Escalada na Iemanjá: 4o Vsup E2/E3 D3 460m

Por Yvie Barcellos

02/08/25

 

Desde que ouvi falar sobre a existência da Iemanjá, escalar essa via se tornou um sonho. Mais de 400 metros, no Pão de Açúcar e vista para o mar! E, então, ela entrou na minha lista (cada vez maior) de desejos. 

Foto 1: Croqui da via por Pedro Bugim

 

No dia seguinte à escalada da CERJ, em Salinas, eu e Anabel estávamos tomando café e começamos a conversar sobre outras lindas vias além da que tínhamos feito no dia anterior e o nome Iemanjá foi, obviamente, um dos primeiros a surgir. Comentei sobre minha vontade de conhecer a escalada e Bel disse que me levaria lá. Marcamos a data: 2 de agosto. Iríamos eu, Anabel e Magal.

Na quinta-feira anterior à escalada, Leandro também se juntou ao planejamento e combinamos de todos se encontrarem às 7h nas correntes no sábado. O dia estava lindo, sem nenhuma nuvem. Anabel e Magal chegaram 10 segundos depois de mim e pararam o carro ao lado do meu, caminhamos até as correntes e vinha o Leandro na mesma hora. Cronometrado.

Começamos então a caminhada de aproximação: fomos andando felizes e conversando ao longo de toda a Cláudio Coutinho, depois subimos pela escadinha de Jacó para cortar caminho. A base da Iemanjá fica depois das cervejas e encontrá-la não é trivial.

Chegamos à base da via, nos equipamos em duas cordadas (Magal e Bel, eu e Leandro) e veio a surpresa: a garrafa de água do Leandro estava furada e parte do conteúdo já tinha vazado. Ele guardou o recipiente de ponta cabeça para evitar maiores perdas e nos preparamos para começar. Magal sugeriu sair na frente para ajudar na orientação e eu ir na sequência, com as cordadas intercaladas. Ele foi e eu segui logo atrás. A navegação da via não é óbvia: a saída é em horizontal para a direita sem grampos visíveis. Iniciei o caminho para a direita e, quando comecei a pensar: “se eu cair aqui, vou bater no mar”, finalmente apareceu o primeiro grampo. Ufa. O trecho é composto por muitas agarras e bromélias, e a vista mágica de um mar azulzíssimo como plano de fundo. Continuei pela horizontal até que vi o Magal na P1. Costurei e desci até ele desescalando, já que a primeira parada fica abaixo da linha da via. Me prendi, recolhi a corda e chamei o Leandro. Nessa hora, Anabel já estava quase chegando na última costura antes da parada, desceu costurada e sobrou para o Leandro recolher tudo. Ele chegou logo na sequência e foi o único que teve que fazer a descida com risco de queda (antes dele, nós três tínhamos descido presos na costura). Respirou fundo e desescalou calmamente até nós. 

Foto 2: Leandro desescalando o último lance do primeiro esticão

 

Magal saiu rumo à P2 e Bel e Leandro o seguiram. O segundo esticão é curto, de 25m, composto por um vara mato em diagonal onde praticamente tivemos que nos arrastar deitados na pedra para passar por uma árvore baixa. Cheguei na P2 e já saí atrás do Magal rumo à próxima parada. 

A terceira enfiada começa com uma escalada quase em linha reta e com lances razoavelmente protegidos (e de grampos novos, de titânio, oriundos da última reforma em 2019) até o quarto grampo. Depois disso, o caminho se fecha e é necessário escalar por entre as bromélias – primeiro em linha reta e, posteriormente, em diagonal para a direita. Encontrei Magal na P3 e, logo em seguida, vieram Bel e Leandro. Magal e Leandro saíram rumo à P4. 

A quarta enfiada faz um zigue-zague: saída reta, crux do esticão na esquerda, caminho posterior em diagonal para a direita com grampo escondido e, por fim, retorna-se à esquerda em direção à P4. Quando cheguei na parada, senti que o Sol já estava começando a pegar e disse que ia tentar acelerar a subida. Fui atrás do Magal rumo à P5 em um trecho praticamente reto e tranquilo de 45m e a enfiada seguinte seria a do crux, um Vsup. Como eu e Leandro estávamos intercalando as guiadas, esse esticão seria dele (ufa!). Mas ele chegou na P5 se sentindo mal e já quase sem água. Quando percebi que teria que entrar no crux guiando, as mãos já começaram instantaneamente a suar. Magal já tinha saído, então não dava para ele me rebocar. Bel ligou para o Magal, que sugeriu prussicar a corda deles. Eu já estava agitada, com as mãos encharcadas e proferindo meus xingamentos usuais, mas não tinha outra alternativa. Fui. 

