Por: Renata Aguiar
Que o Dedo de Deus é um ícone do montanhismo brasileiro ninguém tem dúvidas! Mas ele é para qualquer pessoa?
Em 2024, quando entrei no CBM do CERJ, eu não sabia muito bem o que esperar, mas tinha muita vontade de subir o Escalavrado porque uns amigos tentaram me levar há muito tempo atrás, mas adrenei demais naquela aderência molhada.
E coloquei na minha cabeça que para eu conseguir ir em qualquer lugar no PARNASO eu precisava me preparar antes para que tudo fosse prazeroso (perregue na medida, é claro).
Terminado o CBM lá em 2024, comecei a pensar que estava muito melhor e cheguei a marcar e desmarcar alguns Escalavrados por motivos alheios a minha vontade.
Mas eis que o Marcelo Magal me pergunta se eu quero ir no Dedo de Deus. Oi?! Eu no Dedo de Deus? Não tô pronta!
Alguns amigos da mesma turma do CBM foram e amei ver o relato deles! Amigos queridos do CERJ foram lá e guiaram! E continuei lendo o relato deles e imaginando cada etapa, mas sempre com o sentimento que era uma coisa que ainda não estava pronta.
Mas o Magal de vez em quando lembrava do Dedo de Deus. Eu respondia: Ainda não dá para mim!
E minha escalada começou a evoluir… comecei a guiar vias mais simples, entrei no primeiro de cordada, comecei a fazer umas escaladas de aventura… e na última aula do primeiro de cordada, perguntei pro Magal: você já foi no Dedo de Deus esse ano?
Ele arregalou o olho e me respondeu já abrindo o celular olhando agenda e falou: dia 10/10/2026!
Nas semanas que antecederam, foi um período de muitas chuvas, e escalar estava difícil… quando não estava chovendo, ainda não tinha secado da chuva anterior.
Mas no nosso sábado parecia ter uma janela possível!
Na véspera combinamos os detalhes e por ser final de semana e numa janela possível num período muito chuvoso, combinamos de entrar na trilha ainda escuro para que começássemos a ascensão nos cabos de aço no início da luz do dia.
Às 4:47 entramos na trilha e quase 6:00 chegamos no cabo de aço. Uma outra cordada (Tiagos e Stefanie) estava se equipando quando chegamos e teríamos que esperar um pouco para iniciarmos a nossa ascensão. Eles nos contaram que o Fabrício já tinha chegado e já estava subindo. Do Fabrício, eu só ouvi a voz em alguns trechos e o seu drone.
Para a nossa surpresa, aparece um escalador sozinho na laca no fim do primeiro cabo de aço! Meu irmão, o que houve aí? Fiquei para trás, vou descer sozinho. Quer descer antes da gente subir? Não, não! Podem subir. A primeira cordada foi e o escalador solitário se foi com a cordada.
Começamos nossa ascensão, progredindo cada cabo de aço, haja braço, haja perna, vamo que vamo!
Chegamos na bifurcação para Teixeira e fizemos como todos, pegamos uma mochila de ataque, separamos o essencial, fizemos uma pequena pausa para um lanchinho e hidratação. Eu tô olhando os degraus da Teixeira e pensando… vamos para lá, mas para minha surpresa o Magal toca para a direita. Bora que meu guia sabe das coisas!!!
O Magal foi e depois que perdemos contato visual, caiu algo grande, uma pedra!!! Ufa!!! Deu susto em mim e Anabel!
Anabel seguiu e eu fiquei por última. Quando estou sozinha, ouço um “hoooop” vindo da trilha da Teixeira. Eu pensei, caramba já fez cume e já tá descendo?! O rapaz perguntou: para a Maria cebola é aí? Respondi que era e ele se aproximou e perguntei: você está sozinho??? Nãooo, o pessoal tá vindo aí atrás. Erramos o caminho e subimos o drone, vimos pessoas e vim correndo na frente para ver onde que tinha que ir.
Nem dei muita bola e falei! Tenho que ir! Boa sorte aí!
Quando chegamos na base da escalada em parede (P2 segundo o guia “50 vias clássicas no Brasil” do Flávio Daflon), encontramos o rapaz que colou na cordada que estava na nossa frente e ele fez o caminho certo somente porque foi com eles.
A cordada da frente estava equipando e iniciaram a escalada. A cordada da frente seguiu e o resto da turma do solitário chegou e ficou atrás da nossa cordada. E nós ficamos meio prensados por eles na fila, porque o solitário chegou sozinho antes de nós e a turma dele chegou depois sendo 5 pessoas no total. Conversando com eles, descobrimos que eram de Juiz de Fora e para facilitar a comunicação virou “time Juiz de Fora”.
