Relato de Conquista: Paredão Só Falta Você

  • Local: Pedra do Santo Inácio, bairro de São Francisco, Niterói-RJ
  • Conquistadores: Anabel Vaz, Marcelo “Magal” Matos e Igor Costa

 

 

Equipamentos:

  • 01 Furadeira de bateria de engate rápido
  • 02 baterias
  • 01 Broca de vídea
  • 01 martelo
  • 01 chave de boca 14mm
  • 34 Chapeletas Bonier PinGo (com parabolts, porcas e arruelas correspondentes)
  • 01 soprador do tipo canudinho
  • 01 escovinha de nylon
  • 02 cordas de 60m
  • Equipamento de guiada normal (costuras curtas e longas, etc.)

Após o término da conquista da via Domingos Camões, eu estava empolgado para encarar outra conquista e tinha em casa 15 chapeletas sobrando. Como eu sabia que Anabel e Magal estavam desenvolvendo uma parede lá em Niterói, onde haviam conquistado o Paredão Leveza, fui perguntar a eles se não queriam me levar em uma dessas aventuras deles. Ambos foram muito solícitos e já me convidaram para ajudá-los a conquistar uma linha que eles tinham imaginado lá no Morro ou Pedra do Santo Inácio, em São Francisco.

 

1ª Investida – 09/11/2025

A primeira investida ocorreu no dia 09 de novembro, logo após a passagem de um ciclone extratropical que causou vários estragos pelo país e deixou o tempo péssimo para escalar. Fomos assim mesmo e deu tudo certo no final. Chegando lá, Magal e Anabel me disseram que estavam conquistando um diedro no meio da parede, mas que a gente poderia começar uma linha nova. E perguntaram se eu queria algo mais fácil, tipo um III grau, ou algo mais difícil, tipo um V. Eu falei a segunda opção e eles me levaram, então, na base do Paredão Surpresa, próximo da qual ainda há a possibilidade de algumas linhas. Nesse momento meu ego foi no chão e eu percebi que por ali o sapato estava maior do que meu pé: a parede é bem vertical e bate em um teto sinistro, que provavelmente teria que ser conquistado em artificial fixo, “pendurado” na parede, como disse o Magal. Perguntei então se a possibilidade da via de terceiro grau ainda estava de pé.

Eles então me levaram de volta para a esquerda da parede, até a base do Paredão Leveza e um pouco mais para a esquerda. Magal e Anabel estão conquistando ali a linha que leva à base do diedro no meio da parede, mas à esquerda ainda cabia uma via. Achei a parede bem mais palatável e decidimos que iríamos conquistar ali mesmo. A ideia do Magal, que só entendi bem mais tarde, era subir uns 30 metros até uma grande área de vegetação, atravessar essa área para a esquerda e acessar a parede mais vertical e limpa bem à esquerda da montanha. Magal e Anabel decidiram que eu iria começar a conquista.

Lá fui eu. Me equipei, peguei os equipos de conquista e planejei com Anabel uma rota, enquanto o Magal dava uma limpeza na base com seu facão. A ideia era chegar até um abaulado alto (uns 8m do chão) e bater a primeira chapa. Foi o que fiz. Subi até lá e, confortavelmente, bati a primeira chapeleta. Passei uns lances um pouquinho mais verticais e bati a segunda, apoiado em um bom cristal com o pé esquerdo. Logo acima, a parede dava uma deitada. Estiquei então a corda o máximo que pude, até chegar nas franjas da vegetação e daí bati a terceira, já deixando espaço para fazer aí uma parada dupla. Anabel me gritou de baixo que estava no meio da corda, praticamente. Tínhamos conquistado um bom E2 e meio que concordamos tacitamente que a exposição da via seria por aí, o que se manteve até o final dessa primeira investida.

Ali eu não soube o que fazer. Fiquei intimidado pela vegetação fechada à esquerda e  vi logo à  direita, um pouco acima, uma chapeleta da via deles que leva até o diedro. Puxei os dois para podermos decidir juntos. Minha proposta era emendarmos a nossa nova via na deles e atravessar o mato pela rota de escalada que eles já tinham feito, sem causar mais danos à vegetação. Eles toparam.

