Quatro Investidas, Um Cume: A Reconquista do Pico do Pilatos
Por: Anderson Monteiro
A primeira vez que ouvi falar do Pico do Pilatos foi em abril de 2023. Naquele período eu ainda me recuperava de um acidente e não estava pronto para voltar às atividades de montanha. Vi o nome na programação do clube, achei interessante, mas simplesmente deixei passar.
Em setembro de 2025 o Pilatos voltou a aparecer na prancheta. Eu já estava plenamente envolvido com as atividades do clube, mas, por algum motivo que hoje não me recordo, não participei. A atividade acabou não acontecendo, provavelmente em função das condições do tempo. Foi somente em fevereiro deste ano que resolvi me inscrever. Olhei rapidamente a localização, vi que o objetivo ficava no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, entre Petrópolis e Teresópolis, e achei que seria apenas mais uma bela caminhada.
Eu estava completamente enganado.
Primeira investida, 1º de fevereiro
Participaram dessa primeira tentativa Miriam, Mariozinho, Carla, Déborah, Carlos, Cynthia, Julieta, Verônica, Fábio e eu. Depois das caronas definidas e do tradicional café antes da trilha, fizemos um breve reencontro no mirante da estrada. O tempo estava bom, embora as montanhas ainda apresentassem marcas da chuva do dia anterior. Seguimos até o pequeno estacionamento de onde parte a canaleta que marca o início da caminhada. Começamos por volta das nove horas da manhã.
Hoje parece um detalhe pequeno, mas, olhando para trás, aquele horário já mostrava que teríamos pouco tempo para enfrentar uma atividade com tantas incertezas. O primeiro choque aconteceu logo após o término da canaleta. A trilha simplesmente havia desaparecido. O acesso original ao Pilatos passa por uma propriedade particular que, devido ao uso inadequado por algumas pessoas, foi fechado pelo proprietário. A alternativa era um caminho que contornava essa propriedade e que já havia sido utilizado por outros montanhistas.
O problema era que esse caminho também não existia mais. A vegetação havia tomado completamente a encosta. Samambaias altas, favorecidas pelos incêndios ocorridos na região, cobriam toda a trilha. Misturados a elas estavam os temidos espinhos do arranha-gato, transformando cada metro em uma batalha. Começamos então um longo trabalho de navegação. Analisávamos mapas, referências e o relevo, enquanto discutíamos qual seria a melhor estratégia. Decidimos seguir pela crista da montanha.
Dali em diante, a caminhada deixou de ser caminhada. Passamos a abrir caminho. O grupo se revezava constantemente. Enquanto alguns golpeavam a vegetação com o facão, outros limpavam
a passagem para permitir o avanço do restante da equipe. O progresso era extremamente lento. Muitas vezes seguíamos por curvas de nível, percebíamos que a direção não era a ideal, retornávamos e recomeçávamos. O calor aumentava, o desgaste físico também. Literalmente sangramos no mato.
Lembro do Fábio com as mãos bastante machucadas pelos espinhos. Ali surgiu uma das primeiras lições da atividade para mim: luvas de proteção passariam a ser equipamento obrigatório para futuras tentativas.

Figura 1: Tentando avançar na vegetação
Depois de horas de esforço conseguimos abrir uma pequena clareira. Foi então que consultamos a marcação do GPS. Todo aquele trabalho havia rendido menos de um quilômetro de avanço.
Ainda havia uma longa distância até o cume e o horário já não permitia insistir. A decisão mais sensata foi recuar.
Voltamos frustrados, mas conscientes de que insistir seria um erro.

Figura 2: Parada Final antes do retorno da primeira investida
Antes de retornar para casa, fizemos uma parada em uma cachoeira da região. Foi ali que conheci Julieta. Naquele momento eu não fazia ideia de quem ela era. Somente mais tarde descobri que havia conversado com a primeira pessoa a percorrer os quatro mil quilômetros do Caminho da Mata Atlântica. Ali também conhecemos o Pedro, que realizava um rapel no local e estava atrapalhando a minha foto da cachoeira! Conversamos bastante sobre montanhismo e ele demonstrou interesse em iniciar no esporte. Logo depois ele já estava iniciando sua formação e hoje está formado e adorando escalar.
Nem toda tentativa termina no cume. Às vezes ela termina aproximando pessoas.
Segunda investida, 15 de março
A frustração da primeira tentativa rapidamente se transformou em motivação. Marcamos uma nova investida para o dia 15 de março. Dessa vez participaram Miriam, Daniel, Valéria,
Thamyres (Filhota) e eu. Aprendemos com os erros da primeira tentativa e começamos mais cedo. Logo no início Daniel tomou uma decisão importante. Em vez de seguir exatamente pelo caminho anteriormente aberto, optou por desenvolver uma rota em curva de nível. A progressão ficou mais suave e menos desgastante, embora consumisse um pouco mais de tempo.
Ao chegarmos na clareira aberta em fevereiro, retomamos o trabalho pesado. Não havia alternativa. Era facão novamente. Daniel rapidamente ganhou o apelido de “Homem Carrapicho”. A quantidade de sementes, galhos e espinhos presos à roupa era impressionante.

Figura 3: Homem Carrapicho
Seguimos pela crista até encontrar um ponto onde foi possível descer para um pequeno vale e voltar a subir
pela montanha. O desgaste começava a aparecer. Daniel passou a dianteira para Valéria, que assumiu a abertura da trilha com uma energia admirável. Graças ao
trabalho coletivo conseguimos alcançar o primeiro lajeado da crista, exatamente onde reencontramos a trilha original do Pilatos.

