Esta foi minha 18ª escalada do Dedo de Deus, e em todas havia pelo menos um debutando e ou retornando após décadas de ausência, geralmente mais de um, inclusive na minha primeira vez no final do curso de Escalada do “Cabeça Verde” quando além de mim é claro, tinha mais uns quatro estreantes; minha primeira vez foi pela “Teixeira” secundando o grande Hilo e de lá para cá sempre o fiz guiando a Leste, hora pela Maria cebola e outras pela chaminé Blackout, que desta vez estava completamente babada, portanto impraticável.
Fico sempre muito feliz em simplesmente visitar este cume, mas mais ainda em ter o grande prazer de em todas as vezes poder ver o brilho de felicidade nos olhinhos dos debutantes e retornados, e desta feita não foi diferente; a Pati principalmente, pela desenvoltura demonstrada durante toda a jornada, mas não menos importante a superação dos dois mulambos da segunda cordada, um debutante e outro retornado de quase 30 anos de ausência, que vencendo suas incertezas também galgaram este belo cume neste primeiro de maio, e é claro ao nosso mulambo mor Rafael que teve que aturar uma cordada de 3 com aqueles dois mulambos, meus parabéns; êta turma boa!
Na última quinta-feira a Pati simplesmente disparou trilha acima sem demonstrar nenhum cansaço e em 45 minutos chegamos na chaminé das pedras soltas, aí o Rafael abriu a subida dos cabos e logo eu o segui; a Cachopinha foi a quarta a sair daquela base, mas a partir do fim deste primeiro cabo disparamos na frente e ao chegarmos na bifurcação esperamos os mulambos de 10 a 15 minutos. Com a turma mais uma vez reunida, descartamos as mochila da Pati e a de um dos mulambos para facilitar a vida deles na escalada, enquanto o Rafael e eu seguíamos com as nossas completas e algumas das tralhas das outras, divididas entre a do Rafael e a outra mochila, e ato contínuo partimos para a base da Leste aonde chegamos praticamente juntos.
Na escalada propriamente dita, iniciada por volta das 09 parti na frente e quando iniciei a Maria Cebola o Rafael tinha acabado de chegar naquela base e daí pra frente só nos revimos no cume. Neste trecho, a Pati levou o único escorregão de toda a jornada, mas não deu a mínima bola para o ocorrido e sem pestanejar voltou para a via e em pouco tempo se juntou a mim na parada no final desta variante, a parte mais exposta de toda a via. A chaminé que segue a Cachopinha subiu sorrindo e encarnando nos mulambos retardatários, não demonstrou a mínima dificuldade e rapidinho mais uma vez se juntou a mim no topo da chaminé. Partimos para o Pulo do Gato e aí ela optou por passar mais à direita, mas o fez com maestria e sem deslize.
Prosseguindo passamos pelo Passo do Gigante onde ela inovou vencendo a saída em chaminé ao invés de fazer o passo, e como eu sempre faço com meus debutantes, ao chegar na base da escada cedo a guiada para meu companheiro de cordada que assim chega ao cume primeiro e desta vez nossa querida Pati alcançou este belo cume às 11:10 de uma bela manhã de outono, com bela visão de 360°, avistando as montanhas do PNSO, Teresópolis, Bonsucesso, Três Picos, Macaé e um belo mar de nuvens sobre a baixada e o Rio de Janeiro; entramos na trilha às 06:45, portanto podemos considerar que fizemos o cume dentro de um tempo razoável, 4h e 25min sendo 2h e 15min de caminhada e 2h e 10min de escalada (os dois mulambos só chegaram mais de 1 hora depois); nada mal para uma debutante que até algumas semanas atrás tinha dúvidas sobre a possibilidade de pelo menos chegar ao cume; não só chegou, como chegou muitíssimo bem e inteirona, saltitante como uma lebre feliz e com energia de sobra para descer e subir de novo no mesmo dia!
Durante o período que ficamos esperando os mulambos chegarem, fizemos muitas fotos, pois o tempo esteve bem aberto com visão deslumbrante de tudo à nossa volta, mesmo as nuvens que cobriam a baixada e o Rio de Janeiro estavam maravilhosamente lindas do nosso ponto de vista; quando nossos companheiros finalmente chegaram, o tempo já havia se deteriorado e tínhamos muita neblina e até um leve chuvisco de vez em quando; assim, nos cumprimentamos, eles assinaram o livro de cume, fizemos um brinde ao feito com o suco de uvas fermentadas “Dona Domingas” que eu levei para a comemoração e sem mais demora iniciamos nossa descida logo após a chegada ao cume de uma dupla de jovens de Teresópolis para nos fazer companhia; pelo adiantado da hora acredito que hoje seremos os dois únicos grupos neste renomado cume da Serra dos Órgãos.
Por volta das 13h abri o rapel pela variante Rio de Janeiro parando no platô da saída da Lesser, vindo a seguir a Pati, o Rousselet, o Iriba e o Rafael fechando a função. A dupla de teresopolitanos iniciou a descida pela via normal e no último trecho de rapel cedemos a dianteira a eles que eram só dois, para não atrasá-los. Apesar da trilha um pouco molhada, como a turma é boa, somente em dois pontos antes da bifurcação precisamos instalar cordas para o rapel dos nossos participantes e assim rapidinho, alcançamos a bifurcação aonde recolhemos as mochilas malocadas e seguimos morro abaixo para os três últimos trechos de rapel para voltar à Chaminé das Pedras soltas.
Finalmente chegamos na base das Pedras Soltas, isto é, quatro de nós, pois o Rafael que ficou fechando o rapel, conseguiu prender a corda num trajeto alternativo que inventou e assim, foi o único que ficou exposto ao temporal que desabou a seguir; felizmente ele tinha um bom anoraque que não deixou a água chegar até os ossos, mas o bichinho chegou bem molhado até nós e quando chegou, a enxurrada parou; era só pra ele que uma vez declarou que o Dedo de Deus não o tocava não, ele preferia a Agulha do Diabo; até hoje, cada vez que ele vem ao Dedo paga pela infeliz declaração.
Sem mais demora reiniciamos nossa descida e às 17:30 a Pati e eu chegamos na rodovia aonde esperamos uns bons 10 minutos pela chegada do trio (fechando a jornada em pouco menos de 11h, e se a corda da invenção do Rafael não tivesse prendido, certamente teríamos feito em menos de 10h; nada mal) e mais uma vez a Cachopinha aproveitou para tripudiar sobre os dois mulambos e foi logo dizendo pro Rafael: “Você precisa escolher melhor seus participantes; e quando vier com mulambos iguais a estes não me chama não!” É, mas hoje ela fez por merecer esta observação; os mulambos não têm como contestar. Agora é partir para o último grampo no Paraíso das Plantas!!!
Meu muito obrigado aos: Rafael, grande aquisição, uma das melhores que o CERJ obteve nestes últimos anos; a Pativéve, e aos mulambos Iriba e Rousselet que vão ter que aturar a Cachopa pelo resto de suas vidas, pelo companheirismo e espírito de bons montanhistas demonstrados nesta bela jornada.
Participantes: Pati, Iriba, Rousselet, Rafael e José de Oliveira Barros.
José de Oliveira Barros