Acima das Nuvens na Maria Nebulosa

Data: 28 de junho de 2025, sábado

Participantes: Igor Costa e Fidelis Messias (CEL); Julio Mello e Rafaella Miranda

Relato por Rafaella Miranda

 

Desde que ouvi falar da via Maria Nebulosa, na Maria Comprida, ela passou a habitar meu imaginário. Me parecia acessível pela baixa graduação, mas ao mesmo tempo me fascinava por sua grande extensão e comprometimento. Está estimada em 3º V D4 E3, 1.040 metros.

Fotos 1 e 2 – Croqui elaborado pelo conquistador da via Alex Ribeiro (Chê)

Com a chegada da temporada de montanha de 2025, bateu uma vontade grande de tentar agendar uma cordada para lá. Conversei com algumas pessoas no clube, até que comentei com o Igor — que me contou que já tinha uma cordada marcada para o dia 28/06 com o Fidelis (do CEL). Ele sugeriu que eu buscasse um parceiro e me juntasse a eles nessa empreitada.

Foi aí que fui falar com o Julio Mello em busca de mais informações. E qual não foi minha surpresa ao ouvir dele que nunca tinha feito essa via! Na mesma hora perguntei se topava fechar uma dupla comigo e ir conhecê-la. Convite aceito, com as duas cordadas fechadas, começamos a correr atrás de croquis, tracklogs e betas com amigos que já haviam feito a via — e com o próprio conquistador, o Alex Ribeiro (Chê), que nos forneceu vários detalhes que depois se revelaram muito valiosos.

As semanas foram passando e a data da escalada se aproximando… As condições do tempo estavam perfeitas! Nas duas semanas anteriores à data escolhida, não havia chovido nada. O dia prometia boa temperatura, céu limpo e pouco vento.

Chegou o grande dia. Nos encontramos no posto da Praça da Bandeira e, às 2h45 da madrugada, partimos — quatro cabeças rumo ao desconhecido.

Chegamos sem problemas ao ponto de estacionamento. Às 5h45 iniciamos a aproximação. Ainda estava bem escuro; seguimos caminhando com o auxílio dos nossos headlamps, nos orientando com a ajuda do tracklog.

A trilha começa por uma estradinha de terra. Na primeira bifurcação, é preciso seguir à esquerda — não se deve entrar pela porteira à direita, que dá acesso a um sítio. Avançamos mais um pouco por essa estradinha e, aí sim, pulamos uma porteira para continuar. A trilha segue por essa estrada de terra, já tomada pelo mato, e atravessa-se normalmente a primeira ponte.

Ao chegar à segunda ponte — que não deve ser atravessada — nos perdemos um pouco, o que nos custou algumas tentativas frustradas e varações de mato. Foi então que o Julio resgatou as informações fornecidas pelo Chê, que foram decisivas para escolher o caminho certo nos momentos de dúvida. Nesse ponto, em vez de cruzar a ponte, é necessário virar à esquerda e caminhar por um capinzal sem trilha definida, em direção a uma grande árvore com uma fita reflexiva fixada em torno do tronco. Ali atravessamos um riacho praticamente seco.

Do outro lado da margem, seguimos por entre mato e capim alto, sempre mantendo o rio à esquerda, até reencontrarmos a trilha. O facão foi fundamental nesse trecho de travessia pelo capinzal — aparentemente, nossas cordadas foram as primeiras da temporada a passar por ali.

[Sugestão do Che após a primeira publicação do relato: em vez de dobrar à esquerda ANTES da segunda ponte, como fizemos, passar por ela e continuar até um grande platô, ao final do qual já é possível adentrar a trilha que, segundo ele, deve estar bem fechada. Desse modo, é possível pegar o rio/grotão mais acima de onde começamos.]

A partir daí, a trilha segue mais evidente, embora com alguns trechos sensíveis, com pequenos desmoronamentos. Depois de algum tempo, passamos por uma grutinha e logo em seguida, a trilha desemboca num grotão. Subimos todo esse trecho, que culmina numa grande laje de pedra, por onde seguimos até alcançar a base da parede. A base da via fica levemente à esquerda da calha de pedra por onde se sobe esse trecho final. É possível identificar à distância o pequeno tetinho da primeira enfiada — detalhe que o Julio reconheceu prontamente ao comentar: “a base da via deve ser ali naquele tetinho, porque ali cabe um Camalot #2.”

 

Foto 3 – Início da subida pela laje de pedra após o grotão. Foto 4 – Foto tirada na chegada à base mostrando o trecho final do costão e o vale ao fundo.

Ao todo, foram cerca de 1h30 de trilha, mais 32 minutos para nos equipar com calma. Às 7h47 começamos a escalada.