Figura 4: Valéria no alto abrindo o caminho
Ali percebemos que havíamos alcançado um objetivo importante. Não tínhamos chegado ao cume, mas havíamos conseguido criar um acesso, contornando definitivamente a
propriedade particular. Era uma conquista enorme. Infelizmente o relógio mostrava meio-dia. Toda aquela região é extremamente exposta. Não existem árvores de grande porte capazes de oferecer sombra. O sol forte, combinado com horas abrindo trilha, tornava qualquer tentativa de continuar imprudente.

Figura 5: Miriam no Lajeado final da segunda investida
Mais uma vez decidimos recuar. Foi frustrante. Mas, diferente da primeira tentativa, voltamos sabendo que havíamos deixado um legado concreto para a próxima investida.

Figura 6: Descansando antes de retornar
Terceira investida, 29 de março – O caminho continuava sendo construído
Algum tempo depois, durante uma reunião social do clube, Miriam comentou que Carla havia feito uma nova
tentativa. Ela também não alcançou o cume.
Mas conseguiu abrir mais um trecho da trilha. Foi uma notícia excelente. Percebemos que, pouco a pouco, estávamos construindo o caminho. A próxima tentativa tinha grandes chances de dar certo.
Quarta investida, 23 de abril
Chegou finalmente o dia 23 de abril. Participaram Miriam, Daniel, Thamyres, João, Fábio, Alexandre, Beraldo, Renan e eu. Renan, meu amigo do CEB, pediu para participar depois de ouvir os relatos das tentativas anteriores durante uma reunião social do clube. Dessa vez todos chegaram com o mesmo pensamento.
Era dia de concluir o Pilatos!
Avançamos rapidamente por todo o trecho já aberto nas investidas anteriores. Em apenas um ponto tivemos uma pequena dificuldade de localização, mas logo reencontramos o caminho deixado pela Carla.

Figura 7: Avaliando o caminho a ser seguido
Aproveitamos para instalar algumas fitas de orientação e seguimos em frente. Novamente o trabalho foi coletivo. Daniel abriu boa parte da trilha, eu e Renan fazíamos o acabamento e todos contribuíram da forma que podiam.

Figura 8: Quase terminando a vegetação alta
Pouco depois ultrapassamos definitivamente o limite da vegetação fechada. Chegamos ao segundo lajeado.

Figura 9: Continuando a partir do segundo lajeado
Dali em diante não havia mais necessidade de abrir caminho. A trilha original estava novamente acessível. Foi impossível esconder a satisfação daquele momento. Seguimos observando ao longe o Jacó (Sentis), montanha que despertava nossa curiosidade para futuras aventuras, mas o objetivo daquele dia era outro.
Continuamos.
Pouco depois alcançamos o pequeno campo que antecede o cume.

Figura 10: Quase cume
Finalmente!
Depois de três investidas, incontáveis golpes de facão, muito suor e algumas desistências conscientes, estávamos no topo do Pilatos!

Figura 11: Cume!
Como se o dia ainda guardasse uma última surpresa, ao abrir o livro de cume descobrimos que aquela era exatamente a mesma data em que Miriam havia estado ali cinco anos antes. Foi uma coincidência bonita.

Figura 12: Finalmente cume!
Almoçamos no cume, apreciamos a vista, o café preparado pelo Beraldo ficou ainda melhor naquele cenário e aproveitamos cada minuto daquele lugar.

Figura 13: Apreciando a linda vista
A descida foi tranquila. Voltávamos com a sensação de missão cumprida. O que mais me marcou nessa experiência foi perceber que aquela conquista não aconteceu em um único dia. Ela começou em fevereiro. Foi construída a cada metro aberto na vegetação. A cada decisão correta de voltar. A cada grupo que deixou um pouco do trabalho pronto para o seguinte. O cume de 23 de abril foi apenas o último capítulo de uma história escrita por muitas mãos.

Figura 14: Paisagem fantástica
Hoje fico feliz em saber que outros montanhistas já utilizam esse acesso e podem conhecer um dos lugares mais bonitos da Serra dos Órgãos graças ao esforço coletivo de todos que participaram dessas investidas.
Agradecimentos
Meu sincero agradecimento à Miriam, por idealizar, conduzir e acreditar nessa aventura desde o início. Sua experiência e perseverança foram fundamentais para que essas três investidas acontecessem. Agradeço também ao comprometimento de todos os participantes, que não desistiram diante das dificuldades e contribuíram para transformar uma trilha fechada em um acesso novamente utilizável. Um agradecimento especial à Carla, ao Daniel e à Valéria, que realizaram um trabalho extraordinário na abertura da trilha, enfrentando horas de facão e vegetação fechada para que pudéssemos avançar.
Por fim, agradeço ao CERJ, por toda a capacitação ao longo da minha formação como montanhista. Grande parte do que consegui contribuir nessas investidas é resultado dos ensinamentos recebidos durante essa jornada.
Tracklog
Ao longo das três investidas, o traçado foi sendo ajustado conforme as condições encontradas em campo. O percurso abaixo corresponde ao acesso consolidado após a conquista do cume e pode servir como referência para futuras investidas.
>>> Link para o tracklog
Observação:
O tracklog deve ser utilizado apenas como ferramenta auxiliar de navegação. As condições da trilha podem mudar com o tempo, sendo indispensável planejamento adequado, experiência em orientação e respeito às normas do Parque Nacional da Serra dos Órgãos.

