Canivete, Lama e Milhões de Rapeis no Dedo de Deus – 28/09/2025
Por Junior
Como tudo começou
Há alguns meses estávamos na mureta da Urca celebrando a realização da prova prática dos alunos do CBM 2025 do CERJ e sugeri ao meu amigo e grande parceiro de escalada Igor que fôssemos ao Dedo De Deus mais uma vez, mas desta vez sem a presença de qualquer guia mais experiente que nós. Seria uma baita empreitada. Já havíamos feito o DDD duas vezes, nos 2 anos anteriores, com o Magal guiando totalmente a primeira vez (em 2023) e novamente Magal nos dando os betas para que revezássemos uma cordada, em 2024. Essa última experiência já tinha sido sensacional, mas faltava uma excursão tocada por nós 2. Ele guiando uma cordada e eu a outra. E aí, bora? E sem pestanejar Igor declarou: “Bora!”. Chamamos então Thailli e Yvie para comporem as cordadas.
Meses depois, por motivos diversos, a data mudou e Yvie acabou saindo da cordada. Entrou então a Rafaella, mas um tempo depois também teve que sair por questões de agenda da família. Foi então que na última semana Daniel Rodriguez entrou para completar nosso time e fechamos a data: 28/09/2025. Estávamos com o time formado: Igor Costa, Thailli Conte, Daniel Rodriguez e eu (Waldir Junior). E seria a primeira vez da Thailli no DDD. Que responsa!!!
Preparação
Seguindo os ensinamentos do Magal, organizamos tudo para nossa escalada:
Todos:
- kit aba
- mochila pequena extra (para esconder a mochila principal e subir com uma pequena)
- mochila normal
- 2 a 3 litros de água (não tem ponto de água lá)
- lanche/snacks para dia inteiro
- anorak
- headlamp carregada e pilhas extras
- kit primeiros socorros
- canivete
Junior:
- corda de 60
- costuras
- paradas
- friend #1
- 2 estribos
Igor:
- friends #2 e #3
- corda 60
Estratégia
Nosso planejamento foi esse:
- Saída RJ – 4h
- Início caminhada – 5.30h
- Início cabo de aço – 6.30h
- Início escalada – 8h
- Cume – 13h
- Final da descida – 18h
- Final da trilha – 19h
O dia estava lindo
No dia 28 nos encontramos às 4h e partimos rumo ao Paraíso das Plantas. O clima estava bom, não havia chovido nos últimos dias e todos estavam descansados. Estacionamos o carro, nos arrumamos e às 5:35 partimos para a caminhada. Até aí tudo perfeito.

O dia estava lindo
Chegamos à base do cabo de aço às 6:53, um pouco além do planejado, mas tudo bem. O problema é que havia umas 10 pessoas na nossa frente. Aí já vimos que tudo seria mais demorado.

Galera na base do cabo de aço
Fizemos os lances de cabo de aço, Igor e eu guiando cada um a sua cordada. Após os cabos seguimos pela trilha e usamos cordas em alguns lances mais expostos.

Daniel enrolando a corda após mais um lance exposto na trilha de aproximação
Fila na base
E finalmente chegamos à base da escalada às 9:18. Demoramos principalmente por conta da espera que tivemos na base do cabo de aço e também por alguns lances terem sido feitos com corda.
Ao chegarmos na base da escalada nos deparamos com uma grande fila. Tivemos que esperar mais alguns bons minutos até conseguirmos prosseguir.

