Relato de Escalada – Estreando em Salinas: Cordada na CERJ

Data: 13 de julho de 2025, domingo

Participantes: Julio Mello e Rafaella Miranda

Relato por Rafaella Miranda

 

A convite do Julio marcamos uma cordada na via CERJ, no Capacete, para o dia 13/07. Fiquei animada e, ao mesmo tempo, apreensiva. Afinal, estamos falando de Salinas — um lugar sagrado da escalada, onde as montanhas impõem respeito, as vias carregam história, a navegação é desafiadora e o nível de exposição mexe com qualquer um.

Seria minha primeira vez lá.

Foi uma espera de um mês até a data marcada. Durante esse tempo, pude conversar com a Yvie, que tinha feito a via recentemente. O papo ajudou a ter uma melhor noção do que esperar — e me tranquilizou um pouco.

Na semana da escalada, a previsão do tempo virou protagonista. Estava incerta e apontava chuva para a véspera, o que inviabilizaria completamente a ida. Não dava para arriscar, a logística é grande demais para chegar à base e encontrar a rocha babada. Passei os dias acompanhando a previsão compulsivamente, checando quatro ou cinco vezes ao dia, torcendo por uma mudança favorável.

Na véspera, já no início da tarde, montei a mochila com fé de que nossa escalada na serra iria acontecer. Fleece, anorak, gorro, luvas… Conversamos sobre um possível plano B: a via Eco 92, no Perdido do Andaraí. Mas eu seguia na expectativa silenciosa, aguardando o veredito.

E ele finalmente veio. Segundo a previsão do tempo feita pelo Mascarim, o dia seguinte seria de sol — e, até aquele momento, não havia chovido. A escalada estava confirmada!

Mochila organizada, despertador programado para 1h45 da manhã (!), e às 2h45 estávamos nos encontrando no posto da Praça da Bandeira. Será que essa faixa horária entra na categoria “corujão”, ou seria cedo demais até pra isso?

Pegamos a estrada vazia, como esperado, e seguimos rumo a Salinas. Na chegada, um presente: os Três Picos e o Capacete iluminados pela lua cheia parecendo uma pintura! Estacionamos o carro às 5h30 e, quinze minutos depois, começamos a caminhada passando pelo Vale dos Deuses. Quando cruzamos pela sede do parque, conferimos a temperatura no clássico termômetro dali: 5°C! Não dava para parar muito — era andar ou congelar.

 

Foto 1 – Amanhecer nos Três Picos, com a lua ainda brilhando acima do Capacete.

 

Foto 2 – O clássico termômetro da sede do Parque registrando o frio da madrugada. Foto 3 – Cinco graus: amanhecer gelado nos Três Picos.

Seguimos pela estradinha até a bifurcação sinalizada com uma placa de madeira, à esquerda, indicando o caminho para a CERJ. A partir dali, a trilha — bem aberta, por sinal — começa a inclinar e a exigir mais. Entra-se em modo “toca pra cima”, com direito a uma simpática chaminé, seguida de um trepa-raiz, até finalmente chegar à base.

Foto 4 – A placa indica: é hora virar à esquerda e subir rumo à CERJ.

 

Foto 5 – Vista do Capacete na trilha de aproximação — o destino à frente.

 

Chegamos à base da via às 6h50. E logo veio uma constatação nada animadora: além da temperatura baixa, encararíamos um vento gelado e cortante…

Nos equipamos e às 7h17 estávamos prontos para iniciar. A via tem 400m divididos em 10 enfiadas e está cotada em 5º V (A0/VI+) D3 E2. A estratégia era começar francesando até a P2. Ao olhar a fendinha inicial, senti uma certa insegurança: o lance era mais vertical do que eu gostaria. Compartilhei a preocupação com o Julio, que me tranquilizou: disse que eu passaria sem problemas.

Croqui da CERJ

 

Julio saiu guiando. A corda esticou indicando que era minha vez de partir.

No primeiro contato com a rocha, me senti entranha e desconfortável. A baixa temperatura havia me deixado sem sensibilidade. Ao tocar a pedra, sentia dores esquisitas, como pequenos choques nas mãos. Depois conversando com o Julio, ele relatou que também se sentiu dessa mesma forma.

Alguns poucos passos na via e cheguei no lance da fendinha vertical. Posicionei bem as mãos em agarras sólidas dentro das fendas, subi os pés para entrar em oposição… e a profecia se concretizou: tomei uma bela vaca. Vazei sem escalas num platô um pouco abaixo do lance, caindo em pé. Senti na mesma hora que tinha machucado as mãos: a queda foi rápida e a pele raspou com força na rocha abrasiva. As duas mãos ficaram escoriadas, e o dedo médio da esquerda estava em pior estado: dava pra ver um corte fundo. O sangue começava a minar de todos os lados.