As cordadas eram: Igor com Fidelis, e eu com Julio. Nosso planejamento era escalar da base até a P4 de forma tradicional, e da P4 até a P13 “à francesa”, já que sabíamos que na 14ª enfiada haveria um crux de 5º grau delicado para se fazer nesse estilo. Acima disso, não sabíamos bem o que esperar da via — decidiríamos na hora como tocar da P14 até o cume (a via tem, ao todo, 20 enfiadas).

Igor saiu guiando, seguido por Julio também guiando. Fomos evoluindo bem, nos revezando na ponta da corda até a P4. Seguimos com o plano e passamos a francesar até a P13 — onde chegamos às 9h30. Nesse ponto há um platô confortável, onde pudemos tirar as sapatilhas, comer alguma coisa, respirar um pouco e apreciar o lindo mar de morros que se revelava acima das nuvens… o nome Maria Nebulosa não é à toa.

Foto 5 – Escalando através da neblina. Foto 6 – Subindo em direção ao platô da P13, já acima das nuvens.

Às 9h45 retomamos a escalada, agora na enfiada do crux. Julio saiu na frente, protegeu bem o lance com um Camalot #0.5 e passou tranquilo. Em seguida, Igor também saiu guiando, passou bem pelos delicados movimentos de aderência em abaulados seguidos de uma passagem num tetinho, chegando à P14.

Foto 7 – Saída da P14. Foto 8 – Reunidos na P17, preparados para o ataque final à francesa.

Seguimos subindo alternando na ponta da corda. A partir da P17, decidimos voltar a francesar. Fidelis e eu fomos tocando até a metade da última enfiada, quando o arrasto de corda ficou tão grande que já não era mais possível seguir. Paramos num grampo simples, puxamos o Igor e o Julio, que passaram por nós e seguiram direto para o cume.

Às 11h47 o cume nos recebeu entre abraços e sorrisos sinceros, celebrando conquista tranquila. Parte da felicidade também era poder tirar as sapatilhas em definitivo após 20 enfiadas. Primeira parte da aventura fechada com sucesso!

Foto 9 – Sorrisos sinceros no cume!!! Foto 10 – Às 11:47, Igor me dando a última seg de ombro! Missão dada, é cumprida!

No cume, encontramos alguns montanhistas do Petropolitano, que nos parabenizaram e comentaram como era raro encontrar escaladores por lá. Conversamos um pouco, comemos, descansamos, assinamos o livro de cume e, às 12h47, começamos a jornada de volta.

 

Foto 12 – Fidelis contemplando a bela vista de 360º acima das nuvens. Foto 13 – Registro realizado pelo Igor no livro de cume.

Precisávamos ser ágeis no rapel, pois sabíamos que a trilha era complexa e não queríamos fazê-la no escuro. As duas cordadas desceram de forma independente. Julio abriu todos os rapéis, por ser o mais experiente do grupo — foi descendo com cautela, estudando o croqui e localizando as paradas duplas. Eu vinha logo atrás, e acima Igor e Fidelis se alternavam nas descidas, lutando bravamente contra suas cordas duplas que teimavam em enrolar e dar nós complexos. De tanto praticar, nos últimos rapeis as cordas já estavam experts: elas faziam por conta própria borboleta alpina, aselha, lais de guia, entre outros nós, todos com absoluta perfeição.

Foto 13 e 14 – Cenas do rapel, ralação sem fim por quase 4h… praticamente o mesmo tempo da subida!

Ao chegarmos no platô da P13, ficamos em dúvida sobre como avançar, já que não havia grampos  — aquela parada é feita em árvore. No entanto, as árvores que encontramos ali não nos pareceram sólidas o suficiente para sustentar um rapel com segurança. Foi então que o Julio teve a ideia de caminhar um pouco pela trilha que atravessa o platô e conseguiu alcançar com segurança a parada dupla da P12. Ele voltou para me dar a boa notícia, enrolamos as cordas, descemos caminhando até a P12, organizamos novamente tudo e demos sequência aos rapeis.

O rapel foi longo e demorado — 3 horas e meia de descida — fomos nos distraindo como dava, tentando manter o bom humor, falando bobagens e cantando músicas de gostos duvidosos. O ponto alto foi um cordel inteiro recitado pelo Fidelis, que deixou todos impressionados com sua capacidade de decorar algo tão extenso.

Às 16h15 estávamos de volta à base. Nos desequipamos e, às 16h40, começamos a trilha de retorno. Descemos sem grandes problemas, caminhamos pelos trechos mais delicados ainda com iluminação natural, e quando os últimos raios de sol se despediam do dia, já estávamos na estradinha dentro do vale, rodeados por uma bela visão da Maria Comprida e outras montanhas.

Foto 15 – Apagar das luzes no vale, última visão da Maria Comprida ao fundo.

Às 18h em ponto chegamos ao carro — cansados e de cabeça feita por esse dia incrível, cheio de mato, montanha e parceria.

Agradeço aos meus parceiros pelo incentivo e confiança em mim depositada. Convido outros escaladores que lerem esse relato a irem lá e viverem, por si mesmos, essa grande aventura!