Cordada totalmente revezada na Lionel Terray – 3º IV (A0/VIIc) E2 D2

Por Mariozinho Richard, Thailli Conte, W. Junior e Yvie Barcellos

03/08/25

 

Atenção: este relato contém uma série de palavrões e xingamentos. 

 

Trilha, por Thailli: Há quase um ano tentava fazer a Lionel Terray, que era sempre desmarcada por questões diversas (clima, disponibilidade de agendas, lesões). Mas domingo (03/08), tudo deu certo e partimos eu, Yvie, Mariozinho e Junior rumo ao PNT. 

Sempre ouvira falar que o crux da via era a trilha de aproximação, mas esta é tranquila até chegar ao seu trecho final. Depois da caminhada tranquila, um toca pra cima íngreme em meio às árvores começa, mas tudo piora quando as árvores acabam… a trilha segue por meio de um capim e solo de terra meio mole. Subi me agarrando aos tufos de mato que não passavam segurança alguma e super estressada, pensando “se eu cair eu vazo para a morte nessa trilha”. Seguimos mal-humorados com a trilha, eu, Mariozinho e Junior, Yvie era a exceção dizendo: “estou muito feliz com essa trilha, eu imaginava que seria muito pior!” 

Enfim, chegamos à base (esta é confortável) e começamos a nos equipar. 

Foto 1: Galera no vara mato

1ª enfiada, por Yvie: Estava muito feliz por finalmente conseguir fazer a Lionel depois de mais de um ano marcando e cancelando (devia ser o Universo avisando pra gente desistir da ideia). Fizemos a caminhada de aproximação que foi ruim, mas os meninos tinham pintado um cenário catastrófico, então tinha em mente algo muito pior. Chegamos à base da via e combinei de tocar o primeiro e terceiro esticões; Junior, minha dupla, guiaria o quarto e sexto (segundo e quinto são caminhadas). Me equipei animadíssima, sem imaginar o perrengue que viria a seguir, e iniciei a escalada. Ela inicia com uma escalada em blocos de pedra confortáveis até um diedro à esquerda, e é aí que o bicho começa a pegar: não é possível fazer oposição no diedro e os lances são longos. Já iniciei meus xingamentos usuais ao passar a primeira chapa rapelável – a sorte foi que o Junior queria estrear seu novo camalot #1 e me emprestou. Obrigada, amigo! Consegui subir protegendo em móvel, depois costurando. Desci para pegar o móvel e subi para proteger novamente na fenda. E a saga continuou: protegi, costurei no grampo, desci, recuperei o camalot, subi. Era quase uma autosseg. Até que cheguei à saída do diedro: um horror. Sem mãos, sem pés. Tentei sair pela direita, onde tinha um aparente pé confortável. Fiquei receosa e voltei à fenda. Tentei, em seguida, encaixar o móvel mais uma vez e ele vazou: não era o tamanho correto para o buraco. Senti que estava presa no diedro, quase como uma minhoca, e verbalizei isso (o que, é claro, virou motivo de risadas). Thailli vinha logo atrás e decidiu fazer o lance. Trabalhamos em equipe: segurei seu pé para dar mais firmeza, ela deu a passada, gritei “aê, Thailli, mandou!!!” e ela: “ainda não! Não terminei” e subiu grunhindo, xingando e urrando hahaha. Fomos assim por mais alguns trechos até que finalmente chegamos à P1. Recolhemos as cordas e puxamos os rapazes.

Foto 2: Yvie no diedro inicial

1ª enfiada, por Thailli: Equipados e com as cordadas divididas (Yvie e Junior/Thailli e Mariozinho) era hora de dividir as enfiadas. Yvie resolveu começar guiando e falei ao Mariozinho, vou com ela então! 