Mesmo assim, precisava continuar — eu não sabia em que condição o Julio estava após a minha queda. Não nos víamos, mas era possível se comunicar, e como ele não disse nada, resolvi acreditar que estava tudo bem.

Voltei para o lance, dessa vez com uma leitura diferente. Entalei o pé esquerdo alto na fenda e passei com tranquilidade, sem precisar recorrer à oposição que havia tentado antes.

Seguimos progredindo. Fui respeitando o ritmo do Julio, tentando manter a corda nem retesada, nem com folga demais. O sangue continuava escorrendo das mãos, e tentei ao menos não sujar a corda e as costuras — sem muito sucesso. Acabei deixando algumas marcas no material do Julio. Segundo ele, contraí ali uma dívida equivalente a uma caixa de Baden Baden

Nos reunimos na P2. Perguntei se ele havia sentido minha queda, disse que sim. Sentiu a corda retesar, mas estava posicionado em boas agarras no momento e ficou parado até a corda voltar a aliviar, indicando que eu estava de novo em movimento. Fiquei aliviada por não termos tomado uma queda dupla.

Mostrei o estrago nas mãos e o Julio me perguntou se queria descer. Eu estava abalada, meio fora do eixo, mas com adrenalina demais no corpo para pensar em desistir. Preferi me iludir: algumas voltas de esparadrapo e uma boa camada de magnésio e tudo ficaria bem. Julio por sua vez, também embarcou nesse pequeno delírio. Assim foi: curativos e magnésio aplicados e ele partiu guiando rumo à P3.

A partir dali seguiríamos em escalada tradicional — ufa! Agora eu podia cair em paz, se fosse preciso.

A terceira enfiada começa com uma chaminé. Seguimos sem grandes problemas. Vencemos também a quarta e a quinta enfiadas. A cada parada, era necessário trocar os esparadrapos, que se encharcavam de sangue e deslizavam pelos dedos durante a escalada.  Liguei o modo piloto automático, só sairia por cima. Me convenci de que era possível escalar a via usando o mínimo de apoio das mãos e focando no trabalho dos pés.

Às 9h37 chegamos à P5 – o famoso Platô do Sorvete.

Julio me explicou como seria a sexta enfiada: começava em diagonal para a direita com boas agarras, depois subia reto e virava 90º à esquerda, finalizando numa horizontal com uma passada em desescalada de quinto grau. Que bela notícia!

Julio guiou mais essa enfiada com tranquilidade. Chegou minha vez, avancei bem até chegar à tal horizontal. Concentrei meu foco em chegar até a próxima costura e venci o primeiro trecho da horizontal sem dificuldade. No caminho, havia uma agarra de pé salvadora: um buraquinho onde era possível encaixar o pé inteiro. Dava até um aperto no coração deixar aquela agarra para trás.

Avancei mais algumas passadas pela horizontal e cheguei no trecho que seria preciso descosturar e desescalar um pouco. Tentei ir ao máximo para a esquerda, até o limite do meu alcance… fiquei mal encaixada, com agarras de pé instáveis e nenhuma agarra boa de mão.

Insisti mais algumas vezes nessa estratégia, sem sucesso. Entendi que seria necessário voltar até a costura, retirá-la e me comprometer com o movimento lateral. Liguei o modo “vai dar certo, no caminho eu resolvo”. Descosturei a corda, recolhi a costura, posicionei as mãos em agarras mais baixas do que gostaria, os pés um pouco duvidosos em aderência… era o que tinha. Fiz uma passada lateral que envolvia uma troca de pé estranha e consegui desescalar alcançando uma excelente agarra de pé esquerdo. Ufa! O veneno estava superado.

Julio, do outro lado, no platô, ao mesmo tempo comemorava meu avanço e se divertia com o calorzinho que eu estava tomando. Ao final do movimento da desescalada ele me pediu para ficar parada naquela posição — queria tirar uma foto da minha cara de alívio. Foto tirada, segui mais algumas passadas tranquilas naquela horizontal até chegar à P7.

 Foto 6 – Julio guiando a sexta    enfiada da via.  Foto 7 – Rafa escalando rumo ao trecho da horizontal.  Foto 8 – Alívio estampado no rosto depois da desescalada.

A oitava enfiada é um trecho artificial. Julio subiu rapidamente de uma só vez, eu fui na sequência me puxando nas costuras e sentando na solteira a cada passada para dar um descanso às mãos e braços. Os movimentos finais dessa enfiada são mais desafiadores, pois a parede fica um pouco negativa. Há boas agarras, mas minhas mãos estavam em estado crítico.

Combinei com o Julio: eu faria força nas agarras e ele recolheria a corda rapidamente, de forma sincronizada, para que eu pudesse descansar na corda sem perder altura. Deu certo. Depois de algumas “chamadas no braço” e retesadas de corda, me juntei a ele na P8 às 11:25. E paramos para um rápido lanche.

