Manutenção do Paredão Antares – 2025
Por: Daniel Rodriguez
Localizada na face sudoeste do Morro dos Cabritos, a via Paredão Antares foi conquistada em 02/11/1977 por Giuseppe Pellegrini e Denise Emmer. Com 310 metros de extensão e graduada em 2º IIIsup D1 E3, a via é caracterizada por esticões de segundo grau majoritariamente retilíneos e expostos, que requerem boa leitura para localização dos grampos e contornos.
De curadoria do CERJ, a via passou por reforma em 02/11/2007 pelos escaladores Carlos Carrozzino e Rafael Villaça. Recentemente, Henrique Menescal sinalizou ao corpo de guias do clube a necessidade de substituição de grampos e duplicação de paradas para rapel. Decidiu-se que a reforma seria realizada por integrantes da escola da guias vigente.
Em 02/08/2025, sábado, os participantes Henrique Menescal, Alexandre Gomes (Xandão), Waldir Junior (Junior) e eu, Daniel Rodriguez, nos encontramos para iniciar este trabalho. Cheguei às 06:55 no Parque da Catacumba, seguido pelo Júnior, Henrique e Xandão, que entraram juntos às 06:58. Seguimos direto pelo caminho aberto mais recentemente para a base da via, que inicia no canto direito do térreo do parque, subindo por uma contenção de pedras e então sobe reto margeando um caminho d’água à esquerda.
Nos reunimos na base original da via, atualmente base da via Filipe Careli, para debater os objetivos da reforma, sendo estes três ao todo: (i) retirar grampos fora da linha da via que causavam confusão, (ii) avaliar solução para o trecho de difícil leitura da via, entre a P2 e P3, passando por gravatás, e (iii) melhorar as paradas da via de forma a ser rapelável em paradas duplas por corda de 60m. Também definimos a distribuição dos trabalhos e do material para reforma.

Da esquerda, Junior, Daniel, Henrique e Xandão, arrumando os materiais para início da reforma.
Nos dividimos em 2 cordadas. A primeira, guiada por Junior e comigo participando, com o objetivo de retirar os grampos. A segunda, com Xandão guiando e Henrique participando, seguiu direto para a última parada para avaliar e duplicar os rapéis.
Junior seguiu até a primeira dupla depois da P1, enquanto eu fiquei na P1 para retirar dois grampos localizados um pouco acima desta parada, à direita da linha da via.

Daniel retirando dois grampos antigos fora da linha da via.
Retirados os grampos, Júnior seguiu até a P3 após os gravatás, enquanto fiquei na P2 para retirar mais dois grampos ao longo deste esticão, grampos estes referentes à linha original da via, pouco utilizada e com lance horizontal muito exposto, sendo mantida a linha da variante Arcturus mais utilizada.

Daniel retirando os grampos à direita da variante Arcturus.
Dando continuidade, seguimos até a penúltima parada da via onde encontramos Henrique e Xandão, que já haviam duplicado a parada final, logo após o batente. Duplicamos também a primeira parada do rapel.

A última parada da via, após o batente final, que era em grampo simples, agora foi duplicada.

Xandão e Junior ensinando Daniel a instalar chapeleta, para duplicação da primeira parada do rapel.
Xandão e Junior desceram no limite do rapel simples, parando meio metro acima de um grampo da via. De forma a viabilizar o rapel por corda de 60 metros, batemos a segunda parada para rapel neste limite, e retiramos o grampo que havia ficado pouco abaixo, nada interferindo na dificuldade ou exposição da via.

Júnior e Xandão instalando uma chapeleta nova na via.

Júnior instalando uma chapeleta nova na via.

Nova instalação. Nesse caso foi usada uma chapeleta Bonier Dupla.
Entre 10 a 15 metros abaixo, na parada original após lance dos gravatás, Xandão controlou a vegetação que havia tomado completamente e linha da via, enquanto os demais desceram mais 30m no limite até grampo da via, onde duplicamos para o rapel.

Chegada à P3 da via, parada que estava tomada por folhas secas e mortas dos gravatás ao lado e que agora está mais visível. Esse era um ponto nevrálgico na reforma, de difícil leitura, que levava muitos escaladores a se perderem na via.
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Daniel duplicando parada para rapel abaixo do trecho dos gravatás.
Descendo deste ponto, 10 a 15m abaixo, tem uma parada duplicada antiga com um grampo invertido, e 15m abaixo desta, outra parada duplicada antiga com um grampo stubai. Na primeira destas, por volta das 15:00, unimos as cordas e fizemos dois rapéis até a base, encerrando o trabalho do dia.

