Chegamos no Paraíso da Serra lá pelas 10:10 e depois de um lanche para reforço do desjejum, idas ao banheiro, fotos para a posteridade e com todo o material separado e checado, o Rafael nos desceu de carro até a entrada da trilha à beira da rodovia a 830m de altitude aonde depositou toda a bagagem e voltou para estacionar o carro no Paraíso da Serra. Quando ele voltou eram 11:25 e antes de começarmos a subida em direção ao nosso objetivo final deste primeiro dia, um carro do Ibama que subia a estrada parou para nos questionar se havíamos passado na portaria do parque para preencher o termo de responsabilidade; informamos que tínhamos passado o fax e seguimos nosso caminho. Ao contrário da minha última estada aqui em fevereiro passado, hoje o piso da trilha está completamente seco, não chove desde uma quinzena. Até que o tempo gasto na caminhada para chegar à Chaminé das Pedras Soltas não foi tão ruim assim pois por volta das 13h atingimos aquela base.
Depois de ligeiro descanso, o Rafael malocou os stiks e nós tratamos de nos equiparmos e ato contínuo, com as cordadas já previamente definidas, com Rafael e Márcia, a Jana e eu, o Rafael abriu a subida pelo novo cabo de aço instalado no paredão à esquerda da Chaminé das Pedras Soltas; eu subi logo em seguida e hoje como a exemplo da trilha esta parede também estava completamente seca, desta vez nem usei a sapatilha neste trecho; subimos sem maiores dificuldades, e enquanto o Rafael puxava a Márcia, eu deixei minha mochila e voltei para pegar o anãozinho da Jana para que ela vença este trecho economizando energia.
Subimos mais dois grandes lances de cabos encordoados e desta vez quem voltou para buscar o anão da Jana foi o Rafael. Daqui para cima só a nossa debutante continuou encordoada, pois assim sendo ela fica bem protegida e pode fazer os lances sem estresse. Eu guardei minha corda, pois para os mais experientes os outros trechos de cabos ficam mais práticos de serem vencidos desencordoados. Como já era esperado, perdemos um pouco de tempo neste trecho até a bifurcação Teixeira x Leste, mas não muito, e lá chegamos pouco antes das 15h. Depois de ligeiro descanso para hidratação e mastigação, o Rafael e eu retomamos a caminhada para a base da Leste carregando nossas mochilas deixando as duas meninas e respectivas tralhas na bifurcação esperando pela nossa volta para carregar as duas outras mochilas trilha acima as liberando assim deste estorvo momentâneo.
Deixamos nossas mochilas no colo Polegar x Base da Leste e voltamos para resgatar as meninas e suas tralhas (apesar desta ser a minha 15ª vez aqui, esta foi a minha primeira descida deste trecho da trilha), o Rafael pegou a pequena mochila de ataque da Márcia enquanto eu carreguei o anãozinho da Jana trilha acima e pouco antes das 16:30h finalmente todo o grupo com a bagagem completa estava reunido no ponto escolhido para o bivaque desta noite. Como todos já conhecem o cume do Polegar, ninguém sequer cogitou de ir até lá, pobre Polegar, desta vez não teve a honra da nossa visita. As meninas estão de parabéns, chegaram até aqui inteiras, elas não reclamaram em momento algum e não deram o mínimo trabalho; aliás, apesar da Jana continuar dizendo que não gosta de caminhadas deste tipo, ela as está fazendo a cada uma que passa melhor que a anterior.
O tempo está maravilhoso, temperatura no termômetro marcando 17°C, mas sem vento e sensação térmica de mais de 20°C, céu completamente azul, visão total até o horizonte, e que paisagem deslumbrante, é como eu digo sempre, mas tem que merecer… ao que a Márcia emenda, “eu não sei de vocês, mas eu tenho certeza que fiz por merecer”; bravo, menina você tem toda razão! Fizemos o reconhecimento dos nossos aposentos e decidimos quem ficaria onde e antes de prepararmos nosso jantar assistimos extasiados a um belo entardecer com direito a show de luzes nas montanhas para os lados de Friburgo, bati várias fotos; maravilha das maravilhas.