Magal então foi na frente, pois já conhecia o caminho. E nos puxou até um lance já no meio da parede, abaixo da base do diedro. Dali ele tocou para a esquerda, em uma horizontal fácil e – surpresa! – encontrou um grampo antigo e solitário no meio do nada. Especulando depois, achamos que alguém pode ter subido até o platô por trilha e dali tentou um caminho até o diedro, talvez. Mas não achamos mais grampos. Ao chegar em uma barriguinha mais picante, ele bateu uma chapeleta e tocou reto para cima. Estávamos já na linha da via que queríamos. Subiu um pouco mais e bateu mais duas chapeletas. Ele próprio disse que achou o lance picantezinho, talvez um IV grau. Ele teria subido mais, mas a corda estava acabando e, sinceramente, acho que ele queria me desafiar um pouco nos próximos lances.

Depois de puxar a mim e à Anabel, eu então fui conquistar o restante da parede. Parecia-me um IV grau. Lá fui eu, meio inseguro, mas fui. Percebi que alguns centímetros à direita o lance tinha boas agarras – e abaixo umas fofas bromélias que ajudavam no psicológico. Fui por ali. Subi um pouco e percebi mãos ótimas que seriam perfeitas para se ficar em cima e bater uma chapa. Fiz isso. Daí toquei para cima por um lancezinho bem vertical, mas não difícil, até um abaulado confortável, onde bati mais uma chapeleta. Depois, olhando de baixo, fiquei orgulhoso da minha conquista: um IV grau justo, me pareceu, e razoavelmente exposto, mas não perigoso. Modéstia à parte, essa enfiada vai ficar bem interessante.

Nesse momento, enquanto olhava o próximo lance, ainda vertical e com poucas agarras, Magal me avisou que era 11h45 e que talvez fosse melhor eu fazer só mais esse e descermos. Como logo acima a parede dava uma deitada, achei que não valia a pena subir até ali. Rapelei dali mesmo e voltamos para a base. No caminho, discutimos que a melhor opção, talvez, fosse, em vez de fazer a horizontal no meio da parede, caminhar pelo platô e conquistar a parte de baixo da via, do platô até a primeira chapeleta batida pelo Magal. A via ficaria assim mais interessante e divertida. Esse é o nosso projeto até agora.

 

Ao final da primeira investida, estávamos assim: Magal e Anabel com um projeto em andamento (linha rosa); e nós três com outro projeto mais à esquerda (linha azul). Magal sugeriu avançarmos até um lance bem vertical mais acima e encararmos. Se não dermos conta, conquistamos em artifical ou chamamos o Thiagão (Thiago Gabriel) para livrar o lance pra gente.

2ª Investida – 16/11/2025

No domingo seguinte à primeira investida voltamos à parede para tentar avançar com os trabalhos de conquista da nova via. O tempo ameaçava alguma chuva, mas parecia que não iria cair nada. E como somos pessoas de fé, fomos assim mesmo. Por sorte, o dia ficou ótimo, apenas com umas gotinhas de chuva por volta do meio-dia, quando já estávamos rapelando.

Na base, sugeri que o Magal guiasse o primeiro lance que eu havia conquistado, para avaliar o grau. Ele sugeriu um III, talvez com uma passadinha de IIIsup. E também concordei com ele e Anabel de intermediar o primeiro lance, que de fato havia ficado alto e alguém poderia se machucar desnecessariamente ali. Ele subiu até a última chapeleta, já perto do platô, e puxou a mim e à Anabel.

Antes que ela chegasse, eu já toquei para cima através da vegetação, ganhei o platô e fui totalmente para a esquerda tentar achar a base da nossa via, numa linha reta até a primeira chapeleta, que havíamos batido no meio da parede no domingo anterior. Fui varando mato e achei o lance bastante interessante, após uns blocos de pedra, mas não consegui chegar de fato nele devido a uma árvores espinhenta. Magal e Anabel vieram e daí conseguimos alcançar a base, bem confortável em cima de uns blocos de pedra. Esse lance era da Anabel, que no último dia não havia conquistado nada.

Lá foi ela, numa saidinha difícil, também na casa de um III grau, e subiu até um pé bom e bateu a primeira chapeleta. Depois subiu mais um pouco e bateu a segunda. Daí continuou guiando até a próxima, que já estava lá, costurou e tocou a via. Na chapeleta seguinte percebemos que estava muito próximo do meio da corda, então Magal e eu planejamos ali uma dupla intermediária. Anabel ainda tocou mais um lance, mas parou na entrada de IV grau da enfiada. Era a minha vez.

 

Anabel batendo a segunda chapeleta da enfiada após o platô. Na foto, é possível ver os pontos brancos das chapeletas já batidas no domingo anterior.