Fila na base da escalada
Finalmente iniciamos a escalada às 9:37. Guiei a primeira enfiada e não vi necessidade de proteger com peças móveis. Acabei levando todas comigo e, quando Igor chegou à parada depois de guiar a primeira enfiada, me falou que sentiu falta de algumas peças. Coloquei na minha cabeça então que protegeria tudo que eu conseguisse.
Na segunda enfiada comecei guiando aquela canaleta apertada com algumas pedras entaladas e tive que proteger com tudo que eu tinha. Usei todos os friends, nuts, orações e alguns gritos também. Teve um momento que eu fiquei progredindo por uma eternidade, aí quando cheguei numa posição boa olhei para baixo e vi que eu só tinha escalado uns 4 metros hahahah.
Fechei o resto da enfiada com várias proteções e cheguei à base da Maria Cebola. Logo depois chegou Igor. Quando Igor estava recolhendo a corda para dar segurança à Thailli a corda travou em algum local próximo de nós. Igor usou minha corda para rapelar em corda fixa e conseguiu liberar a corda da Thailli. Depois voltou à base e finalmente e então puxamos a Thailli. Todos prontos, então vamos para a braba. Ah! Thalli mandou avisar que não queria mais limpar a via, pois deu muito trabalho tirar os friends e nuts. Será que vamos atender o pedido?? 😅
A braba da Maria Cebola
Iniciei a guiada da Maria Cebola. Lembrando que em 2024 quem guiou a Maria Cebola durante nosso revezamento foi o Igor, então eu estava bem tenso. Iniciei o artificial e fui até a curva. E aí finalmente olhei o lugar que eu estava e vi que se eu caísse eu iria parar lá no Paraíso das Plantas. Ou seja, sem chance de queda. Consegui chegar ao primeiro grampo pós curva e prendi minha mochila neste grampo. Fui protegendo com os friends e depois fiz a parte final super exposta e cheguei à parada. FOI!!! Foi um misto de alívio e felicidade! E achei absurdo o Igor ter guiado aquilo sem nenhuma proteção em móvel no ano anterior! 😮
Logo depois foi o Igor, que ao chegar já foi para a chaminé e então puxei Thailli e Daniel. Aí tivemos um pequeno momento de tensão, quando a mochila que eu havia deixado presa no grampo estava fazendo peso e não deixando a Thailli descosturar. Houve reclamações, xingamentos, pedidos de “retesa!!”, até que ela esperou Daniel chegar até próximo dela e então conseguiram tirar a mochila, liberar as cordas e depois prosseguir com a escalada. Assim que Thailli chegou, ela e Igor foram logo se posicionar para iniciarem a chaminé, para ganharmos tempo. Logo depois outro momento de tensão: Daniel não conseguia de jeito nenhum remover um friend #2. Lutou muito, cansou, quase desistiu, mas depois de um longo tempo, conseguiu!! Ufa! Aí foi só correr pro abraço (a parte de “correr” foi quase literal, pois ele escalou muito rápido.. haha). Assim que Daniel chegou ele foi para a chaminé e eu fui em seguida. Maria Cebola estava no papo! ✅

Daniel passeando na Maria Cebola
Igor guiou a chaminé e eu subi logo em seguida, com segurança de cima. Thailli fez um lindo nó de borboleta no meio da corda que a ligava ao Igor e eu subi primeiro. Depois Igor puxou a própria Thailli e, por fim, Daniel.
Enquanto Thailli e Daniel escalaram a chaminé principal, eu já fiz a chaminé que tem logo após a parada e parei logo antes do lance do cavalinho. Dali puxei Thailli e Daniel. Igor chegou em seguida. Neste momento eu estava bem satisfeito com o dinamismo de nossas cordadas. Estávamos muito sincronizados.
O lance engraçado desta enfiada foi a Thailli ficando esgotada ao fim da chaminé e parando totalmente estatelada em cima do bloco. 😂

Thailli abraçando o bloco e Igor ao fundo dando seg para o Daniel
Parti então para o lance do cavalinho e depois para aquele trecho estreito até a base da última enfiada. Procurei um bico de pedra bem sólida para montar uma parada. Desta vez foi Igor que entrou no meio da corda entre mim e Daniel e subiu logo. Depois Thailli subiu com segurança do Igor e Daniel com minha segurança, simultaneamente. Estava lindo de ver nossa destreza na montanha. 🤩
Sem esperar muito, partimos para a última enfiada. Guiei a enfiada do passo do gigante e usei vários nuts, o que me deu muita segurança para fazer os lances. Logo depois foi a vez da Thailli, que ficou emocionada ao ver a escadinha pela primeira vez. Igor veio em seguida e assim que chegou já foi com Thailli para o cume. Puxei o Daniel, que foi direto para o cume e eu fui em seguida, depois de desmontar a parada. CHEGAMOS!!!! É cume!
![]() |
![]() |
| Thailli vendo a escadinha | Thailli na escadinha |
Já eram 16:30 (3 horas e meia além do planejamento) e não poderíamos ficar muito tempo. Já estava quase anoitecendo. Comemos um lanche, tiramos algumas fotos, assinamos o livro de cume e iniciamos nossa preparação para a descida. Até aí estava tudo indo bem. Todos com energia e dispostos. Bora!