Yvie subiu primeiro, levando o Camalot 1 recém adquirido pelo Júnior. Logo após passar o segundo grampo do diedro, a metralhadora de palavrões começou, e eu da base já fiquei “ai meu Deus”. Logo comecei a subir também, o começo é tranquilo, mas o começo dura pouco e antes de alcançá-la já tinha usado sua corda amiga tantas vezes quanto foram possíveis… Vi Yvie enfiada debaixo do diedro, segundo as palavras dela “igual uma minhoca”, e disse: “acho que tem que ir mais por fora (do diedro) agora”. Ela me respondeu “eu não consigo sair daqui”. Pensei, vou tentar! E fui… São lances de pés ruins até se alcançar mãos boas lá em cima, a confiança neles era nula, aí falei pra Yvie, segura meu pé aí. Com essa ajuda consegui dar a passada para alcançar a chapeleta. A costurada aconteceu no veneno. Logo depois entrei em um outro diedro ruim, pedi a Yvie para me alcançar o Camalot (que a essa altura já havia sido usado umas 2x, pelo menos). Ela pendurou o Camalot no cadarço da minha sapatilha, para eu poder alcançar, mas ele era muito pequeno para a fenda e segui xingando para cima até alcançar a parada. Yvie chegou depois, também usando a corda amiga, agora deixada por mim, em uma guiada revezada por duas guias. 

Puxamos Mariozinho e Junior, que subiram em silêncio absoluto, bem diferentes de mim e da Yvie, que xingamos até a nossa 10ª geração.

 

1ª enfiada, por Junior: Enquanto Yvie e Thailli estavam guiando a primeira enfiada algumas coisas engraçadas aconteceram. Para começar, não sei o que estava acontecendo comigo, mas eu estava incapacitado de falar os nomes das duas corretamente. Sério! Só saía Yvie quando eu chamava Thailli e Thailli quando eu chamava Yvie. Então imagina a bagunça enquanto eu dava segurança para a Yvie e gritava: “Thailli, tá na tua?”, e a Thailli respondia para o Mariozinho, ou Yvie me corrigia e dizia que era Yvie. Enfim.. Isso aconteceu algumas (várias) vezes, até que batizamos as duas de “Thayvie”, a super dupla. Depois disso, ficávamos Mariozinho e eu gargalhando das duas xingando tudo. Teve o momento do “Calma Yvie!” relatado acima que também foi hilário. Óbvio que todos rimos, mas com respeito, óbvio. Foi muito divertido dar segurança nessa primeira enfiada. Depois chegamos (Mariozinho e eu) à P1 super satisfeitos e já de cabeça feita de tanta risada.

 

3a enfiada por Yvie: Depois de lidar com um ataque de formigas no meu pé esquerdo, Junior e eu nos adiantamos e já me preparei para sair na frente no terceiro esticão. O trecho é bem curto: 15 metros de escalada tranquila ao lado de um diedro – este, agora, à direita. Também consegui usar meu novo melhor amigo camalot em uma fenda, costurei, e segui até o fim do diedro, rumando para a direita em uma caminhada simples até a P3. Puxei Junior; Thailli e Mariozinho vieram na sequência. 

 

3ª enfiada, por Thailli: Yvie, que havia falado no final da primeira enfiada “o Júnior quem vai guiar tudo daqui para a frente” já estava começando a guiar quando eu e Mariozinho cruzamos o mato em direção à P2. Inspirada por ela, também guiei a segunda enfiada.

Não sei se essa de fato é tranquila ou o sofrimento da primeira que foi muito grande.

Foto 3: Galera na P3

4ª enfiada, por Junior: Antes que eu iniciasse a guiada desta enfiada, a Yvie guiou até bem próximo do primeiro grampo para tirar a maravilhosa foto que estampa o material de Vias Clássicas do CERJ sobre a Lionel Terray e depois desescalou de volta à base.

Foto 4: Yvie fazendo o lance inicial do quarto esticão

Após isso ela montou minha segurança e parti finalmente para a enfiada que eu mais queria guiar.

