Por Ester Binsztok
A odisseia iniciou-se em 12 de outubro de 2006, dia das crianças, data em que partimos (Cris Jorge, Patricia Duffles e eu) rumo às montanhas incríveis do Espírito Santo. O plano era ir à Nova Venécia, seguindo por Águia Branca, Pancas e finalizando em Laranja da Terra.
Chegamos em Nova Venécia no dia seguinte. Reservamos um local para dormir, fomos em direção à Vila Pavão e já na estrada era possível avistar a quantidade enorme de montanhas, de todas as formas. Passamos um dia e meio reconhecendo o território, até que uma pedra com duas crateras no formato perfeito de um par de olhos nos impressionou bastante e, admirando os olhos, avistamos uma linha que aparentemente ia por uma sequência de pequenos platôs à esquerda. Paramos, olhamos e decidimos averiguar melhor, pois ali poderia ser uma linha em potencial.
O dia 15 amanheceu com chuva, mas mesmo assim fomos explorar a base da via. Pedimos permissão aos moradores locais, acessamos o costão e subimos uns 150 metros entre línguas de água, alcançando a base da escalada. À medida que nos aproximávamos da base, a parede mais impressionante ficava com uma belíssima linha de canaleta da metade dela pra cima. Chegando na base, constatamos que o primeiro lance seria uma saidinha de 4º grau, seguida de um platô, continuando com outra barriga que levava a um segundo platô. Era possível avistar também que a pedra tinha umas formações em onda, o que nos levava a crer que iríamos encontrar barrigas e platôs pela frente. A rocha era boa e limpa, cor escura e bastante abrasiva. O primeiro terço da via seria constante, o segundo terço seria o mais vertical e, para alívio, o último terço da via parecia ser o mais deitado.
A pilha máxima da conquista estava posta, agora era dar o melhor de si e tocar pra cima na escalada. Em pouco tempo, já tinha subido e o primeiro grampo batido. Gritos de comemoração, e toca pra cima! Mesmo com a chuva intermitente, a escalada fluía. Fazíamos turnos de mais ou menos três grampos pra cada uma, o que, em alguns casos, resultava em um esticão de 50 metros, dado a fissura da equipe.
No segundo dia de escalada trabalhamos para transportar e fixar as cordas, assim pouco evoluímos na conquista. Porém alcançamos um ponto fundamental que seria o ângulo mais próximo da terrível barriga que avistávamos. Lá debaixo a barriga parecia ser bem difícil. Quando chegamos ali, de cara pra barriga, a situação não parecia melhorar! Decidimos descer para ter uma visão melhor e continuar a investida no dia seguinte.
No terceiro dia chegamos determinadas até o ponto no qual paramos. A Patricia começa os trabalhos conquistando um lance de aderência que graduamos em 5º, depois segue a Cris contornando a barriga por baixo e eu sigo entrando na canaleta, à esquerda da barriga. A Cris finaliza os trabalhos na canaleta, e termina o esticão num confortável platô, onde teve que ficar um bom tempo, pois a bateria da furadeira tinha acabado e foi necessário fazer o furo com a talhadeira. Para piorar a situação uma forte chuva se aproximava. Grampo batido e após o primeiro rapel a chuva desaba, em três minutos a parede de branca ficou preta, tamanha a quantidade de cachoeiras que haviam se formado.
No último dia, apesar de estarmos cheias de energia, não sabíamos se alcançaríamos o cume. Sabíamos que estávamos relativamente próximas a chegar num imenso platô e que depois dali seriam mais uns 100 metros de via fácil. A parede nos surpreendeu, pois por mais que parecesse fácil, continuávamos encontrando barrigas de 4sup e 5º. Decidimos deixar para trás as cordas fixas e partir pro ataque ao cume.
Chegamos no cume às 13h30 do dia 19 de outubro, data memorável para nós três. A via ficou com a cara de cada uma e de todas nós. Lances corajosos, linha bonita, escalada longa, montanha isolada, rocha boa e belíssimo visual. Decidimos chamar a via de Menina dos Olhos pelo formato dos olhos cravados na rocha, e pela própria expressão, que quer dizer algo pelo qual se tem apreço, se tem orgulho, sua obra de arte.
Não podemos deixar de agradecer aqui a Dona Neuci e seu marido Eloísio Rossin, que nos receberam muito bem. Todas os dias Dona Neuci nos esperava com um cafezinho quente e torcia pra que conseguíssemos alcançar o cume.
Croqui da via