Magal sugeriu que eu tocasse até a última chapa que eu havia batido e dali continuasse a conquista. Não deu certo. Fui até a chapa e ele avisou que dava uns 25m e que era melhor a gente fazer ali a parada, já que já estávamos com uns 50 ou 55m da base. Fiz isso. Daí analisei o lance para conquistar, até ensaiei uns passos, mas achei muito difícil para mim. Puxei os dois e Magal então foi.

Enfiada dura! Com várias lacas e agarras quebradiças, mas o Magal foi avançando tranquilo, sem se desesperar nos venenos – que foram alguns -, limpando o caminho com a sua escovinha… e logo logo tinha conquistado uns 30m. Anabel e eu, acho, ficamos mais tensos do que ele. Daí ele bateu uma dupla em uma excelente platô – segundo ele, tão bom que era um “platossauro”, e nos puxou.

 

Magal batendo a primeira chapa da enfiadinha curta (30m) de V grau.

Chegando no “platossauro”, Magal disse que havia uma saidinha de VI grau e que era minha. Lá fui eu, meio desacreditando de mim mesmo, fazer o “lance do platossauro”. Achei o lance difícil, mas Magal e Anabel foram me dando um incentivo e eu fui passando. Até que eles gritaram, não vai bater uma chapa? Tá maluco que vou parar aqui! Vou é subir mais, se cair, caiu! E fui embora. O que o desespero não faz? No retorno, intermediamos o lance.

 

O lance do platossauro: uma barriguinha de VI grau que dá acesso a uma grande área de mato acima. Após o lance parei para olhar a muralha que nos aguardava e verificar se iria mesmo para lá ou para a direita, como havíamos planejado.

Nesse ponto, não soube muito o que fazer. O que tínhamos planejado para a direita me parecia bem difícil. Depois de alguma conversa com o Magal, que me assustou falando do desperdício de chapeletas e do mínimo impacto, para não fazermos uma linha aleatória e depois mudar, achei melhor ir bem para a esquerda no mato, fazer uma parada em árvore e puxá-los. Foi o que fiz. Daí Magal veio. Bati uma chapeleta no meio de uma parede bem fácil de I ou II grau para puxarmos Anabel. E enquanto Magal dava segurança, fui incumbido por ele de ir investigar a muralha que estava à nossa frente para ver se achava alguma franqueza nela.

Logo de cara, quando olhamos para ela de perto, Magal achou que o lance que tínhamos planejado originalmente seria muito difícil. Como gracejou ele certa hora, “por ali, só se a gente trouxer o Chermont para conquistar com a gente.”

Eu estava bem interessado em uma linha à esquerda, logo abaixo de um coqueiro no alto, que se destacava. Mas, à medida que fui me aproximando, percebi um lance bonito bem no meio da parede: uma espécie de friso ou canaleta que parecia, de longe, factível. Mudei de rumo e fui lá ver. Melhor, ficava na linha reta da nossa via. Era o caminho ideal! Magal e Anabel vieram e analisamos juntos o lance e concluímos que parecia que dava para fazer. Decidimos então que seria por ali. Batemos uma última dupla para podermos rapelar e abandonamos a ideia da linha mais à direita, bem mais vertical e venenosa.

Como já era próximo de meio dia, decidimos deixar esse lance final para a próxima investida. No caminho de descida, Magal ainda foi batendo umas chapas que precisávamos: intermediou o lance do platossauro e bateu a chapeleta da primeira dupla para rapelarmos até o platô. Trabalhos concluídos, fomos para casa, felizes por mais essa investida divertida.

 

Ao final da segunda investida, estávamos assim: Anabel conquistou o lance da base do platô até o início do lance de IV grau. Magal conquistou uma enfiada de V grau no meio da via. E eu, todo bobo, conquistei o lance do platossauro, uma barriguinha de VI grau. E chegamos até a base da muralha lá em cima, onde achamos o caminho de via que pretendemos conquistar na próxima investida, que muito provavelmente dará cume.

3ª Investida – 05/04/2026

Após vários meses sem conseguirmos retornar à via, Magal me mandou mensagem querendo marcar um retorno para “terminarmos o lance final”. Como havia o feriado de Páscoa, agendamos para o dia 04 de abril, sábado de Aleluia. Acabou que não conseguimos ir nesse dia e remarcamos para o Domingo de Páscoa mesmo, dia 05. E lá fomos ele e eu. Anabel, infelizmente, estava viajando nessa data e não pôde ir terminar a via com a gente.