Nós no cume do Dedo de Deus
Adeus, corda verde
A descida pela via Teixeira inicia em um pequeno costão partindo da base da escada até a parada dupla de início do rapel. Acontece que tanto Igor quanto eu não estávamos satisfeitos em fazer essa transição do costão para a base do rapel, pois é um lance bem exposto e esquisito. Daí veio a ideia do Igor de fazer um rapel a partir de um grampo no cume, bem ao lado da escada (ele viu alguém realizando este rapel no Instagram). Desta forma iríamos protegidos até a parada dupla. “Será só um rapel a mais”, pensamos. E decidimos fazer desta forma.
Fiz esse rapel com minha corda de 60m e cheguei à parada dupla. Carreguei a outra corda para já iniciar a montagem do próximo rapel. Acontece que a minha corda chegou nesta parada dupla no limite. Quando Thailli começou a montagem do rapel lá no cume, pediu que eu liberasse a corda, pois estava muito esticada. Liberei a corda e então aconteceu uma coisa desagradável: as pontas da corda pendularam e foram parar numa fenda. Thailli iniciou o rapel e após descer da escada percebeu que as pontas (com nós, claro) acabaram travando na fenda bem abaixo dela. Ela tentou de todas as formas liberar a corda, mas em vão. Igor e Daniel desceram a escada e também tentaram. Nada! A alemã de nome Myriam, que estava guiando uma outra cordada, também tentou ajudar, mas nada surtiu efeito. Foi então que tomamos a decisão dolorida de cortar a corda. 🗡️😭 O lado bom (se é que tem um lado bom nisso) foi ter ouvido da Thailli que ela ficou muito agradecida pela oportunidade única de cortar uma corda (e surpresa por ter sido tão fácil fazê-lo, com seu super canivete). 🥴
Eu só lembro da minha corda cortada caindo dentro da fenda. Parecia que era um pedaço de mim indo embora. Triste, mas não havia espaço para lamentações. Ainda tínhamos um loooongo caminho para baixo.
A partir daí teríamos apenas uma corda para fazer todos os rapeis, o que de cara já nos deu a ideia de que nossa descida demoraria muito mais que o previsto. Mas o importante era a segurança de todos. E com os recentes acidentes no mundo da escalada, principalmente envolvendo rapeis, ficamos muito vigilantes com relação aos procedimentos uns dos outros. Com muita calma iniciamos os rapeis e fomos fazendo tudo com calma. Já era noite e tivemos que montar tudo com a luz da lanterna. Rapel negativo, trilha, tudo! Foi tenso, mas fomos caminhando.
A epopeia da lama
Quando chegamos nos trechos da trilha em que há cabos de aço para ajudar na subida e descida nos deparamos com uma situação de escuridão, cansaço, chão molhado e com lama e apenas uma corda. Decidimos montar rapeis em todos os trechos mais complexos de descida, o que nos fez realizar entre 12 e 15 rapeis para completar toda a descida. Durante esses milhões de rapeis acabamos sujando todos os nossos equipamentos e corda com muita, muita (eu já disse muita???) lama. Chegamos à bifurcação às 20:23 e logo partimos para mais rapeis até chegarmos nas enfiadas de cabos de aço.
Igor e eu revezamos as montagens de todos esses rapeis, ficando o Igor responsável por montar os últimos, pois ele lembrava mais como deveriam ser feitos. Sem luz e cansado tenho que dizer que ele fez um excelente trabalho em montar esses últimos rapeis, pois como estávamos com apenas uma corda, não dava para chegar na parada dupla que ele lembrava, então ele teve que buscar outro caminho e outro grampo para nos ancorarmos.
Finalmente terminamos a descida até a base do cabo de aço às 22:45. Agora seria só desequipar e fazer a trilha de volta à pista. Neste momento Daniel já estava sem bateria em sua headlamp e fez a trilha segurando o celular. Deu tudo certo, amém senhor. Às 23:50 chegamos ao carro no Paraíso das Plantas, totalmente realizados e cansados.
![]() |
![]() |
| Esta corda era azul | Esta corda tinha 60 metros |
O último grampo
Mas como aprendemos no CBM do CERJ, ali só havíamos terminado a terceira etapa da escalada. Ainda faltava uma muito importante: chegar em casa. No caminho de volta fomos uns cantando, outros conversando, e outros dormindo. No final deu tudo certo e chegamos em Copacabana por volta de 1:15. Deixamos Daniel próximo à casa dele e fomos direto para a pizzaria Stalos para o nosso “último grampo”. Pela foto abaixo vocês podem ver como estávamos destruídos (menos a Thailli, que estava ótima haha).

Último grampo dos aventureiros
Depois desta pizza maravilhosa deixei Thailli e Igor em Copacabana e parti para minha casa, no outro lado da cidade na “longe pra caramba” Jacarepaguá. Cheguei em casa precisamente às 2:43. É óbvio que não consegui trabalhar no dia seguinte. Aliás, só busquei as coisas no carro (incluindo minha dignidade) na segunda-feira. Obrigado demais, meus amigos. Foi um dia sensacional e inesquecível! Mesmo diante de todas as dificuldades gostei muito da forma como nos portamos e resolvemos todos os contratempos.





