Conquista da Via Tia Ciata – 2º IV E2 D1 95m
Serra dos Pretos Forros, Água Santa, RJ
Por Thailli Conte, Yvie Barcellos e Alexandre Gomes (Xandão)
Xandão, Igor e Junior tinham conquistado há pouco tempo uma via na Serra dos Pretos Forros, em Água Santa. Enquanto estavam no processo de definição da via, Xandão fez o convite a mim, Yvie, e a Thailli para o desenho de um outro caminho na parede. Combinamos de nos encontrar no dia 27/9 às 8h.
O tracklog de aproximação pode ser conferido aqui.
Definição da linha – por Thailli
Chegamos na parede, Xandão mostrou a localização da via Domingos Camões e a ideia da nova linha que ele havia imaginado. Eu e Yvie mudamos todos os planos! A ideia do Xandão era uma linha à direita da via citada, mas nós vimos uma linha interessante e bonita à esquerda da via Ex-Escravo. Tiramos uma foto da parede e sobre ela desenhamos nossas aspirações de via. Vimos, com isso, que as linhas que imaginamos eram bem parecidas. Conversamos um pouco sobre o melhor caminho, como evitar áreas muito molhadas, melhor localização para a base e partimos!

Vista da parede pela qual nos apaixonamos e quisemos conquistar.
Início da conquista – por Yvie
Após definição da linha da via e equipagem, fui eu a integrante a começar a empreitada. A escalada começa em um segundo grau em diagonal para a esquerda. Subi um pouco e Xandão orientou a bater a primeira chapa para ajudar na localização da via de longe. Thailli queria que a primeira proteção fosse colocada apenas onde está a posição da atual segunda chapeleta e, por isso, foi carinhosamente apelidada de psico(pata) por Xandão.
A conquista exige certa coordenação e boa gestão do rack – além das usuais costuras, móveis, freio, cordeletes e paradas, é necessário também carregar furadeira, soprador, chave de boca, martelo e chapeletas. Dito isto, é justo dizer que conquistar gera uma sensação nova. Além de ninguém nunca ter escalado aquele trecho antes (com risco de quebra de agarra, escorregão por conta da sujeira da via), é necessário se equilibrar com todo aquele peso no rack para tentar ficar estável e furar a parede, torcendo para o pé não vazar e a pessoa sofrer uma queda.
Bati com o martelinho para confirmar se a pedra era oca (não era), furei a parede, soprei o pó gerado, pus o parabolt no buraco e martelei. Pronto, primeira chapa batida.
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| Yvie furando a rocha para colocar a primeira proteção | Yvie furando a primeira proteção e depois saindo para conquistar o restante, com segurança da Thailli. |
Segui então em diagonal para a esquerda, depois em linha reta e bati a segunda acima de um platô confortável, repetindo sempre o mesmo processo. Depois da segunda proteção, Xandão e Thailli sugeriram seguir uma linha diagonal, agora para a direita, rumo a uma barriguinha. E lá fui eu numa sequência confortável até a barriga. Tentei colocar uma peça móvel mas não coube, então fiz o lance e bati a terceira chapa, que seria uma das duas da primeira parada da via. Ufa, primeira parte concluída. Puxei então Thailli e, na sequência, Xandão.
2ª enfiada – Thailli
Subi o trecho conquistado pela Yvie. Agora seria minha vez de furar a parede. Yvie me passou a furadeira, e eu de posse do martelo avaliei a condição da rocha para instalação da proteção. Tudo ok, hora de furar! A furadeira é muito pesada, e eu não imaginava que na hora que a colocasse contra a rocha iria começar a pular na minha mão. Mas, passado o susto, me reposicionei e consegui furar. Por sorte estávamos em um platô confortável. Limpei o local e bati a minha primeira chapeleta. Agora era hora de conquistar um novo trecho!

