Meu ano de vida no exterior me proporcionou valiosas experiências e descobertas e reforçou a minha impressão de que viver é simplesmente delicioso. Uma das lembranças que tenho muito viva em minha memória aconteceu logo nos meus primeiros dias de “estrangeira”. Lembro de estar caminhando sozinha pela rua observando o quanto tudo aquilo era diferente para mim. Até as cores, os sons e os cheiros eram pouco familiares. Meio alheia àquele ambiente e sentindo falta quase insuportável das pessoas que deixara, lembro-me de ter feito a seguinte pergunta: “Será que algum dia este lugar será como ‘casa’ para mim?” Um ano depois, de volta ao Brasil, eu sabia que suas cores, seus sons e seus cheiros, agora muito estranhos, não tardariam a se tornar familiares e que a saudade dos amigos que ficaram na Filadélfia logo seria suportável. Eu havia aprendido que partida e chegada eram apenas dois movimentos na brincadeira de viver e que saudade era apenas um de seus estados intermediários. Neste último sábado, caminhando pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos, estas lembranças me ocorreram.

A minha participação nesta caminhada aconteceu como um feliz acaso. Tratava-se de uma excursão conjunta com o CEP e eu não sabia nem ao certo como me inscrever. Como tenho verdadeira paixão pelas caminhadas na Serra, eu não perderia a oportunidade. Havia ainda um atrativo extra que era o fato de eu nunca ter estado no cume do São Pedro, nosso objetivo final. Partimos do Rio Miriam e eu e, mais tarde, Michelle se juntou a nós. No portão do Parque, encontramos Carlos Alexandre e Paulinho, nossos companheiros do Petropolitano.

A atividade foi cheia de surpresas. Não fizemos apenas uma caminhada ao São Pedro, fizemos várias excursões em uma só, e eu, em particular, refiz outras tantas do passado. Seguimos o caminho da Travessia da Neblina, onde eu estive há quase dois anos, em uma excursão muito agradável. Aquela foi uma de minhas primeiras incursões na Serra dos Órgãos e a primeira vez em que fiz algo parecido com escalar. Caí. Depois, atravessar um determinado trecho horizontal em pedra me pareceu um enorme desafio. A chegada ao cume da Pedra da Cruz veio às custas de bastante cansaço e a visão daquelas inúmeras e majestosas formas me fazia sentir completamente perdida. Embora eu sempre tenha adorado caminhar naquele lugar, em minhas primeiras investidas, a Serra deixava muito clara que eu era uma estranha. Suas cores, seus sons e seus cheiros eram novos. Sua grandiosidade impunha respeito e afastamento. Seus obstáculos eram vencidos com movimentos desajeitados e as grandes distâncias exigiam demasiado esforço. Hoje, aquele lugar me produz o mesmo encantamento dos primeiros dias, mas me sinto em ‘casa’. O respeito ainda existe, mas não mais o afastamento. O ambiente se tornou acolhedor e as montanhas perderam um pouco da majestade e se tornaram grandes amigas grandes, a quem chamo pelo nome.

Após passarmos pela Pedra da Cruz, seguimos pelo Caminho das Orquídeas rumo ao Mirante do Inferno. Mais lembranças… Fiz este mesmo caminho no início do ano passado em uma das excursões que mais me marcaram desde que ingressei no CERJ. Sobre ela, escrevi um texto que terminava com a frase “um dia ainda voltaremos lá”. Não voltaremos, pois dois dos amigos que me acompanhavam já partiram. Um deles foi a Paulinha, cuja felicidade de estar realizando um desejo antigo naquele dia contribuiu para torná-lo um daqueles que dão sentido à vida. Mas como partida e saudade são apenas parte da brincadeira de viver, sigo brincando. Apesar de estar voltando ao Mirante do Inferno sem nenhum dos amigos que estavam comigo naquela excursão, o clima de harmonia e alegria foi o mesmo. Outros amigos chegaram!

Finalmente, rompemos o último trecho que nos levaria ao São Pedro. No cume, os tradicionais beijos e abraços e o prazer de estar revivendo o chamado “montanhismo clássico”, que, para mim, resume-se a visitar montanhas para celebrar a vida com amigos. Montanhismo como o praticado nos tempos da conquista da Agulha do Diabo, episódio cuja lembrança sempre me emociona. Aliás, a visão da Agulha durante quase todo o nosso percurso foi uma das coisas que fez esta caminhada tão especial. Vista de diferentes perspectivas, lá estava sempre a Agulhinha, minha preferida dentre todas as montanhas da Serra dos Órgãos. Seu jeito soberbo e hostil esconde doçura de menina com quem um dia ainda hei de brincar.

E de montanha em montanha vai fluindo a vida… Os pensadores do Barroco diziam que “a vida é um teatro” e nós meros atores. Mas podemos ser mais do que isso. Podemos ser nossos próprios diretores e observar. E como o teatro é apenas ilusão passageira, memento mori! Não importa qual seja o palco e qual seja a cena, não importa qual sejam suas cores, seus sons e seus cheiros, não importam quais sejam os atores, o importante é se divertir sempre. Carpe diem!

Mônica Costa