Desta vez, com toda certeza vai… Foi com este pensamento único na cuca dos 4 integrantes desta excursão, quase uma expedição e certamente uma missão para os dois mulambos Rafael e Zé, que partimos nesta segunda-feira 17 de agosto, exatamente um ano depois da última tentativa quando as nossas mesmas duas guerreiras acompanhantes de hoje abortaram, por motivos diversos, a escalada a dois esticões do cume da Agulha; mas desta vez elas certamente farão cume.

Agora completaremos a missão em 3 dias e assim sendo, tudo será feito com mais calma, sem pressão e unicamente com o estresse inerente à atividade em si, sem a tirania do relógio que nunca para, para nos dar mais tempo para completarmos nossas tarefas. E lá fomos nós, 3 cinquentões e um sessentão (somando as idades dos 4 passamos dos 220) formando um grupo mais animado e determinado a cumprir um objetivo do que o de muitos adolescentes moleirões que andam por aí. Não partimos muito cedo do Rio e só entramos no parque pouco depois das 13h; mas como nosso objetivo de hoje é somente chegar até nosso ponto de bivaque lá no acampamento Paquequer, este horário está de bom tamanho.

Entramos na trilha pouco antes das 14h e por volta das 18:10 finalmente descansamos nossos esqueletos no acampamento Paquequer, na verdade uma clareira no colo entre o Mirante do Inferno e a Pedra da Cruz, foi a primeira vez que bivaquei neste local e achei bem legal; ao lado de água corrente de boa qualidade, bem protegido do vento e com ótima cobertura vegetal, mas demos sorte de não estar muito úmido, foi relativamente bem confortável nosso hotel meia estrela.

Terça-feira dia 18, alvorada às 05:10 e partida às 6h. Na descida do grotão entre o São Pedro e o São João instalamos cordas para agilizar a progressão das meninas e lá pelas 08:20 estávamos na base da via nos preparando para a parte principal da epopeia das nossas queridas guerreiras. Escalamos em duas cordadas básicas que em alguns trechos acabava virando uma só, isso em função de facilitar sempre a ascensão das duas gatinhas. Por volta das 08:45 eu iniciei a subida do primeiro esticão e a cordada do Rafael passou à frente para o segundo e terceiro esticões. Chegando nas chaminés antes do platô do Cavalinho eu fui de novo na frente e depois de alguns perrengues das meninas nestas passagens finalmente nos reunimos no referido platô.

Está chegando a hora da verdade, elas vão ter que enfrentar e domar o tão temido cavalinho; mas desta vez montamos uma estratégia que com toda a certeza fará a diferença para nossas meninas. Eu fui à frente demonstrando uma das maneiras (a que achamos ser a menos estressante para elas, isto é, de costas para o abismo) de se vencer o lance e ato contínuo subi até o primeiro grampo da chaminé da unha aonde costurei minha corda e retornei para a base da chaminé de onde reboquei minha mochila e recolhi a segunda corda, assim sendo elas orientadas pelo Rafael que ficará por último neste lance, vencerão o trecho com uma corda usada como corrimão fixa dentro da fenda e eu darei segurança para elas na outra corda.

O esquema funcionou às mil maravilhas e as duas passaram pelo famigerado Cavalinho como se fossem duas amazonas bem treinadas. Mas aí mais uma surpresa, eis que na saída do Cavalinho a Marcia me pergunta: “e agora”… eu respondi desce e vem até aqui… “ela desceu e anunciou; estou entalada, aqui eu não passo nem sonhando; e agora”… volta para a saída do Cavalinho e vem pelo alto aproveitando a corda de cima instalando um Prussik nela enquanto eu te puxo pela outra corda… assim foi feito e ela chegou até mim sem mais problemas; utilizamos o mesmo esquema para a Jana, que desta vez venceu o desafio do Cavalinho sem nem reclamar; êta meninas valentes.

Com as meninas na base da chaminé veio o Rafael que pra não aumentar a aglomeração naquele ponto saiu direto do Cavalinho e não parou partindo célere pela chaminé acima e quando passou pelo primeiro grampo levou a minha corda, assim sendo, quando ele terminou a chaminé da unha, puxou primeiro a Jana que estava na minha corda e mais próxima da reta da via e a seguir foi a Marcia; resultado da ópera, como eu fui o primeiro a ali chegar e o último a sair eu quase virei picolé dentro daquela estreita base, um verdadeiro canalizador de vento que se naquela hora não estava tão forte, estava verdadeiramente congelante. Bem, neste entala e desentala, procura a melhor maneira de iniciar a subida da chaminé, paradas no percurso para descansar eu devo ter ficado parado ali por volta de hora e meia; haja energia para dissipar.
Quando eu terminei a chaminé o Rafael já estava no cume e a Marcia subia o cabo para a ele se juntar; fiquei esperando ela passar pelo ponto mais íngreme do trecho antes de eu mesmo entrar no cabo para depois assegurar a subida da Jana e por volta das 15:30 todos estávamos neste belo e bem reputado cume da Serra dos Órgãos, classificada em 11º lugar por Dan Osmon, um grande e famoso escalador estrangeiro, na sua lista “The 15 Most Spectacular Rock Climbs” no mundo.

Cume atingido, diriam vocês; acabou o estresse, é, eu também pensei, mas não é bem assim que a banda toca pois os rapéis desta maravilhosa montanha também são incomuns e da primeira vez sempre causa alguns frissons nos incautos e assim sendo levamos um bom tempo pra descer até à base da via aonde chegamos por volta das 18:30. Em torno das 21:30 finalmente damos por encerrada esta incrível jornada, uma verdadeira epopeia; os quatro com os corpos moídos e cansados, mas certamente todos muito felizes de mais uma conquista, mas uma meta atingida com pleno sucesso, valeu o frio, valeu a ralação, tudo isso se esvai quando vemos o largo sorriso e o brilho de felicidade nos olhinhos das nossas mui queridas participantes e razão principal desta excursão.

Esqueletos mais ou menos descansados, se bem que descansados neste momento seja mera figura de linguagem, partimos para montar nosso rodízio de pizzas, mas o peso da jornada nos tirou o apetite, , pois hoje, das 10 pizzas que o Rafael trouxe, só conseguimos consumir 5, a vontade de esticar os doídos esqueletos era bem mais forte e não demoramos a nos recolher.

Camas devidamente arrumadas; o Rafael e eu trouxemos nossas redes enquanto as gatinhas se arrumaram no chão mesmo, mas é claro, bem protegidas com Termarest e outras bugigangas mais.

Quarta-feira 19 – alvorada por volta das 08, partida às 10 chegando de volta na barragem às 13; é, apesar da jornada pesada de ontem a turma estava a pleno gás nesta manhã meio chuvosa e com vento forte. Depois de tomar aquele fingimento de banho (a barragem estava completamente vazia e, portanto, não tínhamos aquela gostosa ducha que só funciona quando a barragem transborda), e trocar a roupa por outra limpinha e seca, partimos para o Paraíso da Serra aonde o Rafael nos ofereceu aquele almoço, e como comemos; estávamos precisando.

Os participantes: Rafael Villaça, Marcia Penélope D’Ávila, Jana Menezes e José de Oliveira Barros (Zé).

José de Oliveira Barros