Subi sem muitos problemas até o final do diedro e consegui encaixar meu camelot BD #1 em seu final, o que me ofereceu uma baita segurança para fazer a transição para a laca, num lance de domínio. Após a transição me prendi à parada opcional. A ideia inicial era tocar direto até a P4, mas Yvie pediu para eu puxá-la até ali. Mariozinho logo depois chegou guiando a outra cordada e Yvie veio em seguida. Assim que Yvie chegou eu fui para o trecho em artificial. A parte do artificial até foi tranquila de guiar, mas o problema foi uma passada esquisita e obrigatória em aderência no meio da enfiada. O croqui diz que é um IV, mas pra mim aquilo ali era quase levitação. Demorei uns 5 minutos analisando o lance e fazendo alguns testes de aderência da sapatilha. Finalmente tentei o lance e passei. Ufa! (na verdade foi muito mais que “ufa!”, foi uma sequência de “PQP! Cara***!! Que lance mer**!!” e coisas do gênero). Depois que respirei e voltei ao “normal” (ou quase), deixei um longo estribo com uma fita presa no último degrau pra ajudar o restante da galera. Agora era só terminar a enfiada em artificial, que foi o que fiz sem muitos problemas. Cheguei à P4 e puxei Mariozinho (ele fez uma aselha na corda que me ligava à Yvie e subiu com segurança de cima). Logo depois dei segurança pra Yvie, que subiu sem maiores complicações. Assim que ela chegou partimos para a P5 enquanto Mariozinho dava segurança à Thailli.

Foto 5: Junior na parada opcional mostrando o camalot #1 instalado

4ª enfiada, por Thailli: fui a última a subir o trecho a ser feito em artificial depois da parada opcional. Ou seja, sobrou pra mim limpar a via. Já no segundo grampo do trecho, um problema: a corda estava por baixo do estribo em que eu estava. Gritei muito “retesa Mariozinho, vou ter que ficar na corda”, pra poder desenrolar as coisas e voltar a subir.  Chegando no final do estribo, ainda não conseguia alcançar a fita no próximo grampo, mas precisava retirar o estribo… dei um upa na corda, agarrei a fita, desci um pouco, tirei o estribo, pisei no grampo e voltei a subir. Não imaginava que seria tão difícil limpar a via, nem que acabaria o trecho com equipamentos pendurados em tudo onde fosse possível. A essa altura, eu já havia amaldiçoado a pessoa que guiou o artificial e não deixou mais fitas longas para quem vinha depois, questionado todas as minhas escolhas em escalar e dado razão à minha mãe, que sempre fala: “pare com isso minha filha, pra quê ficar se pendurando por aí?!”.

Foto 6: Junior, Yvie e Mariozinho na P4

Foto 7: Árvore de Natal Thailli após recolher fitas para a enfiada em artificial

6ª enfiada, por Junior: Logo que chegamos à P5 já iniciei a subida da última enfiada. Yvie me “presenteou” com uma “panic” de 45cm, que tratei de colocar em meu rack imediatamente. Como tinha sido nesta enfiada que sofri uma queda em 2023 (com o Igor Costa, em minha primeira ida à Lionel Terray) e acabei fraturando o polegar da mão esquerda, fiquei receoso, mas queria vencer esse desafio e guiar essa enfiada. Quando estava próximo à segunda proteção não quis arriscar e usei a panic para costurar, mas fiz o lance sem precisar me puxar nela. Ufa! Tinha passado o primeiro desafio, mas ainda faltava o lance em que sofri a queda, que era próximo do terceiro grampo. Cheguei ali e passei bem tranquilo (até me perguntei: como eu fui cair neste lance??). Enfim, toquei pra cima e cheguei à parada dupla, finalizando finalmente toda a escalada (o que tinha ainda era uma pequena caminhada para o cume). Logo depois chegou Mariozinho guiando a outra cordada e depois puxei a Yvie. Woo Hooo!!! Finalmente fechamos a via!!

Foto 8: Mariozinho subindo a caminho da P6

Caminhada ao cume e fim da escalada por Yvie: Cheguei à sexta enfiada e Junior já trocou o freio do modo guia para o participante, e segui caminhando em diagonal para a direita até que comecei a ouvir vozes. Cume, que alegria! Me posicionei confortavelmente e uma pedra, montei a segurança de corpo e chamei o Junior. Ele chegou e logo vieram Mariozinho e Thailli. Tiramos as sapatilhas e ficamos por um tempo jogados deitados na pedra curtindo o fim da escalada, a boa companhia e a belíssima vista. Nos desequipamos, fizemos a feira de material, organizamos as mochilas e começamos a descer a trilha da Pedra Bonita rumo ao estacionamento. Que dia!