Grampos retirados do Paredão Antares durante essa primeira investida (pendente na foto olhal de outro grampo, muito deteriorado).
2ª Investida
No domingo de 17/08/2025 nos encontramos Xandão, Leandro, Miriam e eu às 7:00h na entrada do parque da Catacumba para a segunda investida de manutenção da via Antares. A reforma havia sido agendada para o sábado, porém uma chuva rápida contudo intensa na noite de sexta nos obrigou a postergar. Neste domingo, alguns participantes tinham o meio-dia como horário limite para nossa atividade, então fomos com o intuito de progredir com que o fosse possível.
Ao chegarmos no parque nos deparamos com o paredão ainda muito molhado, com linhas totalmente encharcadas. Os bravos Xandão e Leandro não titubearam, e seguimos direto para base da via para avaliar a situação. A saída da Antares estava completamente tomada de água que escorria da vegetação. Já a saída da Filipe Careli estava úmida, porém escalável, possibilitando assim nosso início.
Nosso objetivo no dia era chegarmos até a antiga P2 da via, que seria remanejada, e descer instalando parada duplas para rapel a cada 30 metros. Possuíamos apenas uma furadeira, então subimos todos juntos, primeiro Xandão guiando a mim, depois Leandro guiando Miriam.
Ao subirmos, nos deparamos com a antiga P2 em trecho muito encharcado. Esta parada localizava-se à direita de um pequeno amontoado de vegetação. Xandão seguiu até a nova parada dupla seguinte, no grampo logo acima, e montou o primeiro rapel. Deste rapel, Xandão e Leandro instalaram uma chapeleta à esquerda deste mato, sendo esta posição mais reta na linha da via e com menor fluxo de água escorrendo.

Chapeleta à esquerda da antiga P2, instalada em local mais seco e reto na linha da via.
Em paralelo, eu e Miriam iniciamos a retirada dos dois grampos já envelhecidos da antiga parada dupla. Um dos grampos quebrou após poucas marteladas, sinal de seu envelhecimento, deixando aproximadamente 1 centímetro do corpo para fora da pedra. Não dispúnhamos de esmerilhadeira conosco, nos restando somente amenizar as pontas do metal com algumas marteladas.


Grampos retirados da antiga P2. Agora a via segue uma linha reta à esquerda de pequeno mato.
Da parada dupla onde montou o rapel, Xandão desceu 30 metros até um grampo antigo da via, e depois mais 30 metros para verificar se deste ponto alcançava-se a P1 original. Contudo, faltou aproximadamente 1 metro para chegar na P1. Desta P1, foi feito outro rapel até a última parada de rapel da Filipe Careli, onde constatamos que sobrava corda suficiente para remanejarmos a posição da P1. Com isso, decidimos por Miriam e Leandro instalarem uma chapeleta junto ao grampo antigo onde Xandão parou primeiro, para servir como parada dupla para rapel. Devido ao tempo disponível, a realocação da P1 para acima da posição atual, além de demais pendências, ficaram para serem finalizadas em uma próxima investida. De volta à entrada do parque, Xandão realizou um vôo de drone para tirar algumas fotos da parede e da linha da via.
3ª Investida
Dia 06/09/2025, um sábado, reunimo-nos novamente às 07:00h no Parque da Catacumba eu e Xandão, desta vez acompanhados por Igor e Leandro, para o que planejávamos, e ansiávamos, ser a terceira e última investida para reforma da via Antares. O dia estava nublado e algumas previsões indicavam possibilidade de chuva. No horizonte, nuvens baixas pairavam sob a floresta da Tijuca, principalmente no maciço da Pedra da Gávea, e o vento soprava em nossa direção. Em contrapartida, não chovia há dias e a pedra estava seca. Ignorantes, acreditávamos que o trabalho a ser finalizado seria simples, finalizado em poucas horas.
Nos agrupamos na base da via para repassar as tarefas, definir as cordadas e dividir os materiais. Para finalizarmos a reforma da via, restava-nos: (i) substituir o grampo antigo da saída variante por chapeleta nova; (ii) remanejar a antiga P1 alguns metros acima, solucionando assim os rapéis em paradas duplas com corda de 60 metros; e (iii) atualizar o croqui da via. Antes de remanejar a antiga P1, avaliaríamos a metragem dos esticões da base até a P1, pelas saídas original e variante da Antares, e também a partir da P1. Definimos que Xandão e Leandro começariam pela saída variante, incumbidos de trocar o primeiro grampo; e Igor e eu pela original, com a missão de esboçar o croqui.
Igor e Xandão puxaram a guiada. Igor parou na P1, sobrou um pouco de corda ainda na segurança, resultado positivo. Xandão seguiu até o grampo seguinte e, de baixo, Leandro sinalizou uma sobra de meio metro de corda, ou seja, suficiente. Eu e Leandro subimos até a P1, então Igor subiu para o grampo seguinte e, de lá, testou o rapel até a primeira dupla da Filipe Careli, que não alcançou, logo concluímos que realocar a P1 para o grampo posterior não seria boa opção. Igor e Xandão seguiram o esticão seguinte. Igor passou pela parada de rapel seguinte, instalada na última investida, enquanto Xandão aguardou ali. Minha corda acabou antes de Igor chegar na dupla seguinte – atual P3, mas que, naquele momento, planejávamos ser a P2 –, então “francesamos” alguns metros mais. Igor alcançou a dupla seguinte quando eu já estava na altura do grampo seguinte, mais de 5 metros acima da P1. Leandro e eu continuamos a subida ao encontro dos demais. Debatemos as constatações e decidimos que Igor e eu avaliaríamos os rapéis, enquanto Xandão e Leandro adiantariam a substituição do primeiro grampo da saída variante – Eles então desceram. O rapel da parada dupla onde Igor e eu paramos até a parada abaixo estava no limite, chegando até os nós nas pontas da corda, expondo um risco à segurança, principalmente para escaladores mais leves, com os quais a corda estica menos no rapel. Desta última parada, faltavam poucos metros até se chegar na P1. Completamos os rapéis e paramos na P1 para tomada de decisão.
O trabalho, antes simples, mostrou-se complexo. Qual a solução com menos intervenções? Subir a P1 alguns metros já não era boa opção – ela teria que subir uns 6 metros e para permitir alcançar a P2 e geraria o problema de não alcançarmos a P1 da Filipe Careli, de modo que teríamos que bater outra parada para o rapel. A dupla seguinte também não estava bem localizada, pois os rapéis até ela e a partir dela também não cabiam. Foi o tempo de Xandão e Leandro substituírem o grampo e nos encontrarem na P1 para definirmos a solução ótima: substituir a parada dupla seguinte por duas novas paradas, utilizando os grampos anterior e posterior já existentes, ou seja, descemos a P2 dois grampos abaixo – o que é bem tranquilo, pois os lances são longos e exposto; e fizemos uma P3 onde antes era a P2, numa enfiada curta, de cerca de 30 metros.