Agora a via apresentava uma parede positiva, com belas linhas naturais e passadas em aderência — um deleite para minhas mãos tão castigadas. Julio me ofereceu guiar ou fazer as próximas enfiadas francesando. Agradeci, mas recusei… A parede era bastante amigável, mas diante do ocorrido, o psicológico não dava conta.

Seguimos escalando de forma tradicional pelas duas últimas enfiadas. Na saída da P9, Julio ficou em dúvida. Checamos o croqui: seguir à direita. Ele, no entanto, estava com um pressentimento de que a linha da via era à esquerda. Protegeu com um Camalot #1, seguiu um pouco à direita… e nada de achar a próxima proteção. Decidiu desescalar e seguir a intuição, procurando as proteções da via numa linha mais à esquerda.

A intuição do Julio estava certa… foi necessário fazer uma travessia para a esquerda tecnicamente fácil, porém exposta, para retomar a linha correta da via. Depois percebemos que, ao seguir à direita, provavelmente ele havia entrado na linha da Fata Morgana.

Foto 9 – Após o ajuste de rota, Julio guiando os últimos metros da vias.

Rota corrigida, tocou até a P10 sem sobressaltos. Eu também segui rapidamente nesses trechos finais e nos juntamos na parada final, fechando a via às 12h03. Nos abraçamos em comemoração a mais essa conquista e em agradecimento à parceria.

Subimos mais um pouco até o cume, atravessando um capinzal chatinho de caminhar, até nos aproximarmos das rochas finais. Lá de cima, nos deparamos com uma vista absurda: o Pico Maior se erguia imponente, um verdadeiro colosso de pedra, ladeado pelo Pico Médio. Julio foi me mostrando o Morro do Gato, Cabritos e tantos outras montanhas que ele reconhecia, e apontou vias históricas, contando sobre conquistas antigas — muito visionárias, desafiadoras e impressionantes para os recursos disponíveis à época.

 Foto 10 – Crianças felizes celebrando no cume.  Foto 11 – Deixando nosso registro no livro de cume.

 

 

Foto 12 – O Pico Maior em toda sua imponência, acompanhado pelo Pico Médio.

Era uma paisagem fantástica, e o sentimento que ali senti… difícil colocar em palavras…

Assinamos o livro de cume. Hora de partir.

A descida foi feita pela via Sergio Jacob. Para localizar sua parada dupla final, é preciso descer um pouco, voltado para o Vale dos Deuses, mirando na casa do Mascarim — com o Pico Maior à sua direita.

Como estávamos com corda dupla, seriam apenas dois rapéis e meio até a base. Na primeira descida, usamos corda única meiada. Nas duas seguintes, unimos as cordas e ganhamos bastante agilidade, alcançando rapidamente a base.

Foto 13 – Julio rapelando pela via Sergio Jacob

A trilha de retorno é íngreme e força bastante os joelhos e as pontas dos dedos dos pés já tão sacrificadas pelas sapatilhas. Depois de cerca de 40 minutos descendo, reencontramos a estradinha do vale e, em mais uns 20 minutos, estávamos de volta ao carro — totalizando 1 hora de descida.

Foto 14 – Até breve…

Mochilas devidamente guardadas, paramos para trocar algumas palavras com o Mascarim. Aproveitei o momento para lavar os machucados com água, aplicar antisséptico e fazer novos curativos. A essa altura, as escoriações já haviam estancado — com exceção do famigerado dedo médio da mão esquerda. Ele seguia sangrando e agora muito inchado e arroxeado…

Mas tudo bem… A escalada havia sido um sucesso. Missão cumprida.

Voltamos para o Rio em segurança. Tive uma noite agitada, sem conseguir dormir muito, com o dedo latejando. Na manhã seguinte, resolvi ir ao hospital e o raio-X revelou uma pequena fissura. O médico ficou em dúvida se era recente ou mais antiga. Segundo ele, “meu caso era muito diferente, algo que fugia da rotina” — pelo visto, os escaladores do Rio e eu estamos indo a hospitais diferentes…

Agora é hora de descansar alguns dias e deixar o dedo se recuperar. Em breve estarei de volta à ativa, e esse ferimento será um capítulo da aventura que vivi na minha estreia em Salinas, escalando a CERJ com o Julio, em 2025.

Agradeço profundamente ao Julio pelo convite inesperado, pela parceria e por acreditar.

Salinas é mesmo tudo aquilo que dizem — imponente, exigente, transformadora. Não tem escalada fácil por lá, mas também não tem escalada que não valha cada passada.

Que esse relato chegue a quem está sonhando com Salinas, ou com qualquer outra parede que pareça grande demais. A vontade, o preparo e a parceria certa levam a gente longe.

Nos vemos na rocha. Até a próxima.

⚠️ Aviso: imagem com ferimento abaixo. Pode causar desconforto em pessoas sensíveis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotos bônus – Resultado do batismo em Salinas. Mão devidamente carimbada.