Thailli limpando o furo antes de instalar sua primeira proteção.
Toquei pra cima até chegar num platozão de mato. Xandão gritou “não vai proteger, psicopata?” E respondi que não, pois estava muito fácil.
Subi mais uns dois ou 3 metros depois do platô e bati uma proteção. A dificuldade de manejar tantos itens novos e desconhecidos me impressionou. O baudrier fica pesado, a furadeira dá uma desequilibrada nos movimentos. É uma sensação nova e interessante. Depois da primeira proteção, subi mais um pouco por uma canaleta, e coloquei outra chapa mais à esquerda. Depois segui, fiz uma pequena horizontal e subi até um platô, logo abaixo de um tetinho. Olhei se seria possível proteger em móvel, mas não consegui encaixar os friends. Além disso, já havia subido 30 metros, era hora de bater uma chapeleta, que viraria uma parada dupla, a P1 oficial. Subi a Yvie e ela colocou a segunda chapeleta da dupla, invertendo o processo feito anteriormente, e então montamos a parada e puxamos o Xandão.

Thailli, Yvie e Xandão na P1 ao final do primeiro dia de investida.
Já eram quase 13h, hora de descer. Xandão abriu o rapel, aproveitando para medir as distâncias. Quando chegou no platô de mato lá embaixo, conversamos e achamos melhor colocar uma proteção intermediária. Dessa forma, evitamos um lance exposto e uma eventual queda na proteção da parada.
Segunda investida
Marcamos a conclusão da conquista para o dia 1/11. Choveu, e então remanejamos para o dia seguinte, 2/11, às 8h. Alexandre Chevi, Igor Costa, Mariozinho e Renata também nos encontraram neste horário, já que iriam fazer a Domingos de Camões.
Chegamos à base, nos equipamos e Xandão guiou até a P1, levando as duas cordas. Yvie e eu subimos em simultâneo para ganhar tempo. Ainda tínhamos uma enfiada para conquistar.
Escalada até P1 + conquista do último trecho – Xandão
Foi o dia em que eu guiei a via toda. Pude ter minha impressão sobre os lances e ratificar o excelente trabalho que as meninas fizeram de colocação das proteções e definições da linha da via que, por sinal, ficou muito regular quanto ao traçado.
Acreditava-se que o último trecho da via fosse o mais difícil, então injustamente me escolheram para fazer e preferiram só me dar os betas de passada, possíveis caminhos, bem como a possibilidade de verem de perto uma queda durante uma conquista.

Xandão após instalar a primeira proteção do trecho final.
O 4º grau tenebroso me dava a possibilidade de escolher três caminhos e isso é terrível, ainda mais estando no maior perrengue e a Psico dizendo que eu estava protegendo demais os lances!
Passados os lances mais delicados, decidi ir para esquerda e cheguei ao cume, mas preferi não bater as proteções, pois queria decidir juntamente com as meninas a finalização da via e a parada final. E, para alegria de todos, nossa conclusão foi que nem final de novela: fizemos os últimos 5 metros de via de acordo com a vontade própria kkkk.
Decidimos que a parada final seria a mesma da Ex-escravo, minimizando o impacto na parede e criando um rapel em linha reta. Uma parada na linha para a esquerda requereria 2 furos para a parada, mais um furo para uma dupla intermediária, já que o trecho ficaria com mais de 30 metros.

Thailli, Xandão e Yvie na parada final da via
Diagonal – Yvie
Após a decisão conjunta sobre parada final junto à via ‘Ex-Escravo’, Xandão sugeriu que eu batesse uma chapa no meio da diagonal que só eu tinha feito em direção ao final da via. Montei o rapel, equipei todo o peso dos materiais da conquista no rack e desci. A colocação da chapa não ficou boa, então decidimos bater uma segunda logo à direita para melhorar a proteção. Agora sim, via intermediada, podemos descer.

Vista superior da via
Rapel e descida
Os rapeis ficaram tranquilos, seguindo quase uma linha retilínea, e podem ser feitos confortavelmente com uma corda de 60m.

Rapel da P2 até a P1.
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| Croqui da Via | Linha da via na parede |
Quem foi Tia Ciata?
Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, foi uma sambista, mãe de santo e curandeira brasileira, considerada por muitos como uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba carioca. Sua casa na região da Pequena África, no Rio de Janeiro, funcionou como um “quilombo urbano” e um centro cultural de resistência e preservação dos saberes afro-brasileiros.





