso rapel e descemos a primeira parte. Desci primeiro, foi tranquilo e ainda consegui curtir um pouquinho.
Chegamos no local de montar o segundo rapel. Ele montou o rapel dele desceu. Eu montei o meu pra descer e, mais tensão. Meu freio ficou ao lado contrário, tive que arrumar. Depois as cordas embolaram. E eu não conseguia testar meu sistema, pois os grampos estavam muito distantes e eu não conseguia subir o sistema o suficiente para deixar de ser segurada pela solteira.
Conferi meu sistema umas 300 mil vezes, e resolvi descer. Deu tudo certo. Quando cheguei na base, Erol já estava com as coisas arrumadas para um segundo chá.
Tomamos um chá novamente, ele me contou mais coisas sobre a sua vida. Sobre a bicicleta cara do seu filho, sobre o trailer que comprou para passear com a esposa que sofre de câncer. Da vida de aposentado…
Após o chá descemos a trilha de volta até o carro.
Ele me deixou de volta no hotel, e disse que esperava que eu tivesse gostado do dia, e eu o agradeci muito pela experiência e pedir desculpas por qualquer coisa. Bem catarina.
Foi uma experiência incrível, mas um tanto assustadora, não estou “só alegrias” com ela. Fiquei realmente preocupada em alguns momentos. Me considerei irresponsável. Deveria ter me comunicado melhor antes. Garantido que tudo estava claro e que iria escalar uma via de que fosse capaz.
Outra coisa que pode ter tornado a experiência mais difícil pode ter sido a tabela de conversão. Acho que escalei algo que não estou acostumada. Pode ter sido o tipo da escalada, em fratura e oposição. Ou, a junção de tudo isso…