Depois do show de luzes do entardecer, o sol se pôs por volta das 17:30, preparamos nosso repasto “A la belle étoile” (ao relento) mas com temperatura que continuou agradável e por vezes até soprava um ventinho quente que infelizmente normalmente é predecessor de frentes frias; esperamos que ela se dissipe e não nos atrapalhe amanhã. Depois de sorvermos com prazer o jantar gentilmente oferecido pelo casal Márcia e Rafael, o qual foi preparado no fogareiro 0km da Jana, ficamos papeando e observando o céu completamente estrelado sobre nossas cabeças e as luzes de Teresópolis lá em baixo a nordeste do nosso ponto de vista. Como eu havia previsto no carro, a Márcia não nos deu o mínimo trabalho até aqui, e certamente assim será até o final desta já memorável excursão ao Dedo de Deus.
Pouco antes das 22h quando resolvemos nos recolher aos nossos aposentos, a temperatura neste ponto girava em torno dos 15 a 16°C e a sensação térmica continuava a ser de algo mais quente que isso. Todos dormimos muito bem pois nossos quartos estavam bem protegidos tanto do sereno da noite quanto do vento; dormimos como verdadeiros anjinhos, mas afinal, pelo menos desta vez estamos nos comportando como tal e portanto bem o merecemos.
Base da via Leste do Dedo de Deus, sábado 16 de junho de 2007.
Acordei às 05:30, ainda estava escuro mas resolvi me levantar logo, pois queria tirar algumas fotos do alvorecer a partir deste colo, afinal esta é a primeira vez que assisto o amanhecer daqui. Os demais também não demoraram a acordar e quando finalmente clareou, todos já estavam ativos e tratamos de preparar nosso desjejum para a seguir separar o material para a escalada e malocar duas cargueiras com o restante da tralha para recuperarmos na volta do cume.
Finalmente por volta das 09:10 (mais tarde nos demos conta que deveríamos ter começado a escalada pelo menos 1 hora mais cedo, mas aí, já não adiantava) dei início a nossa escalada de 2 cordadas como previsto. Subi até o primeiro grampo e logo a seguir veio o Rafael, a Jana ficou para subir por último para poder orientar a Márcia naquele primeiro lance de escalada da Leste, é o lance chave deste trecho. Quando nós quatro nos reunimos neste primeiro grampo, eu imediatamente parti direto em direção à base da Maria Cebola, pois naquela altura do campeonato já tinham outras cordadas reunidas na base da via, eu não cheguei a ver a maioria, mas o Rafael disse que em determinado momento chegou a contar um total de 17 pessoas na via. Ele veio logo a seguir, mas fará uma parada intermediária para facilitar a subida da Márcia.
Fui o primeiro a chegar na bifurcação “Blackout x Maria Cebola” mas não demorou e o Daniel, um escalador de Niterói, que fez a Leste solando, se juntou a mim naquele ponto; ele está com dois outros niteroienses que veem numa cordada atrás do nosso grupo. O Daniel prosseguiu pela Chaminé Blackout e a seguir chegou uma cordada do Light que também pegou a Blackout. Então, chegou o Júlio que vem guiando a Ana Fucs. Logo a seguir chegou o Rafael e depois as três meninas, Márcia, Ana e Jana completando o sexteto de Cerjenses nesta via hoje.
O Júlio com a Ana seguirão pela variante “Maria Cebola”, enquanto nós outros iremos pela chaminé Blackout, que é o caminho original da Leste e achamos que por ser um caminho interno, poupará nossa debutante Márcia do estresse da exposição da MC. Estratégia definida, eu entrei na “Blackout” rebocando a minha mochila que estava meio gordinha e acabou entalando na parte mais estreita e vertical da chaminé, a bicha emperrou de tal maneira que fui obrigado a esperar o Rafael que vinha logo a seguir, para me ajudar a desembaraçar a sacana.
A chaminé estava completamente seca e nem sequer fazia frio lá dentro como de costume; era o dia perfeito para utilizar este caminho e esta foi minha segunda vez na rota. Como o buraco é muito estreito, eu subi para o salão acima do mesmo enquanto o Rafael ficava na boca do tal buraco para assegurar nossas meninas que vieram logo a seguir. Para o restante da chaminé o Rafael partiu na frente e quando a Márcia chegou na pedra entalada eu já estava junto dela e a ultrapassei para preparar a segurança da Jana enquanto o Rafael puxava a Márcia.
