Há muito tempo eu esperava uma oportunidade como essa para poder escalar nas Cagarras; e eis que a nossa querida Miriam Bamo abriu uma prancheta para um passeio de saveiro até aquelas ilhas, a maioria dos participantes da excursão marítima desembarcarão em outra ilha para aproveitar o sol e a água limpa do mar nestas paragens, já que as ilhas ficam a alguns quilômetros da costa em frente à Ipanema, enquanto isso, alguns intrépidos mergulharão em direção à Cagarra propriamente dita para escalar.
O grupo era bem grande, composto de integrantes de vários clubes da nossa cidade, sendo a maioria do CERJ e do Light, mas tendo também representantes do CEB e do CEC, um bom exemplo de excursões interclubes; muito legal. Não lembro o número exato de participantes, mas com certeza girava em torno das 3 dezenas e como de costume em situações de grupos desta envergadura, alguns chegaram atrasados e só conseguimos partir da Marina da Glória mais de 1 hora após o horário previsto; mas não tem problema não, tudo é festa e o tempo estava maravilhoso.
A viagem até as Cagarras foi muito agradável, com sol brilhando num céu azul e navegando por um mar verdinho e tranquilo; deu pra tirar fotos espetaculares da paisagem costeira da nossa bela cidade, de ângulos completamente diferentes do usual, indescritível, só mesmo participando para saber quão bela é a paisagem da nossa costa vista do mar. Na ilha temos 3 vias, todas na face norte e com bases bem próximas entre si; originalmente teríamos cordadas nas 3 vias, porém, na última hora alguns pseudos intrépidos arregaram e preferiram simplesmente ficar quarando ao sol na outra ilha.
As vias locais são: A primeira mais a leste em diagonal para a esquerda (que não fizemos) chama-se Sereias Desvairadas, é a menos exigente das três; a que eu fiz sendo secundado pela Ana Fucs e um participante do Light fica no meio, chama-se Pedras Flutuantes 4º V+, e a que o Luchesi fez guinado mais dois participantes do Light, fica mais a oeste da parede e chama-se Posto 9 também de 4 V+; foi muito bacana, os que arregaram não sabem o que perderam, mesmo porque, a logística para escalar neste sítio não é nada simples; primeiro você precisa alugar um barco, além de arrumar um recipiente completamente estanque para transportar o equipamento técnico, são e salvo entre o barco e a parede e vice-versa.
Resolvemos fazer 2 cordadas de 3, cada uma com apenas 1 corda de 60m, e enquanto o Luchesi vai guiando uma, eu liderarei a outra. Decidida a posição dos participantes nas cordadas, iniciamos as escaladas simultaneamente, estas duas vias seguem paralelas a poucos metros de distância uma da outra, cerca de 1 dezena de metros em média.
Enquanto a Posto 9 segue praticamente reta em direção ao cume, a Pedras Flutuantes começa numa diagonal ascendente para a esquerda antes de pegar uma subida reta até a primeira parada, para mais uma vez pegar outra diagonal outra vez ascendendo para a esquerda se afastando cada vez mais da outra via que fica mais à direita da parede, e finalmente no último esticão pegar uma reta de uns 25 metros aproximadamente, com um grampo intermediário que a exemplo deste da nossa segunda parada, ou você sabe que existe ou reza para que exista (foi o meu caso), pois da parada anterior não dá pra ver o bicho, aliás, eu quase abortei este trecho da escalada, pois o último grampo da via, que fica bem próximo da vegetação no topo da parede, também não é de fácil visualização a partir da nossa segunda parada.
Este último trecho da via é bem sujo, haja guano, podemos classifica-lo como um trecho de sujência (uma soma de sujo com aderência) bem delicado, mas muito legal de se vencer, e nós chegamos lá no topo. A mesma dúvida que passamos para completar a via, acometeu a outra cordada, sendo que eles preferiram voltar do penúltimo grampo por absoluta falta de certeza de encontrar o derradeiro grampo da via, e assim sendo, enquanto enfrentávamos o último esticão da nossa via eles já iniciavam o rapel na deles.
Enquanto estávamos reunidos no último grampo da via Pedras Flutuantes passou outro saveiro com um grupo de turistas que nos cumprimentaram ao que nós respondemos naturalmente e algumas semanas mais tarde (só estou fazendo este relato em 29/01/07) vim a encontrar no CERJ uma das passageiras daquela embarcação que tinha me reconhecido e veio diretamente me perguntar se naquele dia eu estava na tal parede; que coincidência hein? Êta mundo pequeno!
Quando finalmente terminamos nosso rapel, a outra cordada já estava pronta para mergulhar de volta para o barco que já nos esperava ao largo da ilha. Descida completada, todo o equipamento acondicionado no tambor estanque, o primeiro participante pulou na água com a corda a para puxar o tambor de volta para o barco. Todos a bordo a viagem de volta foi tão tranquila quanto a vinda, o mar continuava extremamente calmo e voltamos para a Marina da Glória sem nenhum transtorno. Da Marina, vários participantes se despediram indo direto para casa, enquanto a turma do CERJ partia para o já tradicional último grampo.
José de Oliveira Barros