Magal começou a guiar, ensinou os betas e combinei com a Anabel que eu iria no meio. Quando o Magal gritou: Renata, tá na minha! Um rapaz do time Juiz de Fora soltou: Renata, você se incomoda de eu ir na sua frente?
Saiu da minha boca sem nem pensar direito: Me incomodo. Eu já tô encordada, na seg do meu guia e pronta para subir!
E fui!
Quando cheguei no Magal, ele falou você vai seguir guiando, porque não caberemos todos aqui e até a próxima parada é um segundo grau e você guia!
Lá fui eu! Com o pensamento “segundo grau de via antiga, é mais difícil que segundo grau de via nova”, mas eu tenho que ir!
Cheguei no platô antes da Maria Cebola (sem saber que o próximo trecho era a famosa bifurcação da Blackout e da Maria Cebola). Montei uma seg na árvore, puxei a minha corda e montei a segurança, enquanto Magal fazia a seg da Anabel.
Reencontrei a cordada da frente (Tiagos e Stefanie) e eles foram pela Blackout. E fui observando a ascensão e o desaparecimento deles entrando na chaminé.
Depois do Magal e Anabel subirem, descobri para que lado ficava a Maria Cebola. Que pé alto!!!!
Ainda bem que já sabia artificializar, porque nem com o joelho no ombro dava para mim. Pedi para fixar a corda da Anabel e dei um “batman” para entrar na parede da Maria Cebola. Depois me reorganizei e escalei a Maria Cebola! Quando tô chegando perto do Magal, ele me orienta: entra aí na chaminé! Por que??? Porque a via continua por aí! Hahahaha
Fui entrando na chaminé até onde achei que tinha que ser, até que o guia da cordada da frente aparece pelo fundo chegando pela Blackout!
Engarrafamento de novo!
Fiquei com o sentimento que Anabel demorou demais… quando ela finalmente chegou ela explicou que o guia do “time Juiz de Fora” pediu ajuda (ele não sabia nem para onde ir!!!). Que situação!!! Se a gente larga, se a gente ajuda, nenhuma decisão sem riscos. A Anabel ajudou dentro de um possível com informação e seguimos senão iríamos atrasar demais!
Nos reunimos na base da chaminé. E o Magal começou a guiar, mostrando o melhor caminho e assim fomos!
“Ai ai ai ui ui ui” e fomos! Na saída da chaminé temos que entrar em outra chaminé pequena para chegar no cavalinho. Na saída da chaminé, o Magal fala para eu entrar nessa chaminé e ir tocando. Eu guiar? Não!!! Magal falou sério comigo: eu sei que você consegue e não dá para ficar todos aqui. Enquanto a Anabel fazia a chaminé grande, reorganizei a mente e comecei. “Ai ai ai ui ui ui” e conclui a chaminé! Quando o Magal veio, ele pediu para eu mover para o cavalinho. E eu fui adrenando, mas fui! No reunimos para fazer o lance do cavalinho. Anabel com todo carinho: “Mô, da seg para gente dali?” E assim parcelamos essa enfiada! Nessa parada cada um fez segurança em algo diferente: numa planta ou numa pedra, para cabermos no local. Nesse momento, eu tinha que montar a seg do Magal, e “cadê meu freio?” Perdi um freio! Aí o Magal: roubei aqui, porque deixei o meu na parada para a Anabel!!! Ufaaa!!!! Nem percebi!!! Cansaço batendo… Mas eu tirei meu segundo freio e pronto!!! Seguimos!!!
Aí chegou na P6 e o Magal foi guiando o lance do passo do gigante, que tem um grande bico de pedra, passando todos os betas para gente. Eu fui a primeira a ir e achei um pé intermediário e fui! Mais uma vez passei pelo Magal e fui parar na base da escada.
Todos os vídeos da escada me apavoravam, mas quando cheguei ali, estava encoberto a ponto de mal ver as montanhas em torno. Isso me ajudou, mas mesmo assim não me sentia segura de subir a escada sem uma corda de cima.
O Tiago da cordada de cima subiu e desceu a escada algumas vezes e ele se ofereceu para montar uma seg para mim, enquanto o Magal terminava de dar a seg da Anabel.