Fotos 9 e 10: Galera no cume

Na descida do Alto da Boa Vista ainda tivemos a grata surpresa de avistar a querida Jana Menezes sentadinha num ponto de ônibus na frente da sede Floresta do PNT e a “sequestramos” para dentro do carro. Resultado: olha aí ela no último grampo.

Foto 11: Último grampo

Para finalizar, não poderíamos deixar de prestar uma homenagem ao quinto integrante dessa empreitada. Nosso amigo Camalot Black Diamond #1, que nos acompanhou em diversas enfiadas, nos protegendo, nos dando coragem, nos mostrando que havia esperança onde só existia caos e destruição. Obrigado, amigo. Você é um amigo.

Foto 12: O amigo da galera

 

RELATO BÔNUS: com detalhes exclusivos, por Mariozinho:

Satisfação demais saber que iria repetir uma via querida e das que mais repeti na minha fase antiga de escalador. Tanta agenda que essa havia esquecido de anotar e soube na quinta passada que eu estava numa cordada. Bom ter amigos jovens antenados e cracudos!!!

Chegamos no estacionamento e logo já encontramos o Santa Cruz com seus pupilos e marreta na mochila.

Foram para a Fissura Ecologia e nos aconselhou a rapelarmos devido à eterna péssima trilha para a base. Junior disse que as meninas eram debutantes e que tinham que repetir o caminho dos conquistadores.

Seguimos num bom papo até a trilha mostrar suas virtudes de arrancar palavras feias das pessoas. Chegando na base eu só pensava em uma coisa: “Thailli é guerreira e fominha e vai querer guiar tudo”. Bingoooo! Uma felicidade e tranquilidade tomou parte de mim!!!

Lá foram as meninas, brabas demais, diedro acima. Yvie iniciou a guiada e logo depois foi a vez da Thailli. Enfiada muito agradável para eu e Junior, que assistimos aquelas duas escalando aqueles lances de fissuras com uma mistura de raça, determinação, xingamentos, muita parceria e carinho na revezada da guiada. Chegaram na P1, eu e Junior subimos juntos um pertinho do outro.

As meninas se empolgaram de novo para guiar a terceira enfiada, que luxo, pensei estar no paraíso! Seguiram tranquilas e nós também.

Pronto, agora o Junior foi para a guiada da quarta enfiada e chegou a vez do Mariozinho. Tudo ótimo, estamos aqui para escalar. Junior segue na guiada (após a parada opcional) e começa a reclamar do lance, não satisfeito  começam os palavrões e reflexões de que não tem como passar… “Vai conseguir, kmon, acredita, o pé vai ficar” e tchum, passou!

Meu psicológico após 25 anos mais gordo não estava ajudando meus comandos de lucidez, crença e paz. Tadinha da Thailli, ela merecia agora um momento de pausa, tranquilidade, e ficar na torcida de boa só na seg. Junior deixou a via igual a estes guias comerciais que colocam 200 pessoas para cima, estribos e fitas ao alcance das minhas mãos, luxo total. Eu poderia chorar ali mas estava rindo à toa graças ao meu guia.

– Vem Thailli!

E lá vem ela, limpando a via, “Mariooziinhooo, retesa essa corda, vou ficar nela!”, vem xingando, mas sobe e chega igual aquelas brabas do BigWall, fitas e estribos pendurados até na alma kkkkk.

Último diedro, ufa!!! Junior sobe com maestria e lá vou eu, agora tranks, Junior nada reclamou, subi confiante, direita, pé e mão na fenda, esquerda abrindo tesoura, bonito e agora, oposição e depois quik quik…paralisei!

– Junior, fixa essa corda amiga que vou fazer uma aselha e você me dá seg.! 

Isso, 1 guia e 3 participantes nessa última enfiada.

A corda amiga virou minha esposa e muito amada.

Depois disso tudo virou festa, caminhadinha até o cume com as meninas à frente, perrengue ficou no passado esperando o próximo!