Companheiros montanhistas, mais uma aventura com sucesso de uma cordada feminina acompanhada por uma cordada paulista. Dessa vez ao cume do Mont Blanc.
A ideia surgiu do meu amigo Amauri de SP, e me fez entrar na onda. Convidei Mariana e Kátia e aí fomos. Quando o Diego contou que iria antes e depois voltou com sucesso, conseguimos com ele todas as informações. Ele foi super generoso e contou cada detalhe, emprestou o guia, respondeu mil perguntas. Ajudou pra caramba. Fomos nos informando com amigos que tinham ido e assistindo vídeos do youtube. Amanda cedeu as roupas, o Seblen, emprestou piolet, crampões, baclava e uns enormes mitões, que salvaram minhas mãos do frio. Com toda essa energia positiva, impossível não vencer.
Mariana sugeriu fazer um cursinho antes da empreitada e eu topei, falei com meus amigos de Bariloche, que recomendaram o Fabio, um italiano, que nos treinou na neve, no gelo, no resgate e levou para Agulha do Tour. E aí fomos, mais confiantes, sem guia, enfrentar esse desafio.
Os paulistas subiram antes para Tete Rousse, e nós fomos no dia seguinte, aluguei as botas, carreguei a mochila e estava pesada. Não consegui diminuir o peso, preocupada com o frio e a fome, exagerei na roupa e na comida.
Mariana se atrasou com o trabalho e elas acabaram saindo depois. Como a ideia era sair juntas e ela tinha já ido a Les Houches, eu não sabia como chegar ao início da trilha. Fui perguntar na casa do montanhista e a mulher ficou meio surpresa que alguém que está querendo subir o Mont Blanc não tem a menor ideia de por onde começar. Como todo francês, me deu umas indicações vagas e aí fui tentar descobrir. Um cara me falou que não era para pagar o ônibus. Depois soube que se você está hospedado em hotel, tem direito a transporte gratuito, só pedir uma carteirinha no hotel. Nós também temos alguns descontos em abrigos, por o clube estar associado ao UIAA, mas se tivéssemos um acordo de intercâmbio, poderíamos ter mais descontos. Mas nossos abrigos não são dos clubes.
Peguei o ônibus para o teleférico de Belle Blue às 11:38. Nessa época não funciona o trem para Nid d’Angle, então tem que andar mais umas 2 horas. Peguei o teleférico para Belle blue e procurei a trilha, após fazer um lanche e comecei num caminho tranquilo. Pouco tempo depois as meninas me passaram. Até Nid o caminho é bem tranquilo, depois começa a ter pedra e no final é uma subida forte. Teve uma hora que segui em frente, estava com Kátia e chegamos a ver outra cidade do outro lado, imagino que era da Itália, tínhamos pego o caminho errado, dava para ver, porque começava a descer. Gritamos o EO e Mariana nos indicou de cima para onde era. Foi assim, com aquela suavidade: CARALH….! Ela que andava com o GPS supermoderno, no relógio. Coisa de primeiro mundo.
Chegando no final daquela subidona, com aquele peso, já imaginava o que ia abandonar no abrigo e sonhava com uma escada mecânica, chegaram correndo os paulistas pra me cumprimentar e pegaram a minha mochila, OBA! Os últimos metros, botamos a bota rígida e atravessei a neve sem peso nenhum feliz da vida.
O abrigo, um luxo, mas não tem água, nem wifi. Do lado de fora, no friozinho pega internet. Felizes, fizemos nosso planejamento para o dia seguinte, o jantar uma maravilha, salmão! Os preços outra maravilha. Água a 6 euros.
Dia seguinte, subida a Gouter. Colocamos crampões, capacetes e começamos a andar e antes de passar pelo Col uma avalanche de pedras cai de forma absurda. Um raio não cai duas vezes no mesmo local, né? Então vamos que vamos. O Marcelo ficou de anjo da guarda atrás de mim e passamos um a um, com o coração na boca. Depois vem o trepa pedra, tem cabos de aço até encima, mas com pouco gelo não são muito necessários. Os últimos 100 metros são de neve.
O abrigo é mais luxuoso ainda, tem wifi pagando, mas tem internet do lado de fora. Não tem água, mas nos banheiros tem álcool para lavar as mãos, papel higiênico, e no vaso tem água de descarga. Comida boa, e água a 7 euros.
Dividimos o quarto com um grupo de Pamplona. Muito divertidos. Marcamos café de manhã para as 3 horas e após jantar, tudo arrumado, fomos dormir.
Quando acordamos tinha nevado a noite inteira, chão com neve fofa, vento, nevoa, tempo ruim. Após o café, volta para cama. Marcamos para 6:30 para acordar de novo. Quando acordamos, dia claro, tudo tinha melhorado. Fomos nos preparar e não saímos antes das 8:30.
Subindo acima dos 3.800 m, vai se sentindo. Fizemos duas cordadas. A feminina com Mariana na frente. Ela mais forte, já vinha fazendo o tour do Mont Blanc, tinha subido 4.000 com Zé e Arthur, mais uma com Fabio, os 3.500 de Le Tour, estava muito mais aclimatada. Mariana é muito focada, treinou os nós com a Kátia, não ficou se dispersando no dia anterior, como eu, que fui dormir a sesta. Combinamos de parar de hora em hora para beber chá. Na segunda parada, como eu sou muito estabanada, deixei cair minha garrafa térmica que rodou pelo Mont Blanc e ficará para sempre por lá. Será que ainda tem chá quentinho dentro?