Nesse momento, ouvimos o “time Juiz de Fora” se aproximando e perguntando por onde deveria ir. É tanta coisa para se preocupar com a nossa própria atividade e ainda ficar com a preocupação se eles conseguiriam terminar bem.
Montei a seg para Anabel subir a escada e Magal subiu guiando mesmo!
E cerca de 13:30, fizemos cume! Nesse momento até um solzinho apareceu!
Tiramos fotos e escrevemos no livro de cume (Magal agradeceu à Nimesulida pela conquista do cume).
Mas a previsão era de chuva e raios a partir de 15:00, então bora comer algo e descer logo.
A cordada da nossa frente já tinha descido a escada e deixaram a gente passar na frente, porque sabia que a gente ia fazer o rapel mais rápido que eles e segundo eles “já tinham atrasado a gente na subida”. Agradecemos e seguimos.
Primeiro rapel com apenas uma corda e a outra no pescoço. Eu fui a última a descer e quando cheguei, o Magal já estava praticamente pronto para descer o próximo rapel: o famoso rapel negativo! Mas segundo Anabel “o Magal fica na pontinha e facilita a vida”. Eu tenho um comportamento que funciona comigo, tento não antecipar muito não, senão fico pensando demais antes da hora e me estressa, ao invés de ajudar. Quando estava chegando no Magal, ele me ensinou: Renata, se eu não estivesse aqui o que você faria? Ai dei meu jeito de chegar no platô que tinha que chegar! Mas sabendo que se não conseguisse, o Magal salvaria!
Quando cheguei na próxima parada dupla, Anabel já estava concluindo a montagem do rapel com a outra corda. Nos organizamos e descemos.
Entramos no costãozinho, trilha, cabos de aço, degraus, etc. No caminho… Magal fica com a impressão que tem novos degraus! E pode isso?!
Até que finalmente chegamos nas nossas mochilas maiores! Reorganizamos os equipamentos e descemos logo, porque ainda tinha muito trecho para descer. Chegou o momento da montagem do rapel e sentimos as primeiras gotas de chuva. Bora, mas não esquece dos procedimentos!
Vimos e/ou ouvimos uns 3 raios, um deles foi mais perto da gente e ficamos mais apreensivos. Bora, mas não esquece dos procedimentos!
Chegamos no fim do rapel com uma chuva considerável e arrumamos todo o equipamento para entrar na trilha, chovendo o tempo todo! Quando estávamos prontos para entrar na trilha, vimos a turma dos Tiagos e Stefanie chegando no final do primeiro cabo de aço, para iniciar o último rapel. Demos um oi-oi e nos despedimos. Não tivemos mais notícias do “time Juiz de Fora”, espero que tenham concluído a atividade em segurança!
Depois de umas quedinhas, chacoalhadas em árvores molhadas que nos molhavam ainda mais, chegamos no Paraíso da Plantas um pouco antes das 18:00. Completamente encharcados! Trocamos parte das roupas molhadas e fomos fazer um lanche rápido antes de descer.
Na nossa conversa, o Magal e a Anabel me perguntaram como estava me sentindo. Ao contrário de outras empreitadas, onde a emoção tomou conta de mim e o choro veio fácil; o Dedo de Deus me deixou em uma certa letargia emocional, com a sensação que fui eu, mas não fui eu! Ainda com dificuldade de acreditar que tinha conseguido! Como se em parte do dia tivesse entrado num modo “missão”, mas ao lembrar de vários trechos, um sorrisinho escapa! E nos dias seguintes, esse sentimento foi voltando ao repassar alguns trechos na minha mente, ao contar para os vários amigos que me mandaram mensagem, ao olhar as fotos…
Avaliamos que o dia 10/10/2026 era nosso dia de fazer cume sim! Se por um acaso o “time Juiz de Fora” não tivesse errado o caminho, eles estariam na nossa frente. 5 escaladores na nossa frente por si só já seria um atraso, ainda mais com a dificuldade de escalada e navegação que observamos. Possivelmente, teríamos reavaliado para não continuar com um possível atraso causado por essa cordada somado à previsão de chuvas e raios a partir das 15:00.
E voltando à minha pergunta inicial, eu só posso responder por mim, e certamente o Dedo de Deus não era para mim. Mas com treino de escalada, preparo físico e mental eu consegui mudar essa condição e passou a ser para mim também! E me desculpa outros amigos queridos que poderiam ter me levado, mas esse cume tinha que ser com o Magal e Anabel, pela amizade, incentivo e parceria desde o meu CBM, lá em 2024. Minha eterna gratidão!







