Escalada de Serra dentro do Rio de Janeiro – 30.08.25

Paredão Kika, 5º VI E2/E3, D2, 240m

Igor Costa, com revisão de Thiago Gabriel e Marcel Nogueira

 

Algumas semanas atrás, chamei o Thiagão (Thiago Gabriel) para fazermos o Paredão Kika. Tanto ele quanto eu estávamos a fim de entrar nessa via desde que fomos na Santa Trepadeira e nos perdemos no caminho, passando por acaso na base do Kika. Daí fomos pesquisar e descobrimos que era uma via antiga, dos anos 1980, que havia sido recuperada pelo Hans Rauschmayer, alguns anos atrás.

Na véspera da escalada, Thiago me avisou que o Marcel Nogueira (ex-DT do Light) iria com a gente, o que já me deixou mais tranquilo, porque daí entendi que iria apenas participar na via, que claramente está acima das minhas capacidades de guiada.

A via começa em um lance de aderência com grampo alto, mas a melhor saída é por um bonito diedro, todo protegido em móvel, conquistado pelo Hans: a Variante Kika mas não cai. Thiago guiou essa, até porque estava querendo treinar colocação de peças. A Variante me pareceu bem fácil, exceto o final, em que tem que transicionar do diedro para a parede de aderência. Lance delicado, mas bem protegido por uma chapeleta antes da parada.

Thiago guiando o diedro inicial, a variante Kika mas não cai (VI E1/E2). Eu, particularmente, não achei que era um VI grau, mas fiz com corda de cima, então não conta.

A segunda enfiada foi guiada pelo Marcel e é composta por uma enfiada de aderência e lances de pequenas agarras. A linha original está tomada pelo musgo e pelo mato, sendo que o Marcel foi então pela variante nova conquistada pelo Hans, cerca de 2 metros para a direita da linha original. O crux é uma barriguinha de VIsup bem técnica e delicada. Mesmo com corda de cima, penei bastante para fazer o lance em livre, tendo ficado pendurado na corda algumas vezes antes de conseguir de fato passar. Thiago e Marcel, me parece, nem sentiram esse esticão.

Essa foi a minha visão. Daí o Marcel, revisando este texto: “Senti sim. Agarras bem pequenas, quis parar várias vezes. Me segurei na força de vontade pra terminar o esticão sem descanso. E pisei no segundo grampo.” Pelo jeito, a via não está facinha assim pra ninguém mesmo.

Marcel guiando o lance de VIsup na segunda enfiada. O lance é bem protegido e é possível fazer costurado, mas me pareceu bastante técnico e delicado, apesar de ele e Thiago terem passado sem esforços.

A terceira enfiada é uma curtinha horizontal para a esquerda (cerca de 15 metros apenas), logo abaixo de uma parede bem vertical. O trecho é protegido por 2 grampos e não é tecnicamente difícil, mas é aéreo e pode pegar no psicológico, sobretudo a saída do primeiro grampo, que deixa o participante (no caso eu, porque o Marcel achou o lance lindo e gostoso de fazer) na possibilidade de um pêndulo esquisito. Thiago guiou essa. A parada é meio escondida debaixo de um tetinho. 

Thiago no belo lance de horizontal na terceira enfiada. Lance fácil, mas aéreo e psicologicamente comprometedor para quem, como eu, tem pavor de horizontais.

Daí o Marcel saiu para guiar a próxima enfiada, que começa protegida em móveis. Ele protegeu a saída com um Camalot #.3 e colocou o #4 logo acima. Daí tocou o lance, que faz a virada para cima do teto abaixo do qual fica a parada. Acima do teto, a via segue para a direita, entrando em uma canaleta e com proteção mista: ora grampo, ora peças móveis. Esse lance da canaleta, para mim, foi o mais difícil da via toda. A saída do grampo mais alto eu não consegui fazer em livre, de modo que me apoiei no grampo com a mão para conseguir passar.

A quinta enfiada é uma parede de agarrência um tanto vertical, mas ainda positiva, que o Thiago guiou. Após alguns grampos, é preciso fazer uma horizontal exposta para a direita, sendo que o grampo é difícil de ver (Thiago ficou um tempão procurando), mas que está lá. Acima desse grampo há uma barriguinha cotada em VI grau (mais à esquerda do grampo, achei o lance mais fácil, com agarras melhores). A parada é bem boa, em um abaulado bastante confortável.

A sexta enfiada foi guiada pelo Marcel de novo, que fez a saída pelo lance difícil, como indica o croqui. Após o grampo, conseguiu proteger em uma fenda com um Camalot #1, se não me engano, que não estava indicado no croqui. Daí tocou até a parada, bem ao lado esquerdo de uma vegetação alta. Nessa hora já estávamos preocupados com as nuvens escuras que se aproximavam e discutimos se deveríamos desistir ou não. Thiago e Marcel deliberaram lá enquanto eu escalava o esticão e quando eu cheguei na parada eles tinham decidido continuar.

A sétima enfiada foi guiada pelo Thiago, um belo diedro que pode ser protegido em móveis e tem apenas um grampo bem no meio. O Thiago teve alguma dificuldade com a colocação e não achou todas as posições indicadas no croqui, mas conseguiu proteger bem o lance. A parada é feita acima do diedro em um grampo único, mas com backup de três peças numa fenda à direita. Com corda de cima, não achei o diedro muito difícil não. Pareceu-me um IV grau. Marcel disse que não é mais difícil que o Pégaso, no Babilônia.

Nesse momento, as nuvens negras estavam apertando o cerco em volta de nós. Marcel ainda guiou o primeiro lance (um VI grau técnico e delicado) e costurou o primeiro grampo. Thiago e eu estávamos tensos com uma possível queda antes desse grampo, num fator 2 esquisito, mas ele passou de boa. Nesse ponto, porém, o Thiago achou melhor a gente descer sem terminar a via (faltava apenas o restinho dessa enfiada), ao que todos concordamos. Parecia muito que iria cair uma tempestade a qualquer momento.

Croqui da via elaborado pelo Hans e disponível no site escaladas.com. Não faça como nós e rapele errado até a P3. O melhor caminho é o rapel da P4 até a P2.

O rapel foi meio enrolado por minha causa, já que eu tinha levado um Grigri, mas não o ATC. Os dois primeiros rapeis eu fiz em corda única, fixada acima, e o Thiago veio por último. Depois o Marcel achou que seria mais rápido fazermos um rapel assistido. Desci pendurado no freio dele então. Foi bem rápido. Mas demos mole no rapel da P4, já que deveríamos descer até a P2, mas nós fomos para a P3. Thiago percebeu o erro e desceu direto para P2 e Marcel e eu fizemos um outro rapel em horizontal esquisito até encontrarmos a corda do Thiago e entrarmos no rapel que ele montou. Dali descemos separados, dessa vez usando dois mosquetões para fazer o rapel em vez do rapel assistido.

No final, deu tudo certo. Foi um escaladão ao estilo das vias de serra: via dura e exigente, que não dá descanso em nenhuma enfiada. Não me lembro de uma via na cidade que seja parecida com essa. Mas ela me lembrou da escalada no El Kabong, que fiz recentemente. Achei o mesmo estilo de via, mas menos exposta. Foi um prazer fazer essa via com esses dois parceiros de cordada que praticamente me carregaram pedra acima. Grande via! Super recomendada.