Nossa ideia era subirmos rápido, terminarmos a conquista e talvez entrar no diedro que Anabel e Magal estão conquistando. Levamos dois jogos de friends e nuts para isso. Ledo engano. Francesamos a primeira enfiada, com Magal na frente. E depois da caminhada, ele também tocou a próxima, que nunca tinha guiado inteira. Eu queria guiar a pequena enfiada (30m) depois dessa, que eu achava ser um V grau. Mas acabou que deve ser um IV com uma passada de IVsup, talvez. Daí chegamos ao crux, o lance de VI. Magal foi fazer, mas não passou. E o calor já estava bem forte. Daí eu fui tentar o lance que eu próprio havia conquistado e logo de cara vi que não iria passar assim tão fácil. Nem pensei duas vezes, artificializei, costurei e artificializei de novo me agarrando na costura e toquei pra cima.

Essa enfiada ficou no limite: 60 metros cravado! Mas deu para chegar e me ancorar. Fiz uma extensão com uma costura e montei a segurança do Magal. Quando ele chegou, já estava bem quente. Devia ser umas 10h30 da manhã. E ele disse que estava “meio mole” e que o próximo lance era meu. E o pior é que eu também estava me sentindo assim, meio avariado pelo calor. Tomei umas águas geladas, dividimos um chocolate Sneaker e fui lá.

Essa enfiada é linda demais! O filé da via. Mas foi um perrengue para ganhá-la. Subi um pouco e bati a primeira chapeleta. O pé era ótimo, mas eu estava muito enrolado, cansado, com dor, sapatilha comendo meu calcanhar, me sentindo meio tonto, me embolando todo com furadeira, soprador, martelo, chave e chapeletas. Sei lá, estava esquisito. Bati a chapa e pedi para o Magal me descer de baldinho.

Nisso ele estava um pouco melhor e decidiu avançar com a conquista. A gente sabia que estávamos muito perto do final e voltar dali ia ser muito frustrante. Ele foi, ganhou o primeiro lance, uma mãozona ótima e bateu ali uma chapa. Depois tocou para cima e ganhou um platô confortável, onde bateu a segunda. Até tentou começar o próximo lance, mas a sapatilha estava machucando o pé, o calor estava esquisito e ele viu que talvez eu conseguisse. Pediu pra descer e trocamos: lá fui eu de novo!

 

Magal batendo a terceira chapeleta da última enfiada da via. Esse trecho é muito bonito e interessante de se escalar, apesar de fácil. Uma visão geral da última enfiada, mostrando os pontos onde batemos as chapeletas. A via segue a linha natural da rocha, caindo para a direita e depois subindo reto.

Quando cheguei na altura da chapa que o Magal tinha batido, percebi que a parede era bem vertical, mas o lance era curto e tinha boas agarras. Achei que dava pra mim e fui tocando. Parei numa posição ruim para bater, mas vi um pé bom um pouco mais baixo à esquerda. Fui nele e me posicionei. Daí bati a chapeleta mais tranquilo. Saí então em um lance de boas agarras de pé e fiz a virada para o platô do final. Depois dele tinha uma paredinha fácil, mas o lance já estava longo. Daí eu parei e bati mais uma chapeleta. Toquei então pro cume, uns 5 metros acima e bati a chapa final. Puxei o Magal.

Nem pensamos muito. O calor estava insuportável. Tiramos uma foto, batemos a outra chapa para a dupla e rapelamos. Como eu tinha deixado a mochila embaixo, aproveitei e abri um Gatorade e dividimos. Magal disse que era isso que iria garantir a nossa descida. Ainda tínhamos que bater as chapeletas duplas de alguns rapéis e decidir onde colocar a P1. No meio da descida, Magal parou para olhar esse lance final de longe e acabou dizendo que a via tinha ficado legal e que essa era uma “via de gente grande”.

 

Ao final da última investida, estávamos assim: morrendo de calor e sede e cansaço, mas muito felizes por termos finalizado esse projeto. Esperamos que toda a comunidade de escaladores curta e se divirta com a nova via.

Descemos intermediando o que faltava e definimos o lugar da P1, em um afloramento de rocha bem sólido já no meio da vegetação, para garantir a segurança dos escaladores tanto na subida, para começarem a trilha longe de perigo, quanto na descida, para não terem que descer muito até o limite do mato para montar o rapel.

Chegamos na base mortos! No limite das nossas forças. Devia ser por volta de meio dia e meia. Enfiamos as coisas na mochila e partimos para o carro. Cansados, mas orgulhosos da nossa conquista! Só faltou a Anabel lá para passar esse perrengue com a gente. Daí decidimos que o nome da via seria esse (Só Falta Você), em homenagem à nossa parceira de conquista que não pôde estar lá na última investida.