A saída da P5 é linda: uma passada em que é necessário abrir a perna direita em direção a uma laca em outra pedra e seguir em diagonal para a direita. Até ali, sem maiores problemas. Até que cheguei à costura antes do crux – lá, me prendi, pus dois prussiks achando que ia morrer e entrei nele. O lance é menos pior que o imaginado mas delicado, com mini agarras de pé e mão e sendo necessário equilíbrio para passar. Depois dele, seguimos pela variante “Don’t step on the gravatá” em diagonal para a direita mas, mesmo assim, tivemos que varar o mato no meio das bromélias hehe. 

No sétimo esticão, Leandro foi na frente e continuou em uma horizontal longa e exposta, mas de primeiro grau, também passando por meio dos gravatás. Nos juntamos todos na P7 já começando a ficar exaustos. 

Magal saiu e fui atrás em direção à P9, emendando dois esticões. Comecei a sentir a exposição nesse trecho, que tinha 4 grampos em 60m. Apesar de ser fácil, a parede estava bem suja e a corda, muito pesada. Subi reto e, na sequência, toquei para a diagonal direita torcendo para os musguinhos não cederem e eu cair 20m. Nessa hora, eu já estava tendo que escalar sem uma das mãos, que estava ocupada tentando carregar a corda para conseguir seguir. Em determinado momento, senti até que estava sendo puxada para baixo. Continuei puxando e pedindo corda mas, apesar de colocar toda minha força com as duas mãos para puxar, não saí do lugar. A comunicação não é boa neste trecho. Nesse momento, já estava perto de Bel e Magal, que já estavam na P9, e eles ligaram para o Leandro, que disse que um nó tinha se formado e entrado no freio e que ele não estava conseguindo soltar. Magal fixou a corda dele, me prendi e aguardei o Leandro se desencordar e tirar o nó para seguir. 

Foto 3: O fatídico nó

Foto 4: Selfie na escalada com vista

Ele avisou que estava ok e segui. Enfim, P9 ao som de Clareou, do Diogo Nogueira, no celular do Magal: “Clareo-oooou”. Que energia boa.

Leandro chegou e comentou que não estava bem e que sua água tinha acabado, e me ofereci para seguir na guiada. Ele topou e eu segui atrás do Magal na nona enfiada. 

O nono esticão também é exposto, com apenas duas costuras ao longo do caminho. Ele segue em diagonal para a direita em um trecho belíssimo e continua com um lance de domínio fácil para a esquerda. Cheguei na P10, Belzita veio logo atrás e, em seguida, Leandro. Só faltava mais uma enfiada e 200m de caminhada até o cume, mas já estávamos sentindo o impacto do Sol e cansaço. Seguimos.

Magal seguiu guiando na frente e Bel logo após, e fui atrás dela. Subimos bastante, achei um único grampo, costurei e continuei seguindo reto por entre as bromélias até voltar a ter que fazer muita força para puxar a corda. Por sorte, Bel estava logo na frente e ligou para o Leandro: a corda tinha acabado. Decidimos francesar até onde o Magal estava. O que passou despercebido por mim é que o grampo 40m acima da P10 já era a P11, e já tínhamos terminado a via. Eu e Bel seguimos varando o mato por entre as bromélias em uma subida aparentemente infinita até que finalmente vimos o Magal.

Foto 5: Vara mato entre bromélias

Fomos ao seu encontro e, quando chegamos, a trilha sonora que nos embalava do celular do Magal era Orange Sky, do Alexi Murdoch, e depois Caminhos do Mar, da Gal Costa, em homenagem à rainha do mar. Alegres e tranquilos, puxamos o Leandro e nos juntamos novamente. Dividimos água, guardamos os equipos e buscamos o caminho rumo ao cume do Pão de Açúcar.

Foto 6: Juntos ao final da escalada

A caminhada foi curta e estava relativamente demarcada, mas tinha muitos espinhos de arranha-gatos e cactos, tivemos que subir bem atentos. No meio do caminho, Magal anunciou que tinha avistado um presente: lindas flores.

Foto 7: Presente no caminho

Continuamos seguindo e avistamos o parapeito da contenção do bondinho! Chegamos. Corremos para o bebedouro, lavamos as mãos e nos preparamos para descer em alto estilo: usando a carteirinha do clube.

Descemos, guardamos os equipos de escalada nos carros, rumamos ao árabe para o último grampo cansados, mas contentes e com a sensação de dever cumprido.

Não só as flores que vimos pelo caminho, mas a escalada como um todo foi realmente um presente. Obrigada, amigos, por esse dia inesquecível!