Vencida a “Blackout” vem outra chaminé curtinha que antecede o “Pulo do Gato” e aí também o Rafael foi primeiro e eu fiquei para orientar a Márcia a ultrapassar o lance; é, a menina está mesmo preparada para enfrentar a via, seguiu direitinha às orientações, conseguiu até trocar o pé numa passada chave para dominar o lance e isto sem chiar nem precisar retroceder um milímetro sequer, é, ela realmente encarou a empreitada com seriedade; belo exemplo de perseverança, e passou rapidinho pelo trecho; agora falta pouco para o cume. Neste ponto enquanto eu esperava a chegada das meninas ainda fiz umas fotos da paisagem de Salinas ao longe, ainda tínhamos céu completamente azul.
Mais um pequeno trecho de chaminé vencido sem dificuldade pelas nossas meninas e chegamos ao “Passo do Gigante”, último lance de escalada da via, imediatamente antes da escadinha que nos leva ao cume, e mais uma vez coube a mim a tarefa de orientar e auxiliar a Márcia a vencer o lance, o que ela fez sem maiores dificuldades. O Rafael ficou no grampo logo acima da escada e de lá puxou a Márcia que foi logo seguida pela Jana e finalmente eu também subi a escada para encontrar a turma no cume, eram aproximadamente 13h; o Júlio e a Ana Fucs estavam nos esperando lá e nos informaram que o Sérgio Bula que subiu em solitário pela Teixeira tinha descido pouco antes da nossa chegada. Logo a seguir chegou a turma de Niterói e o cume ficou bem povoado, éramos 9 montanhistas ao todo, dos quais 3, nossas duas meninas e o Fabrício de Niterói pisavam este cume pela primeira vez.
É, e o tempo mudou rapidamente, pois se no Pulo do Gato a visibilidade ainda era total, quando chegamos no Passo do Gigante já estávamos envolto num ruço bem espesso, os sinais do vento quente de ontem à tarde infelizmente não falharam e pelo jeito vai chover daqui a pouco. Por causa da mudança no tempo, ficamos pouco tempo no cume, quando aproveitamos para anotações no livro de cume, um pequeno lanche, muitas fotos e naturalmente os cumprimentos de praxe, além de vários telefonemas é claro, para parentes e amigos em geral.
Pouco antes das 14h iniciamos nosso retorno e a essa altura, o Júlio e a Ana já estavam terminando a primeira perna do rapel expresso e assim que a corda deles desceu, nós passamos a nossa e eu abri o rapel sendo secundado pela Jana, depois veio a Márcia e o Rafael ficou para fechar o procedimento; apesar da natural preocupação do Rafael que até pensou em voltar pela escada ao invés de entra no grande rapel eu o convenci que a Marcia estava perfeitamente apta a seguir aquela rota e seria uma pena priva-la deste “gran finale”; a menina executou todo o procedimento na maior calma e segurança provando que eu tinha razão, parecia uma veterana naquela parede.
Para a segunda perna do rapel os três de Niterói que voltaram pela rota da escada passaram a nossa frente, e logo eles desapareceram morro abaixo. Quando terminamos o rapel da Teixeira já estava chovendo há algum tempo, e logo no nosso encalço chegou um outro grupo, este de 3 paulistas que acabaram descendo até a chaminé das Pedras soltas com a gente. Se com um grupo de 4 pessoas esta descida já seria demorada, pois as meninas precisavam rapelar na maioria dos trechos de cabo de aço e de cordinha, imaginem com 7 e pra complicar mais o trio paulista era bem lento, ainda bem que eu só rapelei mesmo nos dois últimos trechos para voltar à chaminé das Pedras Soltas.
O grupo de paulistas era composto por um homem, o guia e duas meninas, e a os três só tinham duas lanternas, além disto, o guia não conhecia muito bem a trilha e se não fosse a nossa presença no local, eles estariam com problemas, neste trecho o Rafael abriu a descida, seguido pelas nossas meninas e pelo trio paulistano enquanto eu encerrava a fila recolhendo a corda. Chegando perto da bifurcação eu ultrapassei os paulistas, as nossas meninas e o Rafael já estavam na bifurcação e assim que cheguei, ele e eu subimos para resgatar as mochilas deixadas na base da Leste e quando regressamos o grupo ainda não tinha progredido muito não, tanto que o tempo gasto neste nosso desvio nem influenciou no tempo total de descida, é, se tivéssemos iniciado nossa escalada 1 hora mais cedo teríamos evitado esse atraso.