Leandro substituindo o grampo da saída variante da Antares.
Xandão e Igor seguiram novamente na guiada. Leandro realizou a instalação das duas chapeletas necessárias para criação das paradas duplicadas. Eu retirei o grampo antigo para eliminar a parada dupla indesejada. O grampo começou a girar de acordo, mas logo apresentou fissuras no olhal, que se rompeu. Entortei um pouco a haste do grampo que já havia saído da pedra e tentei fazê-lo girar para que a peça saísse inteira, mas a haste também quebrou, sem deixar parte para fora da pedra.

À esquerda, nova parada dupla para rapel após a P1 e, à direita, nova P2.

Parada dupla eliminada com a retirada de grampo antigo.
Concluídas as instalações, restava-nos seguir com desenho do novo croqui. O vento continuava soprando em nossa direção e sentíamos alguns pingos da chuva que caía ainda na região da floresta da Tijuca. Entretanto a chuva parecia se deslocar em direção às paineiras. Decidimos seguir em frente para finalizar as tarefas.
Igor seguiu guiando a cordada, e Xandão e Leandro foram revezando. Fomos juntos até a última parada da via, avaliando a reforma feita e estimando a distância dos esticões. Descemos sem unir as cordas para avaliar também os rapéis, mas utilizando ambas as cordas para agilizar. Estávamos todos muito satisfeitos com os resultados, os esticões e rapéis ficaram todos adequados com uma única corda de 60 metros, nosso objetivo inicial e, claro, dentro do possível, com o mínimo de intervenções e sem alterar a exposição da via, como havia pedido o Pellegrini, um dos conquistadores da via. No rapel para a P1, instalamos uma chapeleta próxima a um grampo stubai solitário localizado na linha da via, para evitar que o escalador se protegesse utilizando indevidamente o stubai, que hoje tem apenas valor histórico.


Daniel instalando chapeleta próximo a grampo stubai da conquista.
Terminamos os rapéis e nos organizamos na base. Fiz os últimos ajustes no croqui. Por fim, a chuva não veio até nós. Aproximadamente às 14:30h estávamos de volta ao parque, satisfeitos pela conclusão da reforma.

Sorriso estampados por um trabalho bem-feito.
Agradecimentos ao Alexandre Gomes (Xandão), Leandro do Carmo, Henrique Menescal, Waldir Junior (Junior), Miriam Gerber e Igor Costa pela manutenção. CERJ sempre!

Novo croqui da via com tracklog de aproximação. Link também aqui.