A subida é muito íngreme, mesmo, a gente fica com a respiração ofegante. Eu queria tirar fotos e as meninas: quer cume ou fotos? Precisava parar mais seguido do meu normal, para respirar. E começava a descer gente. Perguntava: fizeram cume? NÃO, muito vento, muita neve fofa, a crista estranha com essa neve. Meio desanimador. Mas continuamos. Chegando no abrigo Vallot dá para ver o cume. Parece perto. Quem vai desistir tendo o cume aí? Os vascos estavam descendo e falaram que se sentiam satisfeitos de ter chegado no Vallot.
Entramos, lanchamos, bebemos água, fomos no banheiro. My God! O banheiro! Depois falam dos brasileiros. Ainda bem que pelo frio, está tudo congelado e não se sente cheiro ou o nosso nariz também estava congelado e não funcionava mais.
Eu estava pesada carregando mais um casaco, porque tudo mundo falava do frio, e tinha me apavorado. Amauri carregou para mim a partir daí, para me aliviar um pouco. Ainda tinha um anorak da Amanda na mochila, que não usei. Usei 2 segundas peles, e meu casaco impermeável, que não é de pena, mas esquenta muito bem. Nas pernas uma segunda pele e uma calça goretex por cima. Meias de esquiar, só um par. Nas mãos, umas luvas fininhas, e os mitões com pele por dentro gigantes do Seblen. As luvas Black & Diamond da Amanda não seguraram. No pescoço, o buff, uma pescoçeira de flies, na cabeça aquela faixa de flies, o gorro da segunda pele e o capacete. Mas muitos europeus levavam muito menos roupa.
Novamente andar, as subidas fortes, o mais difícil para mim foi andar de lado com crampões, vou treinar muito no costão andar de lado. E a respiração, muito ofegante pela altura. Mas o pessoal que passava também respirava assim.
Chegamos a uma grande greta aonde tinha uma corda pendurada. Um grupo na frente começou a subir e montaram uma fita com mosquetão passando por dentro dela, que não servia para nada. Ficaram escalando com piolet e levaram muito tempo. Enquanto isso a gente se gelava. Nós subimos de batman, primeiro a Mariana e depois a gente com segurança. A cresta, para mim, não foi o mais impressionante, só andando prestando atenção. Mas ainda tinha mais subida. A subida sim me impressionou. O cume não chegava mais. Mas chegou! Felizes, avisei minha família, nos abraçamos, poucas fotos, e a descer, porque só terminaria a excursão em Chamonix.
Kátia foi na frente, Mariana mais forte, atrás. A Kátia falou para mim: passinhos pequenos, um na frente do outro, para não tropeçar. Preocupada, tadinha, e é para ficar atento, mais com uma velhinha. Mas fomos bem. Na hora da corda, Mariana sugeriu descer de baldinho. Os paulistas não são muito escaladores, então preferiram rapelar e quiseram usar o bacalau de 27 metros, 11 mm e que não era dry deles. A gente bobeou e deixou. Isso atrasou um pouco, porque não entrava no aparelho. Eles não sabiam fazer o UIAA. Eu fiz um UIAA, as meninas pediram o ATC do Amauri, que entrava melhor, e pronto, continuamos, mais tranquilas. Descendo, mais relaxadas, com o entardecer lindo, as meninas me deixaram fazer umas fotos, rimos um pouco. Os homens falaram que adiantavam para marcar o jantar, mas acabamos chegando quase juntos, na hora do jantar, cansados, felizes. Deu para avisar a família que estávamos no abrigo e dormir. Para acordar 7 h e descer.
No início é aquela descida com cabo de aço e depois da nevada, já tinha gelo e era necessário crampões, mas não fomos encordadas. Ao descer houve aquela avalanche de pedras antes da gente passar, quando eu passava bateu uma pedra na minha mão, mas foi de leve. Foi bem tensa a passagem, mas que na ida. Kátia passou numa linha mais embaixo, porque tinha um grupo de espanhóis por aí, e parecia que tinha mais proteção, mas foi muito estressante.
Chegamos no Tete Rousse, montamos as mochilas para seguir. Tinha sobrado tanta comida. Deixei pão, queijo e água para os paulistas e fomos. Ainda assim estava pesada. Os homens ficaram cozinhando uma sopa e nós fomos. Chegando ao Nid, já não tinha mais trem, então após Mari perguntar, fomos pela linha do trem, até uma trilha que descia para Les Houches. Não tinha mais teleférico também não. As trilhas têm setas indicadoras.
As meninas se adiantaram e eu fui andando sozinha, estava com o dedo gordo do pé direito inchado e doendo e o tornozelo do esquerdo reclamando, não conseguia seguir o ritmo delas, mas vamo que vamo. A trilha descia e descia e estava chegando num rio com cachoeira. Eu pensava, se estiver errada, monto minha barraquinha de alumínio, me agasalho com tudo o que eu tenho, ligo para o Fábio para me resgatar, não tem desespero, aqui não vou morrer de frio, nem de fome, disso tinha certeza. Subir tudo de novo, não vou.
Mas apareceu mais uma seta e fiquei aliviada. E ainda faltavam 40 minutos, de ritmo normal. Finalmente uma casa, vi uma seta de pedrinhas no chão, pensei que devia ser por aí. Depois soube que a Kátia tinha feito para me indicar o caminho. E acertou. Chegando ao Les Houches perguntei pelo ponto de ônibus e aí encontrei as meninas bebendo cerveja. Perfeito, estávamos de volta, em perfeito estado. Só com um dedo um pouco inchado. Mas com um cume mais no meu curriculum, e que cume!
Ainda chegando em Chamonix, minhas irmãs estavam me esperando, felizes da vida de ter uma irmã que subiu o Mont Blanc. De noite, fomos festejar num PUB com os paulistas e aparecem os vascos. Fizeram a maior festa porque nós atingimos o cume, e desejaram muito nos encontrar de novo em outra montanha. Foi um encontro muito montanhístico! Maravilhoso!