Enquanto fomos resgatar nossas mochilas na base da Leste os paulistas assumiram a dianteira na trilha e como eram mais lentos e só tinham 2 lanternas para os três, a progressão ficou bem devagar, tanto que nem demorou muito para que eu os ultrapassasse novamente e não muito distante da bifurcação, mas aí já não adiantava mais, pois nosso grupo precisava esperar que eles liberassem o caminho para nossas meninas poderem descer.
Mais uma vez deixei todos passarem e fiquei por último para recolher a última corda e chegando no ponto de aonde dois rapéis com cordas emendadas nos leva à base da Chaminé das Pedras Soltas, nos deparamos com mais um atraso devido ao desconhecimento da rota de descida pelos paulistas que se enrolaram e mais uma vez ficaram reféns da nossa ajuda; mas não tem nada não, uma mão lava a outra e quem sabe em outra situação não seremos nós a precisar da ajuda alheia. Quando o Rafael desceu, teve que parar no meio do caminho para desembaraçar as duas paulistas que estavam bem atrapalhadas na parada intermediária (desnecessária para quem realmente conhece a rota) montada pelo guia delas; enquanto isso as nossas meninas e eu aturávamos a chuva e o frio na base do nosso penúltimo rapel. Desfeito o nó da paulicéia o Rafael completou o rapel e nossa fila começou a andar.
E não é que o paulista montou o rapel passando a corda pelo loop dos cabos de aço ao invés de pelo olhal dos grampos, não deu outra, a corda deles ficou presa e se não fosse o fato de eu estar descendo quando ele se mancou que a corda estava presa, eles estariam lá até agora tentando resgatar a corda deles. Lá fui eu desviar da minha rota para alcançar a corda presa deles para poder liberar bichinha para o trio. Como eles erraram o caminho, tiveram que fazer três rapéis ao invés de dois, e no terceiro mais um problema, êta turma; desta feita, foi nada mais nada menos do que nossa debutante Marcia quem se encarregou de desembaraçar a paulista, e o fez com estrema calma e conhecimento de causa, está de parabéns esta nossa menina!
Ufa! Finalmente chegamos na base da Chaminé das Pedras Soltas e como daqui pra frente os paulistas não necessitam mais da nossa ajuda, eles se despediram e se adiantaram trilha abaixo. Como já estamos bem atrasados mesmo, nem pensamos em nos apressar e tratamos de arrumar nossas tralhas sem estresse antes de prosseguir no nosso caminho de volta para a civilização. Já passavam das 22h quando finalmente retomamos nossa caminhada de volta que por causa das condições do terreno e de ser feita sob a luz das nossas lanternas, felizmente todos no nosso grupo estão devidamente equipados, foi em marcha lenta e por volta de meia noite chegamos em baixo na rodovia. Nos metros finais da trilha o Rafael se adiantou para ir buscar o carro no Paraíso da Serra e assim, quando chegamos na estrada não precisamos esperar muito tempo pela volta do possante.
O último grampo foi no Posto Garrafão, e de lá seguimos de volta para o Rio, chegando em casa no Flamengo por volta das 2h, aproximadamente 17 horas depois de ter iniciado nossa escalada.
O meu muito obrigado aos grandes companheiros, amigos Jana e Rafael que foram de extrema importância para o completo êxito da estreia da nossa querida guerreira Marcia que se portou extremamente bem, como verdadeira montanhista que é e naturalmente tem todo o mérito desta conquista particular, a escalada deste cume símbolo do montanhismo nacional, obrigado também a ela pela confiança em nós depositada para coadjuva-la no cumprimento desta tarefa. Valeuuuuuu Marciaaaa!!!!! Valeu timeeeeee!!!!!
Os Participantes: Márcia D’Ávila, Rafael Villaça, Jana Menezes e eu.
José